Entre as primeiras opções de António José Seguro enquanto Presidente da República, a escolha das cinco personalidades que irá nomear para o Conselho de Estado terá a consequência imediata de pôr em prática a promessa de reequilibrar o sistema político, inclinado para a direita desde 2024, a começar pelo órgão consultivo.Fruto da conjuntura muito adversa para o PS e outros partidos, com a esquerda parlamentar reduzida a menos de um terço dos deputados, o Conselho de Estado tem agora 11 elementos ligados ao PSD (incluindo o próprio Marcelo Rebelo de Sousa e já sem o falecido Pinto Balsemão), além do centrista António Lobo Xavier e de André Ventura, líder do Chega. Pelo contrário, Carlos César é o único representante do PS, pois Pedro Nuno Santos, igualmente eleito como um dos cinco representantes da Assembleia da República, autoexcluiu-se do mandato, após deixar a liderança do partido, em protesto com a demora na eleição de novos representantes que reflitam a legislatura decorrente das eleições de 18 de maio de 2025.Apesar de a eleição de Seguro não revolucionar o órgão consultivo, criado pela revisão constitucional de 1982 para substituir a tutela militar do Conselho da Revolução, até porque grande parte dos seus membros têm assento por inerência (assim ocorre com o primeiro-ministro, o presidente da Assembleia da República, os presidentes dos governos regionais da Madeira e dos Açores, e ainda o presidente do Tribunal Constitucional e o provedor de Justiça), os cinco nomes que escolherá para conselheiros devem manter a tradição das “quotas presidenciais” dos seus antecessores. Que, com maior ou menor abrangência, privilegiaram as respetivas áreas políticas.Mesmo sem certezas quanto ao quinteto que será nomeado por Seguro, fontes ouvidas pelo DN defendem que a campanha eleitoral do antigo secretário-geral do PS, as prioridades que disse ter na corrida a Belém e os exemplos dos antecessores permitem antecipar opções do novo Presidente da República.Tal como Cavaco Silva escolheu o neurocirurgião João Lobo Antunes e Marcelo Rebelo de Sousa juntou figuras da ciência e da cultura, como António Damásio e Eduardo Lourenço - o primeiro renunciou, sem nunca ter apresentado as declarações de património e de rendimentos ao Tribunal Constitucional, e o segundo faleceu antes do final do primeiro mandato - ou a maestrina Joana Carneiro e a escritora Lídia Jorge, Seguro tem hipóteses equivalentes. A começar pela sua mandatária nacional, a cientista Maria do Carmo Fonseca, e pelo poeta Manuel Alegre, histórico socialista e antigo candidato presidencial, que já foi conselheiro de Estado, eleito pela Assembleia da República.De igual modo, tendo a Saúde sido uma prioridade da sua candidatura, poderá fazer sentido trazer conhecimento de causa ao Conselho de Estado. Não lhe faltam opções, incluindo Adalberto Campos Fernandes e Maria de Belém Roseira, ministros da Saúde em Governos socialistas, ou o médico João Varandas Fernandes, um antigo vice-presidente do CDS que foi apoiante desde a primeira hora de quem se lançou na corrida presidencial à revelia de um PS que tardou a apoiá-lo.Também próximos de Seguro, e com experiência governativa que pode ser uma mais-valia no Conselho de Estado, são outros dois ex-ministros socialistas: Nuno Severiano Teixeira, presidente do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, que teve a pasta da Administração Interna com António Guterres e a da Defesa com José Sócrates, e Guilherme d’Oliveira Martins, mandatário distrital em Lisboa, bem como ministro da Educação, da Presidência e das Finanças nos Executivos de António Guterres.Com perfil mais político, surgem dois socialistas de gerações tão diferentes quanto João Soares, antigo presidente da Câmara de Lisboa e filho de Mário Soares, fundador e primeiro militante do PS a ser eleito chefe de Estado, e Duarte Cordeiro, afastado da política ativa após ser secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares e ministro do Ambiente em Governos de António Costa.Nos precedentes, destacam-se as opções de Cavaco Silva pelos seus ex-ministros Dias Loureiro, Manuela Ferreira Leite e Leonor Beleza, enquanto Jorge Sampaio chamou Vítor Constâncio, seu antecessor na liderança do PS, Mário Soares escolheu Almeida Santos e Gomes Mota, um dos responsáveis pela sua campanha presidencial, e Ramalho Eanes rodeou-se de figuras que estariam ligadas à fundação do PRD..Num mandato muito muda.Tal como outros candidatos insistiram nos debates, sempre que António José Seguro mencionava o argumento “não meter os ovos todos no mesmo cesto”, para defender a importância da sua presença em Belém, um mandato presidencial de cinco anos - embora nenhum antecessor tenha falhado a reeleição - basta para testemunhar muitas alterações na conjuntura política. E alterar drasticamente o elenco de um órgão em que, sem terem lugar vitalício, como os antigos chefes de Estado, só os cinco conselheiros escolhidos pelo Presidente da República têm garantidos cinco anos de permanência.Exemplo disso foi a Presidência de Marcelo Rebelo de Sousa, que na parte final do segundo mandato chegou a ter uma dúzia de sociais-democratas à mesa (além dele próprio, o antecessor Cavaco Silva; o primeiro-ministro Luís Montenegro; o presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco; o presidente do Governo Regional da Madeira, Miguel Albuequerque; o presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro; os eleitos pela Assembleia da República Pinto Balsemão (falecido em 2025) e Carlos Moedas; e os seus escolhidos Leonor Beleza e Marques Mendes, além do centrista António Lobo Xavier, também nomeado por si, e do líder do Chega, André Ventura.Muito diferente era o Conselho de Estado ao iniciar o primeiro mandato, em 2016. Consigo só tinha cinco sociais-democratas (Cavaco Silva, Miguel Albuquerque, Pinto Balsemão, Leonor Beleza e Marques Mendes) e o centrista Adriano Moreira, eleito pela Assembleia da República. Do outro lado, havia seis socialistas: os antigos Presidentes da República Mário Soares e Jorge Sampaio; o primeiro-ministro António Costa; o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues; o presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro, o seu nomeado António Guterres - embora o antigo primeiro-ministro tenha saído poucos meses mais tarde, para ser eleito secretário-geral da Organização das Nações Unidas, sendo substituído pelo cientista António Damásio - e ainda Carlos César, eleito pela Assembleia da República. Chegado ao Palácio de Belém na alvorada da Geringonça, Marcelo teve ainda, entre os conselheiros de Estado eleitos pelos deputados, o bloquista Francisco Louçã e o comunista Domingos Abrantes..Quem está no Conselho de Estado além dos cinco escolhidos.VitalíciosMarcelo Rebelo de Sousa vai juntar-se a Ramalho Eanes e a Cavaco Silva, elevando para três os antigos Presidentes da República no Conselho de Estado. Quem foi chefe de Estado tem lugar vitalício no órgão consultivo, no qual Mário Soares (falecido em 2017) e Jorge Sampaio (que morreu em 2021) também deram as suas opiniões.InerentesNo Conselho de Estado continuarão, por inerência de funções, o primeiro-ministro, Luís Montenegro; o presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco; o presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro; e o presidente do Governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque (todos eles do PSD). E ainda o presidente do Tribunal Constitucional, José João Abrantes (em final de mandato), e o titular da Provedoria da República, cargo em que a ex-ministra Maria Lúcia Amaral nunca chegou a ser substituída. A Assembleia da República terá de fazer eleições para esse órgão e para três juízes do Constitucional no final deste mês de fevereiro.EleitosMuito protelada tem sido a escolha dos cinco eleitos pela Assembleia da República. Face à presente configuração parlamentar, saída das legislativas de 2025, subsistem dúvidas sobre quem deverá ser o quinto elemento, pois o Chega tem mais deputados do que o PS (embora tenha recebido menos votos), e os partidos da AD ficaram longe da maioria absoluta. Certo é que, entre os atuais eleitos, dois do PSD (Pinto Balsemão e Carlos Moedas), dois do PS (Pedro Nuno Santos e Carlos César) e um do Chega (André Ventura), Balsemão faleceu e o antigo líder socialista deixou de comparecer às reuniões..Quem foram os cinco nomeados pelos anteriores Presidentes da República.Ramalho Eanes (1982-1986)Alfredo Nobre da CostaFigueiredo DiasHenrique de BarrosMelo AntunesMiguel Galvão TelesMário Soares (1986-1991)Alfredo Nobre da CostaAlmeida SantosGomes MotaPinto Machado (Fraústo da Silva a partir de 1988)Rui AlarcãoMário Soares (1991-1996)Alfredo Nobre da CostaAlmeida Santos (Dias da Cunha a partir de 1995)Fraústo da SilvaGomes MotaRui AlarcãoJorge Sampaio (1996-2001)Carlos CarvalhasJosé Manuel Galvão TelesMaria de Jesus Serra LopesMelo Antunes (João Cravinho a partir de 2000)Vítor ConstâncioJorge Sampaio (2001-2006)Carlos CarvalhasJoão CravinhoJosé Manuel Galvão TelesMaria de Jesus Serra LopesVítor ConstâncioCavaco Silva (2006-2011)Dias Loureiro (Vítor Bento a partir de 2009)João Lobo AntunesManuela Ferreira Leite (Leonor Beleza a partir de 2008) Marcelo Rebelo de SousaMiguel Anacoreta CorreiaCavaco Silva (2011-2016)Bagão FélixJoão Lobo AntunesLeonor BelezaMarcelo Rebelo de SousaVítor Bento (de fora entre 2014 e 2015)Marcelo Rebelo de Sousa (2016-2021)António Guterres (António Damásio a partir de 2016)António Lobo XavierEduardo LourençoLeonor BelezaMarques MendesMarcelo Rebelo de Sousa (2021-2026)António Damásio (Joana Carneiro a partir de 2024)António Lobo XavierLeonor BelezaLídia JorgeMarques Mendes