Condecorado em Espanha, Marcelo Rebelo de Sousa alerta que o multilateralismo "quase morreu ou hibernou"
O antigo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, disse nesta quinta-feira, ao receber o Prémio Josep Piqué, no Foro La Toja, realizado na cidade galega de Pontevedra, que o multilateralismo "quase morreu ou hibernou" nos últimos seis anos, marcados por "uma inversão de valores ou total ausência de valores" na cena internacional.
Descrevendo, no seu discurso de agradecimento, um cenário de "esvaziamento das organizações internacionais", de "imposição da força ao direitos" e em que "o unilateralismo e o bilateralismo se converteram em prática diária", Marcelo Rebelo de Sousa disse que os Estados Unidos "delibitaram, em mais do que uma ocasião, a aliança histórica com a Europa". E que "cresceram rapidamente forças antissistémicas ou assistémicas", bem como aumentaram as ditaduras "escondidas atrás das democracias iliberais".
Depois de alertar para a forma como a luta pelo controlo da Inteligência Artificial pode levar a "acentuarem-se as desigualdades internacionais", Marcelo Rebelo de Sousa fez uma aparente referência ao resultado das eleições intercalares para o Congresso dos EUA, que poderá levar ao fim da maioria republicana nas duas câmaras. Mencionou uma "clarificação muito importante, quem sabe se decisiva", dentro de um mês, e as midterm elections, que podem constituir um duro golpe para o presidente norte-americano Donald Trump, estão marcadas para 3 de novembro.
Como receita para contrariar a crise das democracias e a ascensão dos populismos, o antecessor de António José Seguro, que recebeu o Prémio Josep Piqué do rei de Espanha, Filipe VI, defendeu uma "reafirmação do património espiritual da Europa", na medida em que "fez do nosso continente um exemplo singular no mundo". E colocou a dignidade da pessoa, o primado do Estado de Direito, a economia social de mercado e a justiça e felicidade de todos como motivos para que tantos procurem a Europa.
No final, depois de ouvir o português dizer que "nada é eterno e os impérios não são eternos também", Filipe VI elogiou o "caro amigo Marcelo" e recordou os "sábios conselhos" que dele recebeu ao longo dos anos. Também presente na cerimónia esteve o presidente do Governo de Espanha, Pedro Sánchez, e um dos seus antecessores, Mariano Rajoy.

