Depois de perspetivas antagónicas sobre o impacto da greve geral de 3 de junho – com o Governo a sublinhar a adesão “residual” dos trabalhadores e a CGTP a destacar a rejeição que o pacote laboral levou nesse dia por parte da população, ultrapassando o escopo da central sindical – a proposta do Executivo liderado por Luís Montenegro para alterar a lei laboral seguirá o caminho inevital de qualquer lei, que é ser discutida no Parlamento. Por agora, PS e Chega – os partidos que na aritmética parlamentar podem determinar o futuro do documento – estão alinhados na ideia de que, tal como está, o documento do Governo será chumbado, mas há margem para negociações.Neste momento, a única certeza é a de que no dia 18 de junho, de acordo com a agenda do Parlamento, o plenário será dedicado a discutir a Proposta de Lei n.º 77/XVII/1.ª, que pretende alterar o Código do Trabalho.“Os trabalhadores aproveitaram mais uma vez para dizer: Não ao pacote laboral. Rejeitamos o pacote laboral. E não é só a CGTP que o diz, é a sociedade no geral”, garantiu no dia da greve o secretário-geral da CGTP, Tiago Oliveira, entre os milhares que saíram para a rua com o objetivo de mostrar ao Governo que o diploma que surgiu sob a designação de anteprojeto Trabalho XXI não pode passar. À margem dos números de pessoas que aderiram às várias ações de protesto no país, houve também desacatos e detenções em frente à Assembleia da República, que não refletiram a vontade da CGTP, que justificou, nas palavras de Tiago Oliveira numa entrevista à RTP: “Há grupos que se integram nas manifestações da CGTP para depois levar por diante este tipo de situações.” Porém, no outro lado da barricada, confederações patronais e Governo argumentaram no sentido oposto ao da rejeição da proposta de lei.A ministra do Trabalho, Rosário Palma Ramalho, ainda na manhã de 3 de junho, afirmou que “algumas pessoas estiveram em greve no setor privado numa percentagem bastante reduzida”. Porém, acrescentou, no setor público houve mais adesão.Num comunicado no mesmo dia, A Confederação Empresarial de Portugal (CIP) argumentou que a adesão a esta greve foi “ainda menor do que a verificada em 11 de dezembro de 2025, a qual já tinha sido muito baixa”.A tendência do consumo de energia e o impacto da greveTal como aconteceu a 11 de dezembro, na anterior greve geral, que teve a adesão das duas centrais sindicais – CGTP e UGT –, ao contrário desta, em que a UGT se excluiu, por a considerar “extemporânea”, o DN analisou os consumos de energia, que é um indicador do impacto que uma greve pode ter sobre um país, tendo em conta as necessidades industriais, por exemplo.De acordo com os dados da entidade que gere a rede elétrica, a REN - Redes Elétricas Nacionais, aos quais o DN teve acesso, “a 3 de junho de 2026, o consumo de energia elétrica totalizou 142 Gigawatt-hora (GWh), com uma ponta de 6953 Megawatt (MW) às 20:15. No mesmo dia de 2025, o consumo de energia elétrica totalizou 141 GWh”, o que significa que o consumo de energia elétrica em Portugal no dia 3 de junho de 2026 foi cerca de 0,71% superior ao registado no mesmo dia de 2025.Por outro lado, considerando que, “no dia 2 de junho, o consumo de energia elétrica totalizou 145 GWh, com uma ponta de 7114 MW às 21:15”, é possível concluir que no dia da greve houve uma redução no consumo de energia de cerca de 2,1% face ao dia anterior.O futuro do pacote laboralNo dia da greve, o líder do Chega afirmou que “ficou clara a mensagem para o país” sobre o diploma do Governo, acrescentando “que querem que o Parlamento resolva o problema”.André Ventura garantiu que o Chega está empenhado em resolver o problema, até porque vincou que “uma ampla maioria do país sabe que esta é uma má reforma laboral”. “Se ela continuar nestes termos não é preciso mais ruído nenhum, mais greves nenhumas, esta lei laboral será derrotada onde tem de ser derrotada, que é no Parlamento”, sustentou, salientando que “se houver alterações ou se houver outra lei laboral, o Parlamento cá estará para a discutir”.Com a aritmética do hemiciclo a impor uma decisão nas mãos do Chega ou do PS, importa lembrar que o líder socialista, José Luís Carneiro, no dia 21 de maio, numa declaração ao país, acusou o Governo de avançar com a “desproteção dos mais vulneráveis” ao insistir naquilo que considerou ser a “contrarreforma laboral”, enquanto anunciava um voto contra na generalidade, “mesmo que o primeiro-ministro venha com a proposta que apresentou na véspera da greve geral [em dezembro] de avançar para um salário mínimo dos 1600 euros”..Em dia de greve geral, Parlamento agenda discussão sobre pacote laboral para 18 de junho.CGTP entrega hoje pré-aviso de greve geral para "derrotar o pacote laboral".Montenegro ainda procura quem possa aprovar o Pacote Laboral