Centeno critica Marcelo por ter dado posse a Governo da AD sem uma maioria parlamentar de apoio
Mário Centeno criticou este sábado, 19 de setembro, a decisão do ex-Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, de dar posse ao Governo da AD liderado por Luís Montenegro sem uma maioria parlamentar de apoio. Para o antigo ministro das Finanças, a falta de uma base parlamentar estável compromete a capacidade do executivo para concretizar reformas.
“Não consigo entender como é que se dá posse a governos que não têm apoio parlamentar”, afirmou Centeno, citado pela agência Lusa, questionando a capacidade do atual executivo para avançar com reformas sem uma base parlamentar estável. “Devíamos ter percebido, nessa altura, que olhar para um Governo que não tem apoio parlamentar, que não fez uma única reunião que se saiba para poder ter apoio parlamentar, e depois pedir-lhe reformas?”, criticou o ex-governador do Banco de Portugal, numa referência ao Governo de Luís Montenegro, empossado por Marcelo Rebelo de Sousa pela primeira vez em 2024.
Recorde-se que as eleições que levaram a AD ao poder foram convocadas após a demissão de António Costa em novembro de 2023, na sequência das buscas em São Bento ao gabinete de Vítor Escária, seu chefe de gabinete, e de o Ministério Público ter anunciado que Costa era alvo de uma investigação autónoma do Supremo Tribunal de Justiça sobre os projetos de lítio e hidrogénio. Nessa altura, António Costa terá sugerido a Marcelo a nomeação de Mário Centeno, então no Banco de Portugal, para assumir a chefia do Governo mantendo a maioria parlamentar absoluta do PS, o que foi rejeitado pelo então chefe de Estado.
Este sábado, durante a primeira conferência do Instituto Progresso, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, Centeno considerou que a instabilidade acaba por penalizar todo o país, mas também o próprio Governo. “O país não merece, o país não pode ter legislaturas desta natureza”, afirmou, defendendo que uma legislatura não deve ficar dependente da aprovação ou rejeição de uma única lei no Parlamento.
Na intervenção, o antigo governador do Banco de Portugal contrapôs o papel de Cavaco Silva em 2015, quando o então Presidente exigiu um acordo escrito para dar posse à chamada “geringonça” liderada por António Costa, na qual o governo PS tinha apoio parlamentar de PCP e BE. Para Centeno, essa decisão constituiu “provavelmente um dos maiores contributos” de Cavaco Silva “para a democracia em Portugal”.
O antigo ministro, que integrou os governos de António Costa entre 2015 e 2020, associou a estabilidade política desse período ao crescimento económico e ao progresso registados, classificando-o “como o Governo mais reformista da história recente do país”.
"A produtividade também requer muita preparação. E requer que estes ingredientes de que falei, qualificações, estabilidade financeira e política, sejam realidade. E não é formar uma estabilidade política por decreto. Não. É pôr as 230 pessoas que foram eleitas deputados a gerar essa estabilidade no sítio onde ela tem que ser gerada, que é na Assembleia da República", apontou.
Ex-líder parlamentar do PSD acusa Governo de Montenegro de “insuficiência de propostas reformistas”
Na mesma conferência inaugural do Instituto Progresso, ao lado de Centeno, o antigo líder parlamentar do PSD Paulo Mota Pinto acusou o atual Governo de “insuficiência de propostas reformistas” e considerou que tem havido uma “gestão do quotidiano”, defendendo que a AD deve propor reformas mesmo sem maioria no parlamento.
Paulo Mota Pinto assumiu que atualmente é difícil passar reformas no parlamento porque “não há sequer uma maioria que suporte o Governo”. “Mas isso não dispensa o Governo de as propor e de confrontar a oposição com a sua responsabilidade. Assumir uma atitude de gestão do quotidiano é algo que não é uma atitude reformista”, criticou.
Questionado se concordava com as recentes palavras do antigo primeiro-ministro do PSD Pedro Passos Coelho que defendeu que o atual Governo devia seguir a tradição reformista do partido, o antigo dirigente e líder parlamentar social-democrata respondeu: “sim, eu concordo com isso”.
“Eu concordo com que tem havido uma insuficiência de propostas reformistas. Houve a reforma laboral que não se conseguiu, mas penso que o Governo devia fazer mais nesse sentido”, insistiu.
Presidido pelo deputado do PS Miguel Costa Matos, o Instituto Progresso foi lançado no final de agosto e reúne progressistas do centro à esquerda, com o objetivo de ser um "tubo de ensaio" para pensar e testar políticas públicas, através de experiências-piloto no terreno.
Hoje, na conferência inaugural que decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian, estiveram ainda nomes como os ex-ministros do PS Maria Manuel Leitão Marques, Eduardo Cabrita, Ana Catarina Mendes ou ainda a ex-candidata a Presidente da República Ana Gomes, os socialistas Álvaro Beleza ou Pedro Costa e os deputado António Mendonça Mendes (PS) e Paulo Muacho (Livre).
Com Lusa

