Castro Almeida, ministro da Economia e da Coesão Territorial, recusa uma “guerra partidária” em torno da execução do Plano de Recuperação e Resiliência, mas respondeu às críticas do Partido Socialista às sucessivas reprogramações do plano, afirmando que, se o PS insiste em colocar o foco nesse ponto, então “a reprogramação é uma moção de censura ao Governo socialista, que programou mal”.As declarações foram feitas no final de mais uma sessão das “Conversas na Bolsa”, iniciativa da Associação Comercial do Porto, desta vez sob o lema “Os 25 anos do Douro como Património do Mundo”, que encheu a sala.Questionado sobre a possibilidade de uma nova reprogramação do PRR, Castro Almeida procurou “tranquilizar” os portugueses. O ministro reconheceu que, quando o atual Governo iniciou funções, o plano “estava bastante atrasado”, mas garantiu que os atrasos têm vindo a ser recuperados. “Neste momento não está atrasado”, afirmou, apontando como prova o facto de os últimos pedidos de pagamento terem sido apresentados antes do prazo limite.O governante adiantou ainda que o próximo pedido de pagamento, o nono, também será entregue dentro do prazo. “Vamos apresentar também o nono pedido de pagamento dentro do prazo”, disse, sublinhando que, depois desse, ficará apenas por apresentar o décimo e último pedido. Para Castro Almeida, se o pedido for apresentado “antes do limite”, isso significa que o processo está a cumprir o calendário.Apesar de admitir a existência de dificuldades, o ministro rejeitou que estas ponham em causa o objetivo final do Governo. “A função do Governo e da administração pública é resolver problemas”, afirmou. “Há muitas situações difíceis, os prazos são muito apertados e há situações delicadas. Mas para isso é que há um Governo e uma administração pública: para ultrapassar as dificuldades.”Castro Almeida reconheceu que há “atrasos pontuais nesta e naquela obra” e que “há várias obras que estão com dificuldades”, mas insistiu que a missão do Executivo é assegurar que Portugal não desperdiça fundos europeus. “Qual é o resultado final que os portugueses esperam que o Governo consiga? Que não desperdice nem um euro do dinheiro que a Europa coloca à disposição de Portugal. Esse é que é o nosso trabalho. E esse é que é o nosso compromisso”, declarou.Sobre as críticas socialistas, o ministro recusou transformar o tema numa disputa político-partidária. “Eu não quero uma guerra partidária sobre este assunto. Isto é um projeto de interesse nacional”, afirmou. Ainda assim, deixou uma crítica direta ao anterior Executivo: “Se o Partido Socialista vem pôr o foco nas reprogramações, tenho de dizer que a reprogramação é uma moção de censura ao Governo socialista, que programou mal.”Para Castro Almeida, “a reprogramação é um ato de gestão” e não deve ser “diabolizada”. O ministro comparou o processo aos ajustamentos feitos no planeamento diário, semanal ou mensal, sempre com o objetivo de alcançar os resultados finais. “Só se reprograma o que estava errado. Só fazemos ajustamentos onde era preciso ajustar. Portanto, se estamos a ajustar, é porque as coisas não estavam bem delineadas à partida”, afirmou.O governante explicou ainda que, em alguns casos, poderá ser necessário retirar projetos do financiamento do PRR e canalizar os fundos para outros projetos que sejam executáveis dentro do prazo. “É uma atividade normal de gestão”, sustentou. “Reprogramar, ajustar para garantir que não se perca dinheiro, esse é o trabalho do Governo. Não há nenhum mal. Não se pode diabolizar as reprogramações.”O ministro garantiu, porém, que as obras da responsabilidade do Estado que venham a ser retiradas do financiamento europeu não ficarão paradas. “As obras não vão ficar paradas. Há outras fontes de financiamento para garantir a conclusão das obras”, afirmou.Castro Almeida rejeitou igualmente que esteja em causa a habitação acessível, assegurando que o Governo quer ir além da meta inicialmente prevista. “Nós vamos fazer muito mais habitação do que estava previsto. Estavam previstas apenas 26 mil casas e ficámos de fazer mais de 100 mil”, disse.No mesmo encontro, o ministro anunciou também uma linha de crédito para empresas do setor da madeira, destinada a acelerar a remoção da lenha e da madeira caída nas florestas da região Centro antes da época de incêndios. Castro Almeida alertou para o “potencial de risco enorme” do material acumulado no terreno e defendeu que é essencial agir rapidamente.“É muito importante trabalharmos todos intensamente para remover a lenha que está no meio das florestas da região Centro e à volta do lago, porque tem um potencial de risco enorme para a época dos incêndios”, afirmou. Segundo o ministro, o Governo está a fazer “tudo o que está ao seu alcance” para que a lenha que está hoje no chão seja retirada rapidamente.A nova linha de crédito será disponibilizada através do Banco Português de Fomento e destina-se às empresas que trabalham na área das madeiras e que precisam de recolher grandes quantidades de material. Castro Almeida explicou que estas empresas necessitam de “capital financeiro” para adquirir madeira em volume significativo, sem provocar uma quebra dos preços, e para assegurar o respetivo armazenamento.“Criámos esta possibilidade de recorrerem, através do Banco Português de Fomento, a linhas de crédito para poder levantar a madeira que está em grandes quantidades no meio das nossas matas”, afirmou.O ministro não avançou com um montante fechado para a medida. “Não tenho um valor fixo”, disse, explicando que o Governo irá acompanhar o valor das candidaturas e ajustar a oferta à procura. “É bom que apareçam empresas interessadas em recorrer à linha de crédito. Nós ajustaremos a oferta às necessidades”, acrescentou.Castro Almeida esclareceu ainda que os proprietários individuais não poderão candidatar-se diretamente a este apoio. A linha foi pensada para empresas com capacidade para operar em grande escala. “É para as empresas que trabalham em grandes quantidades no levantamento de lenha”, afirmou, justificando que está em causa a necessidade de “capital financeiro relevante para poder comprar muita lenha ao mesmo tempo” e para a poder armazenar.“Isso custa caro e por isso é que criámos a linha de crédito”, concluiu, insistindo que o essencial é garantir que, “antes da época dos incêndios”, seja retirada a lenha que permanece no terreno.Douro: “Temos dos melhores vinhos do mundo, é preciso que o resto do mundo saiba disso”A sessão das “Conversas na Bolsa” foi dedicada aos 25 anos da classificação do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial da UNESCO. Castro Almeida considerou que a data é “uma responsabilidade e um orgulho para a região do Douro” e defendeu que “valeu a pena o trabalho” desenvolvido há 25 anos para alcançar esse reconhecimento internacional.O ministro destacou que a Comunidade Intermunicipal do Douro foi a sub-região do Norte que mais cresceu nos últimos 25 anos. “É bem certo que ainda está longe da média da região e longe da média nacional, mas, apesar de tudo, foi a região do Norte que mais cresceu”, afirmou, deixando uma palavra de reconhecimento às populações e às entidades locais.Durante a intervenção, Castro Almeida sublinhou o papel económico, cultural e identitário do Douro. “O Douro não é apenas um cenário de beleza. É um espaço de produção, um símbolo da nossa cultura e um ativo estratégico na economia portuguesa”, afirmou. Para o governante, a região demonstra “uma história de resiliência, de inovação e de projeção internacional” que deve orgulhar o país.O ministro associou diretamente o Douro ao setor vitivinícola, em particular ao vinho do Porto e aos vinhos do Douro, que classificou como produtos com “potencial enorme”. “Os vinhos portugueses têm um grande potencial e nós temos que nunca desistir de fazer a sua promoção e divulgação”, defendeu. “Temos dos melhores vinhos que há no mundo. É preciso é que o resto do mundo saiba disso.”Castro Almeida destacou ainda a importância da internacionalização da marca Portugal e dos vinhos portugueses, lembrando que o setor assume um papel estruturante nas exportações agroalimentares. Segundo o ministro, em 2025, o contributo dos vinhos para as exportações atingiu quase mil milhões de euros.“A notoriedade global deste produto não é apenas uma questão comercial. É uma face visível do país nos mercados internacionais”, afirmou. Neste contexto, apontou os acordos comerciais, em particular o acordo com o Mercosul, como “uma oportunidade concreta para diversificar mercados e alargar a presença dos vinhos portugueses a novos públicos”.O governante destacou também a iniciativa Portuguese Wine Global, da AICEP e do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, que visa capacitar as empresas vinícolas para a internacionalização.Na intervenção dedicada ao Douro, Castro Almeida defendeu que a importância económica da região “não se mede apenas por indicadores comerciais”, mas também pela capacidade de gerar valor “da terra ao copo”: da produção agrícola à transformação, da distribuição ao turismo. É, afirmou, um setor que mobiliza pequenas empresas familiares, cooperativas e grandes operadores, tendo um papel determinante “na coesão territorial e na fixação de populações”.O ministro considerou ainda que o Douro é exemplo de conciliação entre atividade económica, preservação ambiental e valorização cultural. “Esta paisagem, moldada ao longo de séculos pelo esforço humano, é um património vivo, onde a tradição dialoga com a inovação”, afirmou.Olhando para o futuro, Castro Almeida defendeu que o reconhecimento da UNESCO trouxe visibilidade, mas também a responsabilidade de preservar o território. Por isso, considerou essencial que as políticas públicas continuem a apoiar “a modernização, a inovação e a internacionalização do setor”.O ministro destacou investimentos previstos no âmbito do programa Portugal Transformação, Superação e Resiliência, nomeadamente intervenções de mitigação do risco agrícola, sistemas de produção sustentáveis, agricultura de precisão e digitalização. Referiu ainda a construção de barragens e infraestruturas hidroagrícolas, incluindo cerca de 400 charcas e pequenas albufeiras, destinadas a reforçar a segurança hídrica e a reduzir a vulnerabilidade do setor agrícola às alterações climáticas.Castro Almeida apontou ainda um investimento de 246 milhões de euros em soluções de apoio às autarquias e entidades gestoras de água, para deteção precoce de secas e cheias e reforço da resiliência dos sistemas públicos essenciais.Ao celebrar os 25 anos do Douro como Património Mundial, o ministro afirmou que não se evoca apenas uma paisagem, mas “uma obra contínua da humanidade em diálogo com a natureza”. O Douro, disse, é “um território onde o esforço de gerações moldou a terra em socalcos que são testemunho de coragem, persistência e identidade”.“O Douro não se contempla apenas: sente-se, vive-se, respeita-se”, afirmou Castro Almeida, defendendo que este legado deve ser cuidado “com responsabilidade”, “ação, compromisso e visão”.O governante terminou sublinhando que o Governo está consciente do trabalho que há a fazer na região e que pretende concretizá-lo “em articulação com os autarcas e as demais organizações de base local e regional”. Apesar do crescimento registado, lembrou que a Comunidade Intermunicipal do Douro continua abaixo da média do PIB per capita da Região Norte e da média nacional. “Há um grande caminho a percorrer. Vamos fazê-lo em conjunto”, concluiu.