O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, classificou este sábado como “ridículas” as alegadas insinuações do PSD sobre uma coligação entre socialistas e o Chega, acusando a direita de esconder um acordo para cortar pensões.À margem da Rota pela Economia do Mar na Póvoa de Varzim, distrito do Porto, o líder do PS reagiu às declarações de Luís Montenegro sobre o chumbo da revisão laboral, na sexta-feira, invertendo a acusação para um "jogo de máscaras" entre a AD e o partido de André Ventura.“Todos entendem que isso é ridículo. Então alguém que andou dias e dias a encontrar-se, a reunir, a dialogar, a negociar, num autêntico jogo de máscaras, agora sentiu-se desfeiteado por parte desse partido e vem dizer que é o PS que está coligado com o Chega? O PS nunca teve qualquer coligação, pelo contrário. Temos é liderado muitas propostas, e há aqueles que votam essas propostas”, retorquiu.Para José Luís Carneiro, o país assistiu, na verdade, a uma tentativa de entendimento formal à direita que acabou por falhar no momento da votação parlamentar da revisão laboral, que foi sexta-feira ‘chumbada’.“Todos nós assistimos a um processo de namoro, que quase que foi casamento, entre a AD e o Chega nesta matéria. Aliás, basta recuperar as declarações que foram feitas no debate na Assembleia da República, em que davam como consumado o acordo entre todos”, sublinhou.O líder socialista subiu o tom e trouxe ao debate os detalhes do que, alegadamente, foi negociado nas costas dos portugueses, apontando para um impacto severo no sistema de reformas até ao final da legislatura.“As coisas são de tal maneira graves que André Ventura veio mesmo publicamente dizer que tinha chegado a um acordo com o primeiro-ministro para alterar a idade da reforma e também em relação à CES (Contribuição Extraordinária sobre a Solidariedade), e que iria passar a escrito esse acordo. E esse acordo teria implicações até ao fim de 2028”, afirmou.Segundo o secretário-geral do PS, os moldes desse eventual entendimento orçamental implicariam medidas de forte austeridade ou cortes diretos nos rendimentos dos cidadãos.“O que aparentemente terá sido objeto de negociação entre Luís Montenegro e André Ventura levaria a um corte nas pensões. Esse acordo, que terá sido objeto, pelo menos, de diálogo ou de concertação, significava cortar 12% nas pensões que estão a pagamento aos pensionistas. Significava, para o futuro, colocar em causa as pensões dos mais jovens”, denunciou.José Luís Carneiro concluiu exigindo explicações públicas aos dois líderes partidários sobre o custo financeiro do processo.“Essa medida significava um custo anual de 4,5 mil milhões de euros, que só se poderia fazer com várias opções. Uma era cortar nas pensões 12%, a outra seria aumentar os impostos, e aumentar os descontos para a Segurança Social, quer dos trabalhadores, quer das empresas. Só os protagonistas podem explicar o que é que andaram a negociar para terem chegado a este triste espetáculo”, rematou."Política social do Governo falhou"José Luís Carneiro considerou ainda que “a política social do Governo falhou de forma abrupta”, apontando uma vez mais o ‘chumbo’ da proposta de revisão da legislação laboral.“A política social do Governo falhou. Falhou de forma abrupta na contrarreforma laboral e tem falhado nas outras áreas. Tem falhado na saúde e na habitação e agora estamos também a ver que o Governo também não funciona na economia”, declarou o líder do PS.José Luís Carneiro manifestou-se satisfeito com o resultado da votação da revisão da legislação laboral no Parlamento, considerando que a iniciativa do executivo de Luís Montenegro prejudicava os cidadãos.“Estou satisfeito porque os trabalhadores portugueses conseguiram derrotar a contrarreforma laboral que era o resultado não apenas das propostas da AD, mas também de outras propostas que ofendiam os jovens, as mulheres, as famílias, os mais vulneráveis. E fizeram-no, até à última hora, também com o apoio do Chega”, sublinhou.O secretário-geral do PS fez questão de demarcar a posição do seu partido face às alegadas “movimentações de bastidores e votações de última hora”, lembrando o histórico do processo.“Vimos os representantes de estruturas sindicais felizes porque, de facto, mostrámos que os portugueses e o país ficam melhor com esta decisão que foi tomada, e em relação à qual o PS teve uma posição muito clara desde o dia 3 de agosto de 2025. Desde a primeira hora, estivemos com os trabalhadores, com os jovens, com as mulheres, com as famílias, com os mais vulneráveis”, apontou.Carneiro reforçou a oposição ideológica ao documento da Aliança Democrática (AD), referindo que este “ofendia os valores do socialismo democrático, da social-democracia, do humanismo e da democracia cristã”.Instado a comentar recentes declarações do primeiro-ministro, que acusou as oposições de “destratar a mudança”, o líder do principal partido da oposição apontou que o executivo está em desconexão com o país real.“Acho que há um problema grave de falta de sintonia do Governo e de Luís Montenegro com a realidade do país. Só isso é que pode justificar afirmações dessa natureza. Aliás, só isso é que pode justificar os ataques que foram feitos ao Partido Socialista e ao seu secretário-geral por parte da AD”, respondeu, sintetizando que o PS está “a favor das mudanças que melhoram a vida das pessoas” e “sempre contra as mudanças que pioram a vida das pessoas”.A fechar o capítulo laboral, José Luís Carneiro deixou críticas à estratégia de comunicação de Luís Montenegro, na véspera do congresso nacional do PSD.“Não chega fazer cartazes a arregaçar as mangas, e não resolver problemas da habitação, da saúde, dos salários, da competitividade das empresas e da produtividade da economia do país. Com certeza que não há um bom desfecho para um Governo que tem esta atitude e este comportamento”, concluiu.Governo está "de costas voltadas" para economia do marNo âmbito da Rota pela Economia do Mar, que incluiu uma reunião com a Associação de Armadores de Pesca do Norte (AAPN) e uma saída para o mar com profissionais do setor no Porto de Pesca da Póvoa de Varzim, distrito do Porto, o líder socialista considerou que o Governo está "de costas voltadas" para economia do mar e destacou a urgência de apoios públicos à atividade.“A economia do mar, como eu tenho afirmado, dá um contributo muito relevante para a economia do nosso país. Significa 4% da riqueza nacional criada em cada ano no nosso Produto Interno Bruto (PIB). Ao mesmo tempo, a economia do mar é responsável por 4% do emprego nacional”, contextualizou.José Luís Carneiro alertou para as dificuldades que afetam a comunidade piscatória nacional e defendeu a necessidade de uma intervenção rápida do Estado.“Muitas dessas dificuldades têm que ver com o enquadramento europeu, nomeadamente em relação às quotas de pescado, mas também com o aumento do custo dos combustíveis e com os esforços de modernização da frota. É necessário que haja políticas públicas que acompanhem estes esforços que são desenvolvidos pelos pescadores”, apontou.O líder do PS assumiu o setor como uma das grandes bandeiras parlamentares do partido até ao encerramento da sessão legislativa.“Nós estamos a fazer desta uma prioridade. É um setor de primeira importância para o crescimento da economia do país, para o crescimento do emprego, para a criação de riqueza e para o nosso desenvolvimento. O país não pode voltar as costas ao mar. Porque o mar não apenas faz parte da nossa identidade mais profunda, como simultaneamente é um dos vetores estratégicos da afirmação de Portugal no mundo”, sustentou.Questionado sobre o problema do assoreamento dos portos nacionais, José Luís Carneiro acusou o executivo liderado por Luís Montenegro de falhar nos prazos das dragagens necessárias.“Essa é uma prioridade muito importante, desde o Algarve até aos portos do Norte. É um dos problemas centrais. O desassoreamento, que tem de ser feito, naturalmente, no quadro do respeito pela biodiversidade e pela sustentabilidade ambiental, irá insuflar vida em muitos ecossistemas. O Governo tinha assumido vários compromissos neste domínio, mas não os está a cumprir. Já levantámos essa questão na Assembleia da República e vamos continuar a fazê-lo”, concluiu..Montenegro reage ao chumbo da reforma laboral: "Jamais tomarei qualquer medida que possa prejudicar o pagamento futuro de pensões".Ventura diz que Chega “não se vende, nem verga”. Hugo Soares acusa-o de "brincar com as pensões à 25ª hora"