Dois terços dos portugueses consideram que o país precisa de uma reforma laboral, mas a maioria recusa que seja a proposta apresentada pelo Governo de Luís Montenegro, segundo os dados do mais recente barómetro da Aximage para o DN, neste mês de maio. O universo de inquiridos manifesta um contraste claro entre a vontade de mudanças nas leis do trabalho e a avaliação negativa dedicada ao pacote desenhado pela ministra do Trabalho, Maria Palma Ramalho. Curiosamente, só o eleitorado da Iniciativa Liberal se mostra favorável à proposta de lei do Executivo, que não obtém aprovação em mais nenhum segmento, nem mesmo entre os eleitores da AD.Ao todo, 66% dos 505 inquiridos neste barómetro defendem que Portugal necessita de uma reforma laboral, contra apenas 25% que consideram desnecessária. O apoio à ideia de reformar a legislação laboral é transversal a praticamente todos os segmentos sociais e políticos, mas particularmente elevado entre os eleitores mais à direita, sobretudo do Chega (80%) e da Iniciativa Liberal (83%) - no eleitorado da coligação de Governo a tendência é menos acentuada (68% a favor, 22% contra). Mas mesmo entre os inquiridos que assumem ter votado à esquerda nas últimas legislativas a tendência é favorável a uma reforma das leis do trabalho, sendo os eleitores do Livre os mais reticentes (45% a favor e 43% contra). Entre os votantes PS, uma nova legislação é defendida por 51% (38% contra).No entanto, a opinião dos inquiridos neste barómetro muda radicalmente quando a pergunta incide em concreto na proposta apresentada pelo Governo: 56% dizem discordar do projeto -33% “discordam” e 23% “discordam totalmente” - enquanto apenas 29% manifestam concordância.. A rejeição é transversal a praticamente todas as famílias políticas, exceto aos liberais. Entre os eleitores da IL nas últimas legislativas, 60% concordam com o pacote laboral do Governo, incluindo 13% que dizem concordar “totalmente”, o que denuncia uma perceção de uma proposta com forte pendor liberal.De resto, nem sequer entre os eleitores da AD existe apoio maioritário. Dos inquiridos que votaram PSD/CDS nas últimas legislativas, 39% concordam com a proposta, mas 44% discordam. Já entre os eleitores do Chega, apenas 36% apoiam o diploma, enquanto 53% se mostram contra. À esquerda, a rejeição é esmagadora: 65% nos eleitores do Livre, 72% entre o eleitorado PS; 80% no universo Bloco de Esquerda; e 88% no da CDU.Este barómetro reforça assim a reforma laboral como um dos principais focos de desgaste político deste Governo, expondo as dificuldades da AD o em construir consensos sociais e parlamentares em torno de uma das suas reformas mais estruturais.A proposta laboral foi sendo “cozinhada” ao longo de cerca de dez meses de negociações conduzidas pelo Ministério do Trabalho, envolvendo mais de 50 reuniões com parceiros sociais, com uma greve geral pelo caminho e uma outra anunciada já para 3 de junho. O processo terminou sem acordo na concertação social, após a rejeição das centrais sindicais - sobretudo da UGT, que foi a única a sentar-se à mesa das negociações com o Governo e com as associações empresariais, enquanto a CGTP ficou afastada.O Governo acabou por aprovar em Conselho de Ministros e apresentar na Assembleira da República uma proposta muito próxima do anteprojeto original, mantendo várias das principais linhas vermelhas apontadas pelos sindicatos, como mudanças nas regras da amamentação, alargamento dos contratos a prazo, regresso do banco de horas individual e novas regras de outsourcing.A oposição também endureceu posições. O PS, pela voz de José Luís Carneiro, já anunciou voto contra, classificando o diploma como uma “contrarreforma laboral”. O Chega, de André Ventura, promete igualmente chumbar o texto caso este permaneça inalterado, tendo apresentado duas condições para negociar: o aumento dos dias de férias e redução da idade da reforma.O barómetro DN/Aximage de maio revela ainda que os portugueses se mostram divididos quanto ao desfecho desta proposta no Parlamento: 41% antecipam um chumbo, mas 39% acreditam que acabará aprovada, traduzindo um clima de incerteza política e dúvidas sobre a capacidade negocial do Governo.Quando questionados sobre com quem o Executivo deve negociar a aprovação deste pacote laboral, 29% dos inquiridos apontam o Chega, 25% preferem o PS e 18% defendem entendimentos com ambos. Entre o eleitorado da coligação PSD/CDS, reina o equilíbrio: 27% consideram que Montenegro deveria procurar entendimento com o PS, 26% com o Chega e outros 26% defendem diálogo com ambos nesta matéria.Geograficamente, a contestação a este pacote laboral é transversal ao país, mas manifesta-se de forma mais veemente na Área Metropolitana do Porto, onde 60% discordam da proposta. Já o Norte é a região relativamente mais favorável, ainda que sem uma maioria de apoio (40%). Em termos etários, os jovens dos 18 aos 34 anos são os mais recetivos à proposta (37%), enquanto os maiores de 65 apresentam os níveis mais elevados de rejeição total (60%)..Barómetro DN/Aximage: PS abre dez pontos de vantagem e AD cai para terceira força.Maioria espera veto de SeguroA maioria dos portugueses defende que o Presidente da República, António José Seguro, deve cumprir a promessa feita durante a campanha presidencial e vetar a reforma laboral do Governo que não obteve um acordo na concertação social. Segundo o estudo, 62% dos inquiridos consideram que Seguro deve travar o diploma caso seja aprovado no Parlamento - o que parece improvável nesta altura, com as posições assumidas por PS e Chega - contra apenas 20% que defendem a promulgação.O apoio ao veto é transversal a praticamente todos os segmentos analisados e ultrapassa os 60% na maioria das regiões do país, reforçando um horizonte adverso para o Governo de Luís Montenegro nesta matéria. O apoio ao veto presidencial é particularmente expressivo entre eleitores de esquerda - 82% no Livre, 88% na CDU e 100% no BE -. mas também é maioritário entre os votantes do Chega (63%). Mais uma vez, o eleitorado da Iniciativa Liberal é o único que aponta em sentido contrário (51% defendem a promulgação da lei), pois mesmo entre eleitores PSD/CDS, 47% defendem que Seguro deve vetar a proposta, contra 36% que indicam o chefe de Estado deve deixar passar a lei, se aprovada no Parlamento..Ficha técnicaObjetivo do Estudo: Sondagem de opinião realizada pela Aximage, Lda. para o DN relativa a barómetro político e temas da atualidade. Universo: Indivíduos maiores de 18 anos eleitores e residentes em Portugal.Amostra: Amostragem por quotas, obtida a partir de uma matriz cruzando sexo, idade e região (NUTSII),a partir do universo conhecido, reequilibrada por género (2), grupo etário (4) e região (4). A amostra consiste em entrevistas efetivas: 505 entrevistas CAWI; 248 homens e 257 mulheres; 106 entre os 18 e os 34 anos,129 entre os 35 e os 49 anos, 133 entre os 50 e os 64 anos e 137 para os 65 e mais anos; Norte 182, Centro 102, Sul e Ilhas 70, Área Metropolitana de Lisboa 151.Técnica: Aplicação online - CAWI (Computer Assisted Web Interviewing) - de um questionário estruturado, devidamente adaptado ao suporte utilizado, a um painel de indivíduos que preenchem as quotas pré-determinadas. O trabalho de campo decorreu entre18 e 19 de maio de 2026. Taxa de resposta:91,82%.Margem de erro: O erro máximo de amostragem deste estudo, para um intervalo de confiança de 95%, é de + ou - 4,4%.Responsabilidade do estudo: Aximage, Lda., sob a direção técnica de Ana Carla Basílio.