Atrair jovens para as Forças Armadas tornou-se um desafio comum a muitos países. Entre mudanças demográficas, novas expectativas profissionais e um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, os modelos tradicionais de recrutamento já não chegam. Em resposta, vários governos estão a experimentar soluções para tornar a carreira militar mais apelativa. Uma das tendências mais visíveis é a criação de programas de curta duração, pensados para quem ainda não quer assumir um compromisso definitivo. Em vez de pedir uma decisão para a vida, alguns países oferecem a possibilidade de experimentar: um ano de serviço, formação prática, salário e a opção de continuar - ou não - depois. A ideia é simples: dar tempo aos jovens para descobrir se aquela experiência faz sentido para eles. A educação surge como outro eixo central. Em vários casos, o recrutamento começa na escola ou na universidade, com cursos financiados, formação técnica reconhecida e até salário durante os estudos. A lógica mudou: as Forças Armadas procuram mostrar que o tempo passado em serviço pode traduzir-se em competências úteis também fora do contexto militar, seja em áreas tecnológicas, engenharia, saúde ou liderança.Ao mesmo tempo, os incentivos financeiros ganharam peso. Subsídios mensais, apoio à habitação, propinas pagas ou remuneração durante programas de formação procuram reduzir o custo de entrada numa carreira militar e competir com oportunidades civis. Mais do que salários elevados, o foco está em oferecer estabilidade e condições concretas para começar a vida adulta.Mesmo países que mantêm modelos de serviço obrigatório têm vindo a ajustar a lógica do recrutamento: a mensagem já não se centra apenas na ideia tradicional de servir o país, mas no que a experiência militar pode oferecer em termos de formação, competências e construção de um percurso de vida.Como outros países estão a tentar atrair jovensNa sequência de um encontro promovido pela embaixadora do Canadá em Lisboa, com a participação dos embaixadores da Bélgica, Finlândia, Países Baixos, Austrália, Noruega e Luxemburgo, o DN solicitou exemplos de programas nos respetivos países para promover uma maior atratividade ao serviço militar. Eis o que destacaram:Países Baixos - Serviço flexível para jovens que ainda não querem decidirNos Países Baixos, o serviço militar não é obrigatório na prática. A conscrição continua prevista legalmente, mas está suspensa desde os anos 1990, funcionando o sistema com base no voluntariado e em programas de recrutamento flexíveis. Perante a dificuldade crescente em atrair jovens para carreiras militares tradicionais, o Ministério da Defesa tem apostado em formatos mais adaptados às novas gerações, centrados na experimentação e na flexibilidade.A medida mais recente e criativa é o chamado “Ano de Serviço” (Dienjaar), um programa pensado especialmente para jovens que terminam a escola e ainda não sabem que percurso académico ou profissional seguir. A ideia central é permitir que os participantes experimentem a vida militar durante um ano, desenvolvendo competências pessoais e profissionais enquanto recebem formação, estágio prático e remuneração.O programa está aberto a jovens entre os 18 e os 27 anos, desde que passem nas avaliações físicas e psicológicas, independentemente do nível de formação académica.Existe também uma modalidade paralela - o tempo de serviço para especialistas - dirigida a pessoas entre os 18 e os 54 anos com experiência profissional relevante. Durante o ano de serviço, os participantes recebem formação militar básica e, posteriormente, integram equipas reais na Marinha, Exército, Força Aérea ou Polícia Militar, trabalhando ao lado de profissionais experientes.Outra iniciativa complementar é o Defensity College, dirigido a estudantes universitários. Este programa permite trabalhar em regime parcial durante os estudos, por um período até três anos, enquanto os participantes são treinados para se tornarem reservistas. Os estudantes recebem patente militar (normalmente cabo) e remuneração correspondente, podendo progredir na carreira à medida que completam módulos de formação adicionais. O trabalho varia entre oito e 16 horas semanais, conciliando serviço militar com a vida académica.Os participantes recebem salário durante o ano de serviço, entre 2950 e 3150 euros, e os estudantes do Defensity College são remunerados de acordo com a patente atribuída, embora o programa seja pensado mais como experiência formativa do que como fonte principal de rendimento. Neste caso, com uma base de 16,50 euros à hora, com uma média de oito a 16 horas, em média, de trabalho semanal, podem auferir entre 600 a 1200 euros por mês. Em síntese, os Países Baixos apostam numa estratégia de recrutamento baseada na experimentação, na flexibilidade e na redução do compromisso inicial, oferecendo aos jovens a possibilidade de “testar” a vida militar antes de decidir uma carreira de longo prazo. Este modelo procura responder a uma mudança geracional em que muitos jovens hesitam em assumir compromissos profissionais definitivos logo após a escola. Bélgica - Um ano pago para experimentar a vida militarNa Bélgica, o serviço militar não é obrigatório desde 1992, tendo sido substituído por modelos de voluntariado e programas de preparação para carreiras de segurança e defesa.Uma das medidas mais inovadoras nos últimos anos foi a introdução, no ensino secundário, da área curricular de security and safety. Este curso prepara os jovens para carreiras em várias áreas de segurança e defesa - desde a polícia e a segurança privada até às Forças Armadas - e tem sido um sucesso em termos de números, funcionando como um primeiro contacto entre os estudantes e essas profissões.No plano estritamente militar, a inovação mais recente e de maior visibilidade é o lançamento de um serviço militar voluntário dirigido aos jovens. Este programa, anunciado em 2025, convida todos os belgas de 17 anos (aproximadamente 130 mil pessoas por ano) a participarem numa experiência de serviço voluntário, com sessões de informação presenciais e digitais realizadas em todas as províncias. O serviço voluntário tem a duração prevista de um ano e os participantes selecionados recebem cerca de 2000 euros líquidos por mês.Austrália - Universidade paga e salário para formar futuros oficiais. Na Austrália, o serviço militar é inteiramente voluntário. A estratégia de recrutamento das Forças Armadas australianas (Australian Defence Force - ADF) assenta sobretudo em incentivos educativos e financeiros.Uma das principais portas de entrada é a Australian Defence Force Academy (ADFA), em parceria com a University of New South Wales (UNSW). O modelo permite que os jovens frequentem um curso universitário - em áreas como engenharia, ciência, gestão, informática ou cibersegurança - enquanto recebem formação militar para se tornarem oficiais.Este programa oferece propinas totalmente financiadas, assistência médica e dentária gratuita e salário pago durante o período de estudos. Os cadetes recebem remuneração desde o início da formação, com valores indicativos que rondam aproximadamente 2000 a 2500 euros brutos por mês, variando consoante o ramo e a progressão. Após a graduação, os participantes têm uma carreira garantida nas Forças Armadas.Outro instrumento é o Defence University Sponsorship, destinado a estudantes já admitidos numa universidade australiana. Neste caso, a Defesa financia as propinas e paga igualmente salário enquanto o estudante termina o curso, com valores semelhantes aos dos cadetes da ADFA (cerca de 2000 a 2500 euros mensais). Em troca, existe uma obrigação de serviço posterior, normalmente correspondente ao tempo de patrocínio acrescido de um ano adicional.Além do recrutamento inicial, a Austrália aposta na retenção de pessoal através do Defence Assisted Study Scheme (DASS), que apoia financeiramente militares em serviço que desejem continuar a estudar. O programa funciona através do reembolso de propinas, desde que os participantes concluam com sucesso as disciplinas.Noruega - Serviço obrigatório, formação técnica e incentivos progressivosNa Noruega, o serviço militar é obrigatório, mas aplicado de forma seletiva. Todos os jovens são convocados para avaliação, sendo apenas uma parte incorporada, o que permite às Forças Armadas escolher candidatos motivados e com perfil adequado. Nos últimos anos, o recrutamento e a retenção de militares tornaram-se prioridade política, com o governo a aprovar um plano de defesa de longo prazo que prevê um aumento histórico do investimento até 2036, incluindo reforço significativo do efetivo militar e da reserva.Para garantir a adesão dos jovens, o serviço militar obrigatório é acompanhado de um conjunto alargado de benefícios. Estes recebem subsídio mensal, alojamento gratuito, alimentação, equipamento, apoio médico e dentário, licenças e outras medidas de bem-estar.Tal como acontece nos Países Baixos, a educação ocupa um papel central na estratégia norueguesa. As Forças Armadas oferecem duas principais vias de carreira. A primeira permite a entrada direta na Norwegian Defence University College, onde os estudantes realizam uma licenciatura e se qualificam como oficiais permanentes. Toda a formação é gratuita e combina estudos académicos com serviço militar.A segunda via passa pelo serviço militar inicial obrigatório, após o qual os jovens podem candidatar-se a posições como especialistas técnicos, podendo posteriormente aceder a formação de oficiais. Existem ainda programas técnicos e vocacionais em áreas como manutenção e engenharia, além de esquemas de aprendizagem que combinam serviço militar com formação profissional.No âmbito destes programas de aprendizagem, existem incentivos financeiros específicos. Durante o primeiro ano, o participante recebe um subsídio educativo de cerca de 900 euros mensais, a que acresce um suplemento de 125 euros após a formação. No segundo ano do programa, o valor aumenta para cerca de 1500 euros por mês, acrescido do mesmo suplemento mensal.Para os jovens em serviço militar regular, existe também uma compensação diária - aproximadamente 20 euros diários - incluindo fins de semana e feriados. Este valor pode aumentar para quem permanece mais de 12 meses em serviço. O subsídio destina-se a cobrir despesas pessoais não fornecidas pelas Forças Armadas.. Finlândia - Conscrição obrigatória com foco em competências e carreiraA Finlândia distingue-se da maioria dos países europeus porque o seu modelo de defesa assenta num sistema de serviço militar obrigatório (conscrição). Todos os homens finlandeses entre os 18 e os 60 anos são legalmente obrigados a cumprir serviço militar, enquanto para as mulheres o serviço é voluntário. Este modelo permite manter uma reserva militar numerosa e altamente treinada, considerada essencial para a defesa de um território vasto com uma população relativamente reduzida. O serviço pode ser cumprido em regime militar armado, serviço militar não armado ou serviço civil alternativo.As autoridades destacam o valor social das convocatórias, que permitem contactar praticamente toda a juventude do país e funcionam também como mecanismo de inclusão social. Para atrair e reter pessoal em carreira - especialmente num contexto de mercado de trabalho competitivo - as Forças Armadas finlandesas oferecem um conjunto alargado de benefícios. Entre eles destaca-se o apoio à habitação, com disponibilização de alojamento ou subsídio de renda durante quatro anos quando o militar é colocado numa nova região.Os exemplos salariais indicam uma ampla diversidade de remunerações dentro da estrutura de defesa: um coordenador de pessoal inicia funções com cerca de 3110 euros mensais, um especialista civil em tecnologias de informação pode começar entre 4433 e 4708 euros, um engenheiro de sistemas militar entre 3622 e 3912 euros, e um instrutor suboficial cerca de 2745 euros mensais, aos quais se podem somar suplementos operacionais.Luxemburgo - Recrutamento direto de especialistas e aposta na aviaçãoNo Luxemburgo, o serviço militar é voluntário. Sendo um país de pequena dimensão, com forças armadas reduzidas, a estratégia de recrutamento tem-se concentrado na diversificação de perfis profissionais, procurando atrair jovens qualificados e especialistas técnicos.Uma das medidas mais recentes e inovadoras foi a abertura do recrutamento direto para titulares de licenciatura e mestrado. Candidatos com formação superior podem ingressar diretamente numa carreira sem necessidade de frequentar o tradicional curso de quatro anos numa academia militar. Esta alteração procura acelerar o acesso a funções especializadas e tornar o Exército mais competitivo na atração de jovens qualificados, especialmente em áreas técnicas e científicas.Embora seja claramente orientado para jovens, o programa não estabelece limite máximo de idade, reforçando a ideia de flexibilidade no recrutamento.Outra iniciativa recente é o programa “Air Cadets”, desenvolvido em cooperação com a Bélgica. O objetivo é estimular o interesse pela aviação militar e permitir que os participantes obtenham licença de voo, funcionando como porta de entrada para futuras carreiras na aviação militar luxemburguesa.Cerca de 8% do efetivo é composto por pessoas de nacionalidade estrangeira, refletindo uma política relativamente aberta de recrutamento.PORTUGAL - Valorização da carreira para travar a perda de efetivosSe os exemplos internacionais mostram uma crescente aposta em mais soluções criativas - como anos de serviço voluntário remunerado, programas universitários integrados ou percursos militares flexíveis pensados para quem ainda não quer assumir compromissos de longo prazo -, em Portugal a resposta tem sido mais conservadora. As medidas adotadas concentram-se sobretudo na valorização salarial, na formação e na melhoria das condições de carreira, sem que tenham sido ainda testados modelos experimentais ou formatos inovadores semelhantes aos que começam a surgir noutros países europeus.Na sequência do Plano de Ação para a Profissionalização da Carreira Militar, lançado em 2019 (ver entrevista ao lado) e atualizado posteriormente, o Ministério da Defesa Nacional definiu como prioridade inverter uma tendência prolongada de quebra no recrutamento e na retenção de militares. Numa resposta oficial, o ministério reconhece que se trata de um problema comum a vários países da NATO, associado a fatores demográficos e socioeconómicos, como a diminuição do número de jovens e a concorrência crescente do mercado de trabalho.A estratégia passou por uma intervenção transversal, começando pela valorização financeira. Segundo o Ministério da Defesa Nacional, “começamos pelas pessoas”, com aumentos salariais e de suplementos que, “em termos agregados, geram um aumento do vencimento bruto superior a 500 euros”, procurando tornar o salário dos militares mais competitivo face a outras profissões com níveis semelhantes de exigência académica.A habitação foi outra das áreas identificadas como prioritárias. O MDN sublinha que “é caro viver nas grandes cidades, e também o é para os militares”, razão pela qual foram mobilizados fundos do Plano de Recuperação e Resiliência para reconverter edifícios abandonados em alojamento destinado a militares, com o objetivo de garantir “ofertas de habitação a baixo custo e com padrões de habitabilidade e de conforto ajustados ao que as novas gerações vivenciam”.Na área da formação, a aposta passa pelo alinhamento da formação militar com o Sistema Nacional de Qualificações. As Forças Armadas, descritas pelo ministério como “das maiores entidades formadoras do país”, estão a criar condições para que a formação de base seja reconhecida civilmente, permitindo atribuir níveis de qualificação formais - uma medida apresentada como relevante tanto para a retenção como para a futura reinserção profissional dos militares.Foram igualmente introduzidos novos instrumentos de gestão de recursos humanos, incluindo o alargamento de áreas funcionais em regimes de contrato especial e o reforço do quadro permanente em alguns ramos. Em paralelo, cada ramo tem desenvolvido iniciativas próprias, como o recrutamento local no Exército ou a aposta da Marinha na dinamização do regime de voluntariado. Segundo o Ministério da Defesa, estas medidas terão contribuído para inverter a tendência dos últimos anos: “hoje são mais os jovens que entram nas Forças Armadas do que os militares que saem”, embora os números finais ainda estejam em consolidação.Este esforço de reforço do recrutamento surge num momento em que as Forças Armadas portuguesas se preparam para um ciclo significativo de modernização. Até 2035, Portugal deverá beneficiar de cerca de 5,8 mil milhões de euros em financiamento europeu através do programa SAFE (Security Action for Europe), destinado à aquisição e modernização de equipamento militar. O investimento representa uma oportunidade relevante para reforçar capacidades operacionais, mas também evidencia um desafio estrutural: sem efetivos suficientes para operar e manter os novos sistemas, o reforço material poderá ter impacto limitado. A questão do recrutamento e da retenção assume, assim, uma dimensão estratégica que vai além da gestão de recursos humanos.Num momento em que vários países testam modelos mais flexíveis e experimentais para captar novas gerações, o desafio para Portugal poderá passar menos por fazer mais do mesmo e mais por testar caminhos diferentes. * Artigo concluído a 20 de fevereiro .Luís Valença Pinto. “Produzimos um excelente relatório que nunca saiu da gaveta do escalão político”.Navios, blindados, satélites. Reforço das Forças Armadas agendado para o Conselho de Ministros.Conselho de Ministros aprovou plano da Defesa para financiamento europeu de 5,8 mil milhões nas Forças Armadas