Em primeiro lugar, esta é uma vitória dos portugueses, do povo português, contra ventos e marés, a situação trágica que se está a viver no país em certas zonas. Mas foram votar, é extraordinário. As pessoas das zonas abrangidas foram votar, a abstenção foi muito menor do que se estava à espera e isso é extraordinário. Depois, é o sinal, claro que a esmagadora maioria dos portugueses, ao votar no António José Seguro, votam na democracia liberal, votam na democracia da República do 25 de Abril, numa sociedade aberta, tolerante, numa sociedade solidária, que não deixa ninguém para trás, que respeita os outros, e isso é um sinal muito importante.E é até um sinal para a Europa. Os portugueses hoje mostram ao mundo e à Europa que Portugal é um país moderado, equilibrado, democrático, que quer paz, mas quer uma sociedade aberta e não uma sociedade fechada, intolerante, em que as diferenças se resolvem de forma cordata. E isso é também muito bom para o futuro da economia portuguesa.Portugal, como eu tenho dito, tem sido um porto de abrigo, que hoje, nesta eleição, se torna, como disse o Papa Francisco quando veio a Lisboa, num porto seguro. O Papa Francisco foi premonitório e acho que a vitória de António José Seguro dará essa tranquilidade aos portugueses, que em vez de mais ciclones e tempestades querem calma, tranquilidade, serenidade, sobriedade, respeito e espírito de união. E é isso que António José Seguro traz. Na sua forma tranquila de ser, que pensa primeiro no país e depois no partido, como o fez no passado, mas que tem um perfil certo para ser Presidente, nesta altura difícil que estamos a atravessar, mas que vamos ultrapassar.Tem de olhar, como ele diz, com um sentido positivo, para um Portugal de ambição, um Portugal positivo, para que no futuro, os jovens possam voar..O percurso de António José Seguro até Belém é seguramente (sem nenhuma intenção de trocadilho fácil) um dos mais improváveis percursos da história da democracia portuguesa. O homem que hoje viu o País abraçá-lo como a escolha óbvia para Presidente da República era à partida, relembre-se, o candidato que nem a própria Esquerda queria. Visto como figura derrotada do passado, demasiado moderado para tempos ruidosos, só mais de três meses depois da apresentação da sua candidatura teve o apoio oficial do seu partido, quando todas as outras soluções se esfumaram. Hoje, é o homem que pode redefinir, a partir de Belém, uma Esquerda em profunda crise.Foi precisamente o tom contido e institucional que acabou por se revelar a sua maior força. Num contexto marcado pela ameaça representada por André Ventura e pela erosão deliberada das regras do jogo democrático, Seguro passou a simbolizar o respeito pelas instituições, a defesa do pluralismo, os valores da democracia e da Constituição.Num tempo de excessos e incertezas, Portugal mobilizou-se, mesmo assolado em tragédia, contra ventos e tempestades, para deixar claro que escolhe a segurança da democracia. E Seguro arrisca-se, segundo as projeções, a obter mesmo o melhor resultado de sempre de um Presidente da República. Que ironia esta, a do fabuloso destino de Seguro.Quanto a Ventura, se as projeções da abstenção se confirmarem e o universo de eleitores for, de facto, semelhante ao da primeira volta (cerca de 5,7 milhões), não terá conseguido ir buscar mais de 400 mil dos 2,2 milhões de votos que sobravam dos outros candidatos da primeira volta, provando que isto não era, de facto, uma disputa entre Esquerda e Direita. Era muito mais importante do que isso. O que só pode ser visto como uma prova reconfortante de que em Portugal o cordão sanitário e democrático continua forte e recomenda-se..Se estas projeções se confirmarem, esta é uma vitória de um modelo constitucional, contra quem queria mudar esse modelo. É, portanto, além de uma vitória de António José Seguro, óbvia, uma vitória de um entendimento do relacionamento da República e da democracia, que aposta na separação de poderes, a independência dos tribunais, o poder executivo proveniente da Assembleia da República, situações que André Ventura muitas vezes põe em causa. Por outro lado, é uma vitória de António José Seguro claríssima. Ele ultrapassa mesmo as perspectivas primeiras que diziam que nem sequer passava à segunda volta. Sai daqui com um resultado perto dos 70%, segundo estas projeções.É, portanto, um resultado brilhante, que, no entanto, tem um problema, é um resultado que pode não corresponder com o Presidente da República, porque é impossível satisfazer um eleitorado, que votou nele, que vai do PCP ao "Cavaquistão". São tendências políticas tão distantes umas das outras, que se reuniram para rejeitar André Ventura, que António José Seguro não pode satisfazer. Por outro lado, há aqui uma derrota clara de André Ventura, que parece não ter condições de reivindicar de uma forma politicamente convincente, que é o verdadeiro líder da direita, pois grande parte da direita rejeitou Ventura e foi votar em António José Seguro..Hoje ganhou a esperança em Portugal. Portugal escolheu a união, a moderação, a capacidade de concretização, mobilizando e juntando as várias partes com o espírito de algo.E disse não de uma forma muito forte ao radicalismo e ao extremismo. E por isso termino hoje: em Portugal ganhou a esperança.A expressividade da vitória de António José Seguro abre caminho a leituras políticas que vão além das funções que ocupará no Palácio de Belém. Em primeiro lugar, é um resultado muito pessoal de Seguro, um candidato que o PS demorou a apoiar e até (inicialmente) chegou a rejeitar, pela voz de alguns das mais influentes figuras socialistas. Mais do que isso: o seu resultado esmagador pode dever-se mais à rejeição do seu adversário, André Ventura, do que à crença nas suas capacidades ou carisma para desempenhar as funções de chefe de Estado.Seja como for, é um erro o PS pensar que esta vitória expressiva de Seguro é um sinal evidente de que o povo português está novamente alinhado com a visão dos socialistas para o Governo e para o país.O percurso de Seguro e até a sua postura institucional durante a campanha indiciam que não deverá estar disposto (pelo menos nas atuais circunstâncias) a promover ou a aceitar de ânimo leve crises políticas destinadas a fazer cair o executivo de Luís Montenegro. Ou seja, o Governo AD continuará a governar no espaço que se abre entre o equilíbrio de forças do PS (à esquerda do executivo) e do Chega (à direita do governo). Mas não com o mesmo conforto. A prestação de André Ventura permite-lhe (só o facto de ir à segunda volta já lho permitiria…) dá-lhe a possibilidade de continuar a puxar para si os galões de “novo líder da direita”. E tentar forçar, com mais pertinência, acordos com a AD no sentido de unir a direita.Não é menos verdade que, para um candidato que vive na retórica do conflito – “nestas eleições cada um deve escolher que tipo de país quer”, disse em campanha – então sete em cada dez portugueses (ou perto disso) disseram “não” a tudo aquilo que defende. Veremos como o número de votos que obteve se transpõe para umas eleições legislativas. Uma última nota para um “incidente” neste domingo, protagonizado por Catarina Furtado, que publicou um vídeo em que dizia: "Todo o vosso silêncio será cumplicidade. De um lado temos a possibilidade de votar na democracia, um sistema que em princípio nos protege a todos e a todas, do outro lado a ameaça a essa democracia e que com toda a certeza nos irá prejudicar a todos e a todas”. Não deixa de ser curioso que um dirigente do Chega se tenha sentido atacado por esta posição. Ou seja, que tenha assumido imediatamente que é ele a “ameaça à democracia”..Estas eleições presidenciais expressaram, em primeiro lugar, uma mudança de ciclo político no país.Desde logo pelos candidatos que passaram à segunda volta. Por razões diferentes, representaram uma rutura com o status quo vigente. Um, porque se impôs pelo seu mérito próprio e espírito de perseverança, contra tudo e contra todos. Outro, porque assumiu claramente um projeto de subversão das regras e consensos instalados. Por outro lado, ambos representam também, de diferentes maneiras, ruturas geracionais em relação ao conjunto de intervenientes políticos que vêm de antes do 25 de abril. Qualquer que fosse o resultado, esta circunstância objetiva de mudança de ciclo político iria determinar o comportamento do vencedor. Com a eleição de António José Seguro, o caminho será particular, mas não deixará de ser condicionado pela necessidade objetiva que o país tem de olhar para o futuro de forma diferente do que tem feito até aqui. A própria alteração radical do quadro geoeconómico e geopolítico global irá impor-se com a força da realidade— como ela é e não como desejaríamos que fosse —, e obrigará a opções de natureza estratégica que que têm sido adiadas há mais de duas décadas.Portugal necessita de pensar a longo prazo e reintroduzir na governação e no relacionamento institucional o vetor estratégico na definição de objetivos e de políticas económicas. Não pode abandonar-se às forças que impulsionam o curto prazo e aceitar, simplesmente, o lugar que as dinâmicas que não controla lhe impõem. Necessita de pensar na sua própria existência como país e afirmar-se na Europa e no Mundo, de acordo com a História e a cultura em que se formou. Portugal necessita de repensar o seu modelo económico, de fixar objetivos estruturais, de ter coerência intertemporal de políticas. E assegurar resiliência sistémica, inovação, cooperação dinâmica e sustentabilidade a longo prazo.O novo Presidente tem pela frente uma tarefa árdua: mobilizar energias e vontades, dinamizar o relacionamento institucional e com a sociedade civil, construir pontes entre as forças políticas de forma a produzir convergências para a realização das reformas que o país não poderá continuar a adiar. E, sobretudo, pensar nos jovens e na criação de condições para que se sintam bem a trabalhar e a constituir família no país. O país constrói-se com todos, mas é com os jovens que se projeta no futuro. Ao Presidente eleito, António José Seguro, desejo as maiores felicidades e sucessos no seu mandato. E, já agora, quero manifestar enquanto Bastonário da Ordem dos Economistas e Presidente do CNOP, toda a abertura e disponibilidade para cooperar com a Presidência, em tudo o que for considerado relevante em benefício do interesse público e do desenvolvimento de Portugal..Terá ganhado a DemocraciaAs projeções à boca da urna são o que são mas, pelo que nos diz a experiência, costumam enganar-se pouco. Hoje, nesta segunda volta das presidenciais de 2026 – e tal como tinha acontecido na primeira – há a louvar pelo menos um número: a abstenção atingiu valores mínimos de muitas eleições, e isso é um bom sinal. É sinal de que a nossa Democracia está viva, mesmo que ferida, e de que os portugueses continuam a reconhecer no voto uma arma que não podem abandonar. A vitória do candidato agregador, sereno e discreto é, a confirmarem-se os resultados - que dificilmente não serão confirmados - a outra boa notícia.Sobretudo quando os tempos são extraordinários, como estes em que vivemos. Não apenas pelas ameaças claras às liberdades, garantias e igualdades enquanto cidadãos, mas também pelas tormentas naturais que varreram o país de forma impiedosa ao longo dos últimos dias. São dias que nos apanharam de surpresa, e que nos afligiram a todos – naturalmente a uns mais do que a outros, e é trágico o que perderam milhares de pessoas em apenas alguns minutos - e que destruíram uma parte significativa do nosso património histórico, material e humano. Acontecimentos que causaram estragos que levarão anos, talvez décadas a ser recuperados.Mas o que este dia de eleições nos mostrou, também, é que não perdemos tudo. Na verdade, talvez tenhamos, precisamente pelo que aconteceu nestes últimos tempos, recordado aquilo que nos faz a todos iguais. Talvez tenhamos reconquistado a lembrança da nossa humanidade, dos nossos valores, das nossas certezas: aquelas que nos recordam que somos, acima de tudo, homens e mulheres que precisam uns dos outros para sobreviver. E que quando a tormenta se abate sobre nós, de uma forma tão violenta e clara como a que se materializou, temos de deixar de lado as divisões, as divergências e as dúvidas, e trabalhar em prol da única coisa que nos pode salvar: o nosso destino comum..Portugal precisa de estabilidade na politica e previsibilidade na economia. Num mundo em rápida mudança, em que o cenário internacional é demasiado inseguro não temos de adicionar conflito e instabilidade ao nível nacional. Que desta eleiçao resultem as condições para que Portugal posso ser mais atrativo ao investimento, ter maior produtividade e mais riqueza e ter a capacidade de fazer mais na dimensão social. O que se espera de um presidente, além de representar Portugal no mundo, é ser garante dessa estabilidade. Acho que o resultado desta eleição e a vitória de António José Seguro dão condições para que se faça esse trabalho..Na análise dos resultados destas eleições presidenciais, queria antes de mais realçar os resultados da abstenção. Num contexto muito difícil, de intempérie, os portugueses demonstraram que valorizam a Democracia e o voto. E que a proposta populista de adiar as eleições, além de não ter enquadramento jurídico-constitucional, não se justificava politicamente. Adiar eleições deve ser sempre excecional porque é um precedente perigoso. Os portugueses deram uma lição de Democracia que só nos pode deixar orgulhosos como Povo.A confirmar-se a projeção, António José Seguro venceu esta segunda volta das eleições presidenciais com quase o dobro do resultado do seu opositor. Isto significa que os portugueses compreenderam a enorme importância destas eleições para a Democracia e para a liberdade. Como referi ao longo destas semanas de campanha, o que estava em causa nesta segunda volta não era um posicionamento esquerda / direita, mas sim a diferença entre a Democracia e o autoritarismo; entre o respeito pelos direitos fundamentais e a sua opressão; entre o progressismo e conservadorismo; entre o Estado social e o ultraliberalismo.Em suma, os portugueses foram claríssimos na escolha de um Presidente da República que vai respeitar e fazer respeitar a Constituição e que vai ser o garante dos direitos fundamentais dos cidadãos e do regular funcionamento das instituições democráticas.Por outro lado, esta é a vitória do candidato que apelou à conciliação e à tolerância, rejeitando o populismo.Numa época em que cresce, no contexto internacional, o autoritarismo, a demagogia, a repressão e a intolerância, ter um PR que representa e defende os valores da Democracia e da decência coloca Portugal definitivamente “do lado certo da História”, o que, pessoalmente como portuguesa, me deixa muito orgulhosa do nosso país e dos meus concidadãos.Este é o grande significado que se retira da vitória de António José Seguro e, tenho a certeza, do seu mandato.