Em entrevista, à margem da primeira Conferência das Regiões, que decorreu esta terça-feira, 12 de maio, em Ponta Delgada, promovida pelo DN e pelo Açoriano Oriental, o presidente do Governo Regional dos Açores defendeu uma maior presença da Força Aérea e da Marinha na Região. E desafiou os Estados Unidos a reforçarem a sua presença militar nos Açores, onde já operam a Base das Lajes (na Terceira), se decidirem retirar tropas de outros países europeus.Olhando para o tema dos fundos europeus, que foram falados na conferência, qual seria a grande transformação estrutural que gostava que ocorresse na economia açoriana nesta geração? Ou seja, pensando a longo prazo.Sem dúvida que é associada às novas economias, de futuro, onde a nossa geografia é um verdadeiro ativo, com naturalmente recurso à ciência e tecnologia e à qualidade dos recursos humanos. Os locais e aqueles que possam também vir do exterior para encontrarem com o seu saber um verdadeiro laboratório de futuro na Região Autónoma dos Açores, nas nossas ilhas, na nossa dimensão marítima. E por isso é que eu entendo que o nosso cluster deve estar muito associado à economia azul. E aos utilizadores do mar, na componente económica, a economia extrativa, mas também economia valorativa, e igualmente à ciência e tecnologia. E correspondente às transições que hoje o mundo inevitavelmente tem de assumir. A transição climática, a transição digital e a transição energética. O mar é um ativo incomensurável.O almirante Silva Ribeiro mencionou no debate que é necessário fazer um levantamento do que existe no fundo do mar dos Açores, a nível de recursos naturais, para que depois possam ser devidamente explorados. Esse trabalho pode ser feito pelas empresas locais e pela universidade dos Açores?Sem dúvida. E o cluster do mar que nós defendemos e que estamos a procurar potenciar, até com as nossas políticas públicas, de um investimento regional, um que está co-financiado com o PRR designadamente, em particular, ligado muito à ciência, à investigação, conhecer o nosso mar não apenas no potencial de superfície, na dimensão oceânica que somos, mas também o conhecimento da coluna de água e o seu valor, e o fundo do mar e dos recursos minerais, metais e não metais, mas também os ecossistemas, e tudo isso precisa de ser feito com ciência e investigação e em consórcio. Em consórcio do país com outros Estados-membros, num quadro de definição geopolítica e geoestratégica, com as academias, com os investigadores. E nós temos já um património muito importante nessa matéria. Nós temos o maior mapeamento do fundo do mar profundo que a Europa tem, é feito no quadro da Universidade dos Açores. Tem sido uma boa aportação. Nós criámos através do PRR a oportunidade de termos um navio científico de melhor qualidade tecnológica que hoje o mundo tem. Vai ser um ativo que os Açores passarão a ter a partir deste ano. Vamos criar um Tecnopolo designado de Martec, que vai ser também uma sede não apenas das empresas e dos investigadores regionais, nacionais e europeus, mas global. Enquanto região, mesmo que seja considerada como destino turístico, temos que associar a notoriedade à notabilidade do destino, não apenas para a atividade turística, mas uma notabilidade que assegure uma certa honorabilidade curiosa e interessante e até mesmo, direi, afetuosamente cúmplice com o pensamento das novas gerações e da ciência e da investigação. Eu recentemente tive o gosto de ser laureado com um prémio internacional, Peter Benchley, que sob o ponto de vista dos oceanos nos distingue como uma região e um povo que está vocacionado para a sustentabilidade, a conservação, a proteção e a valorização do nosso ecossistema da nossa biodiversidade. E com o reconhecimento da nossa dimensão marítima. Isso é muito importante. Associado a isso também, enquanto destino turístico, somos o arquipélago que está em medalha de ouro como destino turístico sustentável. E há um reconhecimento através da EarthCheck como a entidade internacional. Isso é o tal elemento que assegura a notoriedade, notabilidade que desperta a vontade e curiosidade. As novas gerações são cada vez mais sensíveis a isso.Outro tema que foi abordado no debate foi o futuro da relação com os Estados Unidos, numa altura em que se fala do eventual fecho de algumas bases norte-americanas na Europa. Se neste momento estivesse a falar para a administração norte-americana, que mensagem gostaria de passar? Revê-se na ideia partilhada pelo almirante Silva Ribeiro, que disse que os governos da República e dos Açores deviam dizer aos americanos para trazerem para os Açores uma parte das tropas e dos ativos militares que retirarem de outros países europeus?Sem dúvida. Aliás, as minhas intervenções têm sido até algo disruptivas, muitas vezes contra a expectativa de alguns, no sentido de valorizar a nossa geografia no contexto das relações transatlânticas. E nós somos relevantes no posicionamento com certeza da União Europeia, do nosso quadro de Estado-membro e fundador da NATO, por razões de segurança e defesa, de geopolítica e de geoeconomia global. Mas associado a isto, e queremos este reforço, para que Portugal, a União Europeia e a NATO vejam neste ativo geográfico que os Açores representam uma oportunidade da sua afirmação, também manter de forma mais veemente a relação transatlântica.Ou seja, os Açores estão disponíveis para receber mais tropas dos Estados Unidos, mas também de outros países da NATO?Sem dúvida. Dos Estados Unidos e também da NATO. Da NATO no seu todo. Porque o que queremos é ter uma visão relativa à segurança e defesa como ativos também económicos, de valorização do território, desenvolvimento e progresso das populações residentes.Um aspeto que mencionou no seu discurso foi o potencial a nível da indústria espacial, a partir da ilha de Santa Maria. É uma área onde os Açores podem atrair talento e investimento?Claramente. Outro domínio em que, associado à dimensão oceânica que nós somos, estamos também numa posição geográfica que, sob o ponto de vista do conhecimento suborbital e orbital, é vantajoso, porque é o menos conflituoso com a navegação aeronáutica. E portanto para os lançamentos, para o retorno, aquilo que se chama na designação mais técnica, a lógica do Space Rider. A de podermos recuperar com uma ideia de sustentabilidade também ambiental as cápsulas dos lançadores, dos satélites e dos micro satélites. Nós podemos potenciar isto. Depois um conhecimento fantástico. As próprias ligações que são feitas pelos cabos submarinos de fibra ótica aportam nos Açores como um espaço de amarração e eventualmente no futuro, concentrar data centers de grande dimensão também é essencial.Os data centers precisam de muita energia.Temos capacidade de não só garantir suficiente energia em redundância com fontes renováveis e de disponibilidade de água para os arrefecimentos necessários, e ainda para mais, se aqui, como sabe, seja os centros emissores dos dados e os centros recetores a enormes distâncias, mesmo que a transmissão dos dados vá à velocidade da luz, há sempre uma latência. E essa latência pode ser mitigada através de aceleradores. E se a gestão e a transmissão dos dados puder estar centralizada no planeta, aqui nos Açores temos esta capacidade de podermos ser centrais na geografia planetária relativamente à emissão dos dados e com isso mitigar a latência entre o lugar emissor e o recetor.Estão em contacto com grupos internacionais para fazer esses data centers? Foram bem acolhidos? Sim e já manifestamos, eu próprio de forma direta, com um grande grupo como é a Google, por exemplo, que já planeia fazer investimentos de amarração dos seus cabos. Não apenas um, mas eventualmente dois aqui nos Açores, e potenciar eventualmente uma reflexão sobre a fixação de um data center. O que significa que estamos a passar a ser relevantes. Precisamos agora é ter também a capacidade, como aqui se dizia, a capacidade diplomática e negocial, de rastrear aquilo que é a descoberta de determinadas amostras ou da rendibilidade que os outros operadores que beneficiam da nossa geografia venham a ter, para podermos receber os nossos royalties, porque eles têm que ser uma ajuda ao nosso próprio desenvolvimento e ao nosso progresso.Ou seja, estes projetos servem para gerar royalties que possam ser investidos no desenvolvimento da Região.Nós precisamos de ter ilhas habitadas, ilhas que tenham infraestruturas de mais valia, não apenas de usos de terceiros, mas para os próprios residentes. E isso é possível. Portanto, assegurar, com coesão social e territorial, a dimensão da nossa geografia mais cosmopolita e universal, baseada na ciência e tecnologia, na economia azul e na dimensão espacial.Um dos temas que foram mencionados no debate foi a preocupação com a segurança, nomeadamente dos cabos submarinos. Falta colocar meios militares que garantam essa segurança?Nós precisamos de exercício de soberania. Temos que ter capacidades para a proteção e o combate ao vandalismo ou terrorismo. E essa proteção, até porque como temos uma zona económica exclusiva muito extensa, com presença de soberania, é uma vantagem competitiva. Aliás, um dos fundamentos que aduzi para, designadamente nas minhas conversações com a Google, foi, se fizerem amarração nos Açores, mais rapidamente saem de águas internacionais e entram em águas com soberania de enorme profundidade. Nós temos uma profundidade média muito significativa dos 3 km de profundidade, que é vantajosa também em termos de segurança. A nível de vigilância é mais desafiante, mas também inibe mais os vândalos e as ameaças terroristas.Portanto, o reforço de meios militares que o almirante Silva Ribeiro defendeu no debate, aproveitando os investimentos que se vão fazer na defesa, faria todo o sentido, na sua opinião. Com mais presença da Marinha e da Força Aérea nos Açores.Exatamente. Desde logo das nossas e da nossa própria capacidade militar. Mas depois também a associação com os nossos aliados, no quadro da NATO. Todas essas infraestruturas, umas delas com presença física e instrumental, e outras até com base na sensorização. Nós podemos ter aqui uma dimensão de hidrosensores ou a tal constelação de satélites que nos permite ter informação significativa e um controledesta base de dados para gerir a informação e ele passar a ser também um ativo da nossa responsabilidade e do nosso património. .Turismo açoriano “só pode resistir e prosperar" se houver "verdadeiras acessibilidades aéreas”.Quando se olha o Atlântico como um todo e Portugal tem “papel significativo”