Vladimiro Feliz: "O Porto com este caso Selminho está partido. Está de alma ferida"

O cabeça-de-lista do PSD à Câmara do Porto afirma que Rui Moreira está mais preocupado em defender-se do caso judicial que enfrenta do que em estar focado nos problemas da cidade. A cidade, diz, precisa de planeamento a médio e longo prazo e de mobilizar todos os saberes para ser o "farol" de uma vasta região que vai de Bragança a Coimbra.

Porque aceitou o desafio de Rui Rio para se candidatar à Câmara Municipal do Porto, se o próprio admitiu publicamente que não é para vencer?
O que o presidente do PSD quis dizer é que não tinha a responsabilidade de vencer. E eu interpreto sempre isso como um picanço. Trabalhei com ele muito tempo e ele sabe que quando me picam funciono muito melhor, por isso foi para criar mais alguma adrenalina. O aceitar tem que ver com aquilo que eu sinto que é o meu compromisso com a cidade enquanto portuense e aqui temos uma relação muito particular com a cidade, que está a viver um momento de grande desafio. Precisa de responder não só aos problemas do presente e de se reinventar para combater este novo contexto pandémico e pós-pandémico, que causa ainda uma grande indefinição, e precisa de uma nova visão para o futuro, de uma nova funcionalidade e de uma nova configuração. E trazer aqui novas disciplinas para o pensamento da cidade, a engenharia, a matemática, as ciências, as tecnologias, as artes e a arquitetura, no sentido de construir uma cidade com uma agenda mais ecológica, orientada para as pessoas e para os portuenses. Sentindo este desafio quer do presidente do meu partido quer de muitos militantes do meu partido, o meu nome foi votado por unanimidade em todos os órgãos, quer da sociedade civil que me foi dando sinais de que era preciso haver um projeto alternativo e de futuro, obviamente que não podia dizer que não.

Nunca interpretou as declarações do líder como uma fragilização na hora de arrancar para o confronto com Rui Moreira?
De todo, de todo.

Diz que quer recuperar o legado de Rui Rio enquanto autarca do Porto. Que legado é esse e como o quer recuperar?
Em 2013, quando saímos entregámos uma cidade honrada, coesa, organizada, com as contas certas e com um projeto de desenvolvimento futuro. Sentimos que estes últimos oito anos foram uma oportunidade perdida, o Porto manteve o seu ritmo, marcado pelas forças vivas da cidade, que são o coração e o pulsar desta cidade, mas faltou aquele espírito reformador e transformador que o Porto muitas vezes precisa para servir até de farol para a região e para o país. Sentimos que foi um momento de deixar andar, num modo de câmara lenta, quando podia ter assumido uma dinâmica diferente, que não fosse só de responder às necessidades quotidianas, mas que projetasse o Porto para Portugal e para o mundo. E a esse nível sendo o município um facilitador, agilizador, influenciador e negociador, que permita projetar a capacidade instalada na cidade estes oito anos serviram acima de tudo para manter o que estava e não para criar uma visão e um plano de futuro para o Porto. O legado de Rui Rio é o ponto de partida, mas temos de projetar o Porto para as necessidades das sociedades contemporâneas, no desenvolvimento urbano, na mobilidade, nas questões sociais. Nestes últimos oito meses está a tentar fazer-se o que podia ter sido feito em oito anos.

Sente que o Porto se centrou no turismo, como a galinha de ovos de ouro, e esqueceu um pouco o resto, com a pandemia a destapar outras fragilidades?
O turismo é extremamente importante para o desenvolvimento económico do país, mas quando pomos os ovos todos no mesmo cesto acabamos por ficar muito frágeis quando alguém se constipa e aqui nem foi uma constipação, foi uma pandemia que veio pôr a nu a dependência da cidade e do país do turismo. Não é que não tenhamos de ter uma aposta forte no turismo, até na recuperação a curto prazo, com uma maior proximidade com os agentes da restauração, do turismo e da hotelaria, e juntamente com a academia e o mercado, converter estes profissionais para as necessidades do mercado de trabalho e as competências do futuro. Mas sobretudo olharmos para um Porto baseado naquilo que são os seus ativos principais, os setores tradicionais, o da saúde, o do vinho, os novos setores como o digital ou a bioengenharia, que têm de passar a ser também parte deste Porto sólido, que não vive só de produtos e serviços, mas de conhecimento, de valor e de quadros de referência da cidade e da região. O Porto não pode terminar nas suas fronteiras, tem de criar complementaridades com uma região, que vai de Bragança a Coimbra, que já não passa pelas fronteiras tradicionais norte, centro e sul, nomeadamente na componente do conhecimento, que é um dos maiores ativos. Temos de criar estas sinergias e complementaridades com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, com a do Minho, toda a academia do Porto, a Universidade de Aveiro, que nos permitam ganhar dimensão para sermos competitivos à escala global e usar esta base instalada também para aplicar no desenvolvimento da cidade e da região.

Mas qual é o principal problema com que a cidade se confronta?
O principal terá que ver com a questão do planeamento e da organização. O Porto passou a ser uma cidade reativa, que responde à dinâmica de fatores externos e que não tem um plano de desenvolvimento de médio e longo prazo, porque só ao fim de oito anos este executivo vem apresentar um plano de desenvolvimento económico para 2020-2030 e, portanto, andamos aqui oito anos à espera de que algo acontecesse. Há fatores que têm obviamente de mudar, o planeamento urbano tem de ser feito. Temos casos caricatos em que inundamos a cidade de pinos, congestionando o trânsito, desregulando o estacionamento e não percebendo bem como vai ser a política de desenvolvimento de mobilidade no médio prazo. As questões sociais, em que passámos a ter níveis de insegurança muito relevantes. O fenómeno da toxicodependência, dos sem-abrigo, que me lembro que quando o PSD foi governo na câmara conseguiu trabalhar, capacitar e integrar e incluir estas pessoas. Hoje há aqui uma agenda de sustentabilidade económica, social e ambiental que tem de ser trabalhada, temos de criar condições de incluir, cuidar e capacitar melhor os portuenses. A visão integrada, trabalhada com as pessoas e as forças vivas da cidade, como a academia, as associações, os clubes, as empresas, o setor social, é crucial para darmos escala à capacidade instalada.

Um das críticas que foram feitas ao autarca Rui Rio foi que ele descurava, até hostilizava, o setor da cultura do Porto. Esse setor é importante para a cidade?
É importantíssimo! Às vezes há mitos urbanos e que dão jeito a alguns líderes de opinião. Do tempo do Dr. Rui Rio estamos a falar de uma agenda que tinha o Cinema Fora do Sítio, o Porto Sounds, a Feira do Livro do Letras na Avenida, que foi sucedâneo da Feira do Livro, o Primeira Avenida, o Primavera Sound, os Debandada, que este executivo acabou sem ninguém compreender bem porquê, e são marcas culturais muito fortes. Quando olhamos para a cidade hoje não vejo que a oferta complementar seja tão diferenciadora daquilo que se fazia no Porto no setor da cultura. Hoje a agenda de desenvolvimento da cidade reclama trazer para dentro novas disciplinas. Uma cidade que não tenha conteúdo, que não tenha dinâmica cultural e de lazer dificilmente será atrativa para viver, para trabalhar, para investir e para visitar. Devolvo a pergunta. Quais foram os grandes eventos internacionais e com relevo e diferenciadores que surgiram na cidade nos últimos oito anos? Se olharmos bem há aqui uma grande dose de propaganda, em que se tenta muitas vezes reescrever a história, mas que depois está assente em pilares de barro.

Foi em tempos apoiante de Rui Moreira, hoje é um forte crítico. Rui Moreira está muito fragilizado pela ida a julgamento no caso Selminho?
É um tema que me preocupa porque desvia o presidente das questões essenciais da governação da cidade. Vimos nos últimos dias que o Dr. Rui Moreira esteve mais preocupado em estar nos canais de televisão nacionais a justificar-se do que a resolver os problemas da cidade. O Porto com todo este caso Selminho está partido. Há aqui uma grande intranquilidade nos portuenses. O Porto está de alma ferida. Tudo o que o Porto não precisava perante um tempo assolado pela pandemia, que nos traz enormes desafios sociais e económicos. É preciso cabeça fresca para pensar na cidade a tempo inteiro e o Porto para o futuro. O que sinto é que temos um presidente em part-time e o que nos preocupa também - e termino aqui o tema, se voltar a agenda não será por mim - é que há aqui uma necessidade do Dr. Rui Moreira de pensar no futuro da cidade e não em manter a todo custo o cargo de presidente. Temos um presidente em part-time que, legitimamente, tem de se defender, é humano, mas que ao mesmo tempo tem de tratar dos temas da cidade e que pode ver interrompido o seu mandato caso venha a ser reeleito. Isto é um problema muito relevante para a cidade porque queremos que o presidente da câmara tenha sempre a dignidade que a cidade merece e podemos vir a vê-lo sair pela porta pequena da câmara e não pela porta grande.

Acha então que Rui Moreira não devia recandidatar-se?
Isso é uma decisão do próprio Rui Moreira. Se fosse eu a estar envolvido num caso em que era acusado de um crime por um Tribunal de Instrução Criminal relacionado com a gestão pública não seria candidato. Seja qual for a decisão do Dr. Rui Moreira, candidatei-me sem estar à espera da decisão do tribunal, ao contrário de outros que continuam à espera de perceber o que é que vai acontecer para poderem decidir qual a melhor estratégia para a cidade. O meu compromisso é com a cidade, com os portuenses, com o presente e com o futuro.

Quem está à espera de ver o que acontece?
Acima de tudo o PS, que tem adiado continuamente esta decisão. Porque quer apoiar o Dr. Rui Moreira? Se está à espera de que ele não seja candidato para apresentar um peso-pesado do partido? Ou se, vendo que Rui Moreira vai a jogo, à espera de apresentar alguém sem tanta notoriedade apenas para marcar presença nas eleições? Isso preocupa-me porque o Porto merece respeito e merece mais por parte de todas as forças políticas.

O PS não está ter esse respeito pela cidade?
Sim, com tanto tempo de espera penso que não seria difícil encontrar um candidato com provas dadas para assumir este desafio. Penso que está a gerir muito a agenda do tema Rui Moreira e à espera do que vai dar para escolher o candidato em função daquele portfólio de candidatos que irão a jogo nestas eleições.

Ao contrário do Dr. Rui Rio se for eleito presidente da câmara terá um relacionamento diferente com o Futebol Clube do Porto?
Teria uma relação como com todas as outras entidades da cidade, de proximidade e respeito institucional, respeitando a autonomia de cada uma das instituições. O Futebol Clube do Porto é uma marca forte da cidade e tratarei nos sucessos e nos insucessos o clube com toda a dignidade e respeito porque é uma marca que projeta o Porto a nível global.

Se não vier a ser eleito presidente da câmara vai assumir o mandato de vereador?
Assumo o mandato de vereador sem pelouro, o que faz que tenha de voltar à minha vida profissional.

paulasa@dn.pt

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