"Se tiver mau resultado não há liderança de Rio para discutir, apenas tem de ir embora"

O autarca de Sintra diz que o líder do PSD será o responsável pelo resultado eleitoral, já que interferiu, como nunca antes, na escolha dos candidatos autárquicos. E acusa-o de tratar mal quem deu a cara pelo partido.

O PSD tem sido ingrato consigo, autarca há 28 anos? Preteriu a sua candidatura à Câmara de Sintra em 2013 e agora novamente.
Parece que há um fio condutor embora com dois líderes distintos, um com Pedro Passos Coelho e agora com Rui Rio. Foram ambos ingratos. Se relativamente à liderança de Pedro Passos Coelho eu nunca fui apoiante, embora lhe reconheça os méritos na governação, com o dr. Rui Rio as coisas são completamente diferentes. Fui seu apoiante e depois de expulso, por causa da candidatura independente de 2013, voltei ao partido e é Rui Rio o subscritor da minha ficha de militante. Esta ingratidão é para mim valorizada, e não é só pelo apoio que lhe dei em diferentes momentos, e em alguns que ele próprio me solicitou, mas acima de tudo porque entendo que tinha condições para ser um bom candidato à câmara numa conjuntura que é difícil. Em que o PS vale mais que o PSD a nível nacional, na Área Metropolitana de Lisboa (AML) e também em Sintra. E depois porque há uma recandidatura do dr. Basílio Horta e são raros os casos em que o recandidato perde a eleição, a não ser por circunstâncias extraordinárias.

Mas em 2013 decidiu-se por uma candidatura independente, em que quase ganhou a autarquia. Porque é que agora não toma a mesma decisão?
Porque agora quero estar dentro do PSD. Na noite eleitoral quero também poder avaliar as escolhas da direção nacional e do dr. Rui Rio. Não vou libertar o PSD e a direção daquilo que será o meu julgamento no dia das eleições.

E vai pedir contas?
Ah, sem dúvida nenhuma. O PSD e a liderança do dr. Rui Rio tem sido pouco ambiciosa na questão dos objetivos que traça para o ato eleitoral deste ano. O PSD como segundo maior partido nacional não pode estar numa situação de encarar as autárquicas apenas para cumprir calendário, tem de ser ambicioso e tem de ir às eleições para as ganhar. Agora quando vejo que não se exigem a alguns candidatos a vitória eleitoral. A pergunta que deixo é: então porque é que foram escolhidos? No caso do Porto, em que tenho estima pelo candidato escolhido, Vladimiro Feliz, é um argumento que não pode colher junto de nenhum militante do PSD. E esta eleição autárquica é fundamental para o dr. Rui Rio porque as outras duas ele já perdeu - as legislativas e as europeias. Esta é decisiva porque ele interferiu como ninguém na escolha dos candidatos a nível nacional, não reservou para si apenas as grandes câmaras. Portanto, é responsável pelo ato eleitoral e pelo resultado do PSD.

"Esta eleição autárquica é fundamental para o dr. Rui Rio porque as outras duas ele já perdeu - as legislativas e as europeias. Esta é decisiva porque ele interferiu como ninguém na escolha dos candidatos a nível nacional, não reservou para si apenas as grandes câmaras."

Se Rui Rio tiver um mau resultado no cômputo nacional é altura de discutir a sua liderança?
Se tiver mau resultado não há liderança do dr. Rui Rio para discutir, apenas tem de se ir embora e dar espaço ao partido para poder respirar e encontrar uma solução. O líder do maior partido da oposição que perde três eleições não tem condições para discutir nada, santa paciência. Se assim for, Rui Rio tem de perceber que o seu mandato à frente do partido chegou ao fim. O PSD não pode continuar a perder eleições.

Foi desafiado para integrar a lista encabeçada por Ricardo Batista Leite em Sintra ou para liderar a da Assembleia Municipal?
Houve esses contactos no sentido de me envolver, com diferentes opções. Ponderei, como ponderei uma candidatura independente, como os convites que me foram feitos por outros partidos. Mas entendi que se se pretende que o PSD em Sintra mostre o que vale, sem eu estar envolvido na liderança da candidatura, então não podem contar comigo também para ser muleta de alguém. Quero que o PSD mostre o que vale sem a minha participação, mas também não vou dificultar-lhe a vida.

Porque disse que o líder do PSD apregoa seriedade mas não a está a praticar?
Porque houve um compromisso. Nas conversas que fomos tendo, quer com Rui Rio quer com o secretário-geral do partido [José Silvano], sempre me foi perguntado se eu estaria disponível para abdicar da candidatura e eu sempre disse que sim. Combinou-se uma metodologia, e essa é que não foi cumprida. Numa reunião em que estiveram o secretário-geral do partido e os elementos da coordenação autárquica nacional foi-me garantido que iria ser feita uma sondagem e validei essa opção, tal como me disponibilizei para entrar numas primárias para a escolha do candidato. Estava tão tranquilo com o valor de tinha em Sintra, pelo reconhecimento e pela dedicação de 28 anos, que predispus-me a qualquer método para a escolha do candidato. Ora, isso não foi cumprido. A seriedade tem a ver com isto. O dr. Rui Ro não pode exigir aos outros aquilo que não cumpre, não pode exigir que sejam sérios naquilo que dizem e aquilo que fazem quando ele não faz aquilo que diz.

Percebe, apesar de tudo, a escolha de Ricardo Batista Leite? O argumento que existe na direção é que foi para solucionar divisões nas estruturas locais do partido...
A concelhia de Sintra é hoje liderada por aqueles que em 2013 também impediram a minha candidatura. O PSD paga os efeitos dessa decisão, que é ter sido afastado da segunda maior câmara do país. Eu também não ganhei, mas o PSD perdeu tudo. Grande parte dessas pessoas estão dependentes da gestão autárquica do dr. Basílio Horta, porque uns são funcionários da câmara, outros são avençados ou trabalham em empresas públicas municipais. Como é que o PSD pode ser livre na decisão quando grande parte dos seus dirigentes estão dependentes da hierarquia da câmara e em particular do dr. Basílio Horta? Eu até percebo aqueles que são funcionários, não percebo os que são avençados porque se colocam numa posição em que não é possível fazer oposição. As divisões internas não podem servir de desculpa ao dr. Rui Rio para escolher ou para optar por aquele lado que é mais dependente da gestão autárquica do PS, o menos livre, o que tem menos capacidade de mobilização. A presidente da concelhia do PSD vale menos do que o PSD, eu acredito que valho mais porque em Sintra tive mais votos na eleição de 2017 do que teve o dr. Rui Rio em 2019. O processo autárquico no PSD foi gerido com os pés. Escolheu-se um candidato que serve para Sintra, como podia servir para a Amadora ou para o Porto, ou para outro lado qualquer. Os sintrenses mostraram em 2013 que querem um candidato local. E o PSD também tem de se habituar a tratar bem aqueles que dão a cara pelo partido, tem de saber gerar candidatos naturais aos diferentes concelhos. Não se podem preparar autárquicas a seis ou oito meses das eleições. Dou um caso, o Nuno Freitas, militante do PSD, que é um homem dedicado a Coimbra. Porque razão não foi escolhido? E acima de tudo porque não lhe deram condições para fazer uma oposição mais forte e mais visível e com mais protagonismo para que pudesse disputar as eleições autárquicas em Coimbra. O mesmo se passa comigo e com dezenas de candidatos.

"Como é que o PSD pode ser livre na decisão quando grande parte dos seus dirigentes estão dependentes da hierarquia da câmara e em particular do dr. Basílio Horta? Eu até percebo aqueles que são funcionários, não percebo os que são avençados porque se colocam numa posição em que não é possível fazer oposição."

Inabilidade política ou há outras razões?
Eu diria que é incompetência política. Quando o partido não sabe cuidar daquilo que para si é um ato essencial, como são os atos eleitorais, então eu só posso dizer que há uma incompetência da parte de quem gere os partidos. Mas isto não é caso único no PSD, porque geralmente escolhem-se candidatos que cumprem o serviço ao partido e depois vão embora. O que aconteceu com Pedro Pinto em 2013. Quem é que cá ficou? Eu. Eu mantive-me cá.

Como vê a candidatura de Suzana Garcia à câmara da Amadora?
As pessoas têm opções, mas a democracia tem regras e a mim custa-me ver que para o PSD não haja regras, que haja apenas a intenção de ganhar uma câmara. Se a candidata, que eu não conheço pessoalmente, apenas do espaço mediático, tem intervenções que fogem da matriz social-democrata então não pode ser candidata.

E tem intervenções que fogem dessa matriz?
Acho que em algumas sim, pelo que vi, li e ouvi. Não percebo como é que o PSD na gestão e na liderança do dr. Rui Rio, que procura ser muito sério nas opções, permite que o partido tome opções que são de mera lógica eleitoral. O que vai acontecer é que depois da noite eleitoral, a candidata vai voltar à sua vida e o PSD não semeou rigorosamente nada. O PSD na AML vale muitíssimo pouco, em média abaixo dos 18%. Como se quer ganhar o país quando não se ganham as Áreas Metropolitanas? É impossível!

Carlos Moedas em Lisboa pode fazer a diferença?
O Carlos Moedas talvez seja o candidato que pode ter a vantagem de ser mobilizador para as outras candidaturas em redor de Lisboa. É um homem prestigiado, tem um percurso de vida profissional que o distingue. É de facto um bom candidato e faço votos que possa vencer as eleições. Tem condições para as vencer, já que o PS em Lisboa apresenta algumas fragilidades.

A gestão autárquica de Basílio Horta tem sido errada?
Sou muito diferente do dr. Basílio Horta, mas reconheço que procura ser um homem dedicado ao concelho. Agora acho não tem tido a estratégia correta. Uma câmara que em 2014 tinha 45 milhões de euros depositados nas contas bancárias e hoje, seis anos depois, tem 186 milhões, significa que o amealhar de receita proveniente dos impostos municipais não foi aplicado e que muito do que deveria ter sido feito não o foi. A Câmara não conseguiu cumprir as suas funções básicas, que são: tratar da higiene pública, cuidar do lixo e do saneamento, do espaço público. Uma câmara não é uma empresa privada e não tem de dar lucro, tem de colocar o dinheiro ao serviço dos sintrenses. A segunda questão é como se vê o território, o que tem a ver com a coesão social também. O concelho de Sintra não é todo igual, é feito de muitas Sintras, de muitas realidades. Mundo urbano, rural e empresarial. A câmara não foi capaz de ter aqui um papel aglutinador, integrador, permitindo a ligação das diferentes zonas. Ora, o investimento em estradas por esta câmara durante oito anos foi praticamente nulo. Não havendo acessibilidade e mobilidade, o concelho também não é atrativo para as empresas, como são Oeiras ou Cascais. Depois Basílio Horta também não conseguiu transformar socialmente o concelho. Em 2017, na AML, um sujeito passivo declarou, em média, um rendimento de 15694 euros, em Sintra a média foi de 13304 euros, mas mais grave é que em Oeiras foi de 20069 euros, em Cascais de 18201 e em Lisboa foi de 19520. O que é que isto quer dizer? Que o concelho de Sintra no conjunto dos 18 municípios da AML está nos últimos cinco. Não houve nenhuma capacidade de atrair investimento e munícipes porque não se renovou o espaço público. Depois porque em matéria de PDM, aprovado recentemente e que votei contra, também não permite que em área rural pudesse haver abertura para uma construção muito controlada.

E o que falta para afirmar Sintra?
Em primeiro lugar, a sua imagem. Temos um património que a permite alavancar, que está situado na vila de Sintra, os palácios, os parques e por aí fora. A reboque desta imagem podemos ter um concelho muito forte do ponto de vista turístico, mas não é do turismo do toca e foge, do que vai ao Palácio de depois vai embora - é ter uma rede hoteleira e de serviços que o alavanque, que as pessoas venham a Sintra e fiquem para visitar as praias e o interior do concelho. Depois, ter uma política de impostos que seja atrativa para as empresas para não atrair emprego que seja meramente precário. Nesta pandemia, no espaço de um ano, o desemprego em Sintra cresceu de seis para mais de 12%. Isto diz que o emprego em Sintra era precário, fruto das atividades do comércio e do turismo. Dos 10 parques industriais e empresariais que o dr. Basílio Horta prometeu há oito anos nenhum está feito.

paulasa@dn.pt

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