Rio quer adiar congresso e diz ter condições para ir às legislativas. E agora Rangel?

Resultados das autárquicas são o mote do Conselho Nacional do partido, reunido nesta noite, mas são eles também os argumentos para um confronto Rio versus Rangel. Direção do partido avançou com a data de 4 de dezembro para as Diretas, mas horas depois o líder pediu para serem adiadas.

Rui Rio deu uma conferência de imprensa surpresa e baralhou a "luta" pela liderança do PSD. Ao início da noite de ontem e depois de ter sido anunciado que a direção do partido ia propor no Conselho Nacional desta quinta-feira o dia 4 de dezembro para a escolha do presidente, Rio defendeu que os conselheiros não deviam aceitar a data proposta e que poderiam adiar a decisão sobre essas eleições.

A razão? Nesse 4 de dezembro Portugal pode estar a debater-se com um chumbo do Orçamento do Estado para 2022 e o partido não estaria em condições de se preparar para eleições legislativas pois tinha de estar concentrado em eleger um líder. Portanto, ao defender este adiamento Rui Rio está a posicionar-se para ser o candidato do PSD numas eventuais eleições legislativas caso o OE chumbe na votação na generalidade agendada para 27 de outubro.

Uma "jogada" que pode baralhar as contas de candidatos às diretas - como Paulo Rangel que antes deste anúncio de Rio, sabe o DN, já tinha decidido avançar para essas eleições diretas.

Rui Rio disse ontem ter "em condições para ir às legislativas e ser primeiro-ministro". Concluindo essa análise com uma certeza: "Depois das autárquicas ainda é mais fácil."

As datas que a direção do PSD tinha proposto - e que agora acha deverem ser adiadas - eram o 4 de dezembro para a escolha do presidente do partido, com eventual segunda volta uma semana depois, dia 11, e o Congresso entre 14 e 16 de janeiro.

A reunião dos conselheiros foi convocada para analisar os resultados eleitorais que, convenhamos, estão já bastante dissecados e que apontam para uma melhoria do resultado do PSD em relação às eleições de 2017 - mais 15 câmaras e entre as quais a maior, a de Lisboa (de forma completamente inesperada).

Esta é a leitura que será feita por todos os que estão do lado de Rui Rio. O próprio secretário-geral e coordenador autárquico, José Silvano, afirmou em recente entrevista ao DN que após os resultados obtidos "a nação social-democrata tem sérias expectativas que Rui Rio seja candidato a primeiro-ministro". O mesmo que apontar a recandidatura do atual líder como inevitável.

E José Silva, tal como Salvador Malheiro, vice-presidente do PSD, ou até o deputado André Coelho Lima, têm andado pelas estruturas a tentar garantir que esse apoio se efetiva.

Neste Conselho Nacional, órgão máximo entre congressos, o presidente do PSD poderá ainda manter o tabu sobre a sua recandidatura, mas o que Rio disser deverá já apontar um caminho de reserva ou de confronto com aquele que parece mais bem colocado para o enfrentar nas eleições internas do partido, Paulo Rangel.

Fontes próximas do eurodeputado social-democratas já tinham garantido ao DN que a candidatura à liderança é "irreversível".

Paulo Rangel é, por isso, outra figura central do Conselho Nacional de hoje e o DN sabe que será mesmo candidato à liderança, decisão que já estava tomada pelo menos até à hora em que Rui Rio surpreendeu o partido com as declarações em que pedia para hoje ser decidido o adiamento das diretas.

Os que são próximos de Paulo Rangel dizem que as contas sobre os resultados autárquicos vão mesmo ser feitas hoje. "É uma grande vitória em valores absolutos? Isto chega para 2023?" - são as perguntas que colocam na mesa e com que vão confrontar Rio

Ou seja, a ideia que prevalece entre os apoiantes de Rangel é que parte do partido já não está com o atual líder social-democrata e que o bom resultado autárquico não os demoverá de apostar na alternativa. Mesmo a norte, onde outro candidato escolhido pela direção nacional, Vladimiro Feliz, conseguiu tirar a maioria absoluta a Rui Moreira. "Rio ganhou um balão de oxigénio, mas até que ponto passou para as bases e as estruturas é isso que é preciso medir", afirma ao DN uma fonte próxima de Rangel.

E a verdade é que a distrital do Porto, liderada por Alberto Machado, se prepara para dar o apoio a Rangel assim que este assumir que entra na corrida. Ao Público uma fonte daquela estrutura dizia que "há um grande descontentamento relativamente a Rui Rio, que ignora os militantes e despreza as estruturas do partido".

Rangel tem mantido conversas com as estruturas do partido e por todo o país, asseguraram ao DN fontes que lhe são próximas.

No núcleo próximo do eurodeputado e vice-presidente do PPE existe a convicção, após essa bateria de contactos, que as principais distritais do PSD estarão com ele, mesmo que Rui Rio se recandidate à presidência do PSD. Decisão que tem mantido como tabu, sem abrir o jogo com ninguém.

Do lado do eurodeputado falam do eventual apoio de distritais, além do Porto, da de Lisboa, Coimbra, Leiria, Viseu, Santarém e Braga, que foi liderada pelo também eurodeputado José Manuel Fernandes (agora é por Paulo Cunha) e que foi apoiante de Rio nas últimas diretas. Nenhuma irá pronunciar-se sem que as posições estejam clarificadas no terreno.

Mas os que estão com Rio continuam a acreditar que tem condições para ir pela terceira vez a diretas e ganhar a liderança. Só Nuno Morais Sarmento, vice-presidente, foi mais ponderado nessa expectativa, alegando que Rio só avança se "sentir que é útil ao país" e até ao partido por tabela.

"Líder mais afirmativo"

A verdade é que os que com ele se confrontaram nas diretas de 2020 - Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz - não tencionam desta feita ir a votos e preferem concentrar o seu apoio em Paulo Rangel, o que arrasta todos os que estiveram com eles, entre os quais muitos passistas.

Na terça-feira, Paulo Rangel esteve sentado ao lado de Passos Coelho e Carlos Moedas (que já deu sinais de que não irá apoiar nenhum dos candidatos) na apresentação do livro de Miguel Pinto Luz Voltar a Acreditar na Política.

O ex-candidato à liderança do PSD - que não passou da primeira volta das diretas em 2020 - fez a sua declaração política a apontar para o perfil de Rangel: "Precisamos de um líder mais afirmativo na oposição, que não seja tão sectário e uma visão com densidade intelectual."

Também o artigo que Cavaco Silva escreveu no Expresso, no fim de semana passado, intitulado "Empobrecimento e silenciamento", é lido como um incentivo indireto a uma candidatura alternativa a Rui Rio. Também foi assim que o antigo líder do PSD Marques Mendes o interpretou no seu habitual espaço de opinião na SIC.

O antigo Presidente da República escreveu um rol de críticas ao governo socialista sobre a condução do destino do país, mas deu uma farpa na oposição e, sem mencionar o PSD, era para o partido que liderou que se dirigia. "O empobrecimento do país tem estado envolto, para descrédito da nossa democracia, numa penumbra de silenciamento. Para isso têm contribuído vários fatores. Desde logo, uma oposição política débil e sem rumo, desprovida de uma estratégia consistente de denúncia dos erros, omissões e atitudes eticamente reprováveis do governo."

Resta saber qual a avaliação que o próprio Rui Rio faz destas palavras e da base de apoio no terreno para saber se tem condições para protagonizar uma recandidatura ao cargo. E terminar o projeto de chegar a 2023 com potencial para disputar taco a taco com o PS as legislativas. Até porque há a esperança que António Costa decida tomar outro rumo e deixe a liderança dos socialistas.

Há ainda outro potencial challenger de Rio, Jorge Moreira da Silva, que ainda se mantém na reserva, muito provavelmente à espera das movimentações no partido. O antigo ministro de Passos Coelho andou numa roda viva a promover o seu livro e já tinha prometido fazer uma "reflexão" pós-autárquicas sobre a sua eventual candidatura.

Mais claro ou ainda nublado, o clima do Conselho Nacional vai determinar muito as cenas dos próximos capítulos na tal "nação social-democrata", que falava José Silvano. com Carlos Ferro

Altos e baixos de uma liderança

2018

Liderança Após alguns anos a ser considerado potencial candidato à liderança do PSD Rui Rio decidiu mesmo avançar para a corrida ao leme do partido e levou a melhor sobre Pedro Santana Lopes que quis marcar presença nessas diretas que os opuseram. Rio ganhou as eleições internas com 54,3% dos votos contra 45,6% de Santana. Ofereceu-lhe o primeiro lugar no Conselho Nacional, mas pouco depois o então enfant terrible do PSD bateu com a porta e foi fundar o aliança.

2019

Europeias As primeiras eleições que Paulo Rangel travou, curiosamente como cabeça de lista, foram as europeias e trouxeram-lhe um amargo de boca. O PS ganhou com 33,38% dos votos e o PSD ficou pelos 21,94% e seis lugares no Parlamento Europeu, menos um do que em 2015

Rui Rio, assumiu que o partido falhou os objetivos para as eleições europeias, mas considerou na altura ter condições para levar o partido a "um bom resultado" e vencer as legislativas de 2023.

2019

Desafio Após essas europeias desastrosas e praticamente um ano após a conquista do PSD, Rui Rio vê-se confrontado com a contestação interna, corporizada pelo antigo líder parlamentar Luís Montenegro que desafia a sua liderança e pede eleições internas antecipadas. Rio antecipa-se a uma moção de censura cozinhada pelos apoiantes de Montenegro, entre os quais Pedro Pinto, e joga com uma moção de confiança no Conselho Nacional do partido. E por voto secreto ganha por 75 votos contra 50 dos apoiantes do antigo líder parlamentar.

2020

Diretas Apesar de ter perdido no Conselho Nacional, Luís Montenegro não se demove de tentar apear Rui Rio do poder. Lança-se na corrida à liderança, tal como Miguel Pinto Luz (que ficou na primeira volta) e força Rio a ir a uma segunda volta das eleições internas. O líder vence com 53% dos votos contra os 47% de Montenegro.

2021

Presidenciais O facto de o PSD ter dado o apoio à recandidatura do antigo líder do partido à Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa, dá a Rui Rio argumentos para se juntar à onde de vitória de Marcelo.

2021

Autárquicas Ao contrário de todas as expectativas, Rio conseguiu a 26 de setembro um resultado melhor do que em 2017 para o PSD, mais 15 câmaras, uma das quais a de Lisboa. Um resultado que, no entanto, parece não travar as vozes críticas no partido.

paulasa@dn.pt

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