Rio e Rangel travam luta ideológica ou é apenas uma questão de estilo e de pontaria ao poder?

São dois candidatos à liderança do PSD que se vão defrontar a 4 de dezembro, mas os politólogos dizem que pouco os separa no partido. O que também aconteceu no passado. Aquele que der maior garantia de chegar poder ganha, tão só.

Quantos PSD's cabem no PSD? A resposta é simples para os politólogos: cabe o PSD. Por muitas nuances ideológicas que existam no partido fundado por Francisco Sá Carneiro em 1974, todas desembocam no desenho de um partido personalista, reformista e interclassista. Em que cada presidente, e foram muitos, o marca com o seu estilo pessoal de liderança. Os que perduraram foram mesmo os que deram ao PSD o gostinho do poder: Cavaco Silva, Durão Barroso, Pedro Passos Coelho e, claro, Francisco Sá Carneiro.

Rui Rio, o homem do leme neste momento, vai enfrentar nas próximas diretas de 4 de dezembro Paulo Rangel. Vão travar uma luta ideológica ou será um duelo de estilos e dos trunfos que têm para tentar destronar o PS do poder?

"O PSD é como o Benfica, o que o caracteriza é o fervor militante e não as eternas reflexões ideológicas, que marcam mais o PCP e o BE", afirma ao DN José Adelino Maltez. O politólogo assegura que o que caracteriza essencialmente o PPD/PSD "é esse largo espaço que vai da social-democracia convicta à direita moderada".

É esta apreciação que o leva a concluir: "Rio disse que era de centro porque não queria ser de direita. Paulo Rangel diz que vai do centro à direita moderada. Não há disputa ideológica absolutamente nenhuma entre os dois. O que um diz, o outro pode dizer."

Ainda assim, António Costa Pinto diz que perante partidos como o PS e o PSD tem de se ter "em conta as correntes internas mais diversificadas e no PSD sempre houve uma liberal mais minoritária", que teve "expressão" na era de Pedro Passos Coelho. "Não há dúvida que Paulo Rangel vai tentar federar esse setor do partido" do antigo primeiro-ministro.

"O PSD é como o Benfica, o que o caracteriza é o fervor militante e não as eternas reflexões ideológicas, que marcam mais o PCP e o BE."

Mas, sublinha o politólogo, "o que vai estar em causa é, no fundo, qual o candidato que protagoniza a estratégia política ganhadora para o PSD". Até porque, considera António Costa Pinto , "nada nas origens ou no discurso político de Paulo Rangel, o desafiador, nos permite afirmar que é um protagonista liberal ou cristão-democrata dentro do PSD".

José Adelino Maltez insiste na ideia de que se tratará de uma disputa entre estilos de personalidade e recorda que ambos já se candidataram à liderança e mediram forças no partido.

Paulo Rangel foi candidato à presidência do PSD antes de Rio, em 2010, conseguindo 34,4% dos votos, numa corrida contra Pedro Passos Coelho, que conseguiu 61% de apoio no partido, e José Pedro Aguiar-Branco, que se ficou por uns módicos 3,42%.

"O que vai estar em causa é, no fundo, qual o candidato que protagoniza a estratégia política ganhadora para o PSD."

Rui Rio só se candidatou pela primeira vez em 2018, numas eleições internas em que entrou Pedro Santana Lopes, e reconquistou a liderança em 2020, contra Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz. Diretas em que contou com o apoio de Paulo Rangel.

Rio, o resiliente

Rui Rio jogou com todos os trunfos de ganhos eleitorais, precisamente, na apresentação pública da sua candidatura. "Há uma tendência de voto ascendente para o PSD e descendente para o PS", afirmou "Ganhar as legislativas está mais perto de nós", garantiu.

Foi esta convicção, e os ganhos que reclamou das autárquicas, que o levaram a decidir recandidatar-se contra Paulo Rangel, um adversário que nunca nomeou mas que atacou fortemente. "Estamos mais perto de ganhar ao PS e não quero essa oportunidade destruída", afirmou. Antes já tinha lembrado que cumpriu os objetivos com que se comprometeu nas eleições autárquicas, com mais mandatos e mais votos e a maioria das capitais de distrito conquistadas para o PSD. "Conseguimos subir nos centros urbanos", os que garantem as vitórias nas eleições legislativas, sublinhou. A tal tendência de inversão de voto do PS para o PSD.

"Falta-nos a etapa de ganhar as eleições legislativas. Ninguém entenderia que deixasse esta etapa a meio e não a realizasse por inteiro", disse ainda.

A esgrimir as eleições lançou a farpa mais aguçada contra Rangel, ao lembrar que o adversário teve o resultado mais fraco de sempre do PSD em eleições europeias em 2019, quando se ficou pelos 21,94% dos votos e apenas seis mandatos no Parlamento Europeu.

Separou ainda as águas em relação aos atributos do ainda eurodeputado social-democrata, lembrando que o que está em causa é a escolha de um candidato a primeiro-ministro. "Não estamos a escolher um bom tribuno ou angariador de votos para o partido". Fez apelo àquelas que considera serem as suas qualidades, a "resiliência", "coerência de percurso" e, sobretudo, a "experiência executiva", como antigo presidente da Câmara do Porto, que Rangel não tem no currículo. Colocou ainda o PSD ao "centro".

Rangel, o unificador

Já no dia em que se lançou oficialmente na corrida à liderança do PSD, Paulo Rangel garantiu que a sua candidatura é já "um espaço de unidade, de diálogo e diversidade", que congrega um partido plural, que "vai do centro, centro-esquerda até ao limite intransponível da direita moderada". E garantiu ao partido ter todas as condições para ganhar as legislativas de 2023 (se uma eventual crise política não as antecipar).

"Estou persuadido de que tenho as melhores condições para unir o PSD, para promover o seu crescimento , realizando "a sua tradicional vocação maioritária e para vencer as eleições legislativas de 2023, com uma solução de governo estável", disse.

Paulo Rangel quis ele próprio demarcar-se do estilo de oposição daquele que será o seu adversário nas diretas: "Não defendo uma oposição sistemática, ruidosa, trauliteira (...) mas não pode ser ambígua, não pode ser frouxa, não pode ser quase silenciosa".

Líderes marcantes

Mas será que as anteriores lideranças do partido marcaram mais ideologicamente o PSD? Ou Sá Carneiro deixou um património de pensamento vasto que permitiu acomodar as várias nuances de PSD?

"Apesar de parecer, não houve muitas diferenças ideológicas entre os diferentes líderes do PSD", afirma José Adelino Maltez. Recorda que quando Cavaco Silva emergiu na liderança, em 1985, assumiu-se como da "esquerda moderna", enquanto Passos Coelho era visto como de esquerda porque zurzia no cavaquismo.

"Nem o próprio Marcelo Rebelo de Sousa quando foi líder deu uma viragem à direita no partido", assegura. E entende que, apesar de todas as lutas pela liderança - num partido que teve mais presidentes do que todos os outros - não levam o PSD à necessidade de definir o seu espaço ideológico, mesmo com o aparecimento do Iniciativa Liberal ou do Chega. José Adelino Maltez aponta para a maturidade do PSD: "É um partido de pessoas com 40 e tal anos de militância..."

António Costa Pinto partilha desta visão, de que não há fraturas ideológicas entre os sociais-democratas. O politólogo admite, no entanto, que Pedro Passos Coelho foi o líder mais diferenciado, porque tentou afirmar uma estratégia mais liberal, o que era "claramente visível" nos conselheiros que escolheu, como Miguel Morgado, antigo assessor político. Bem como na sua legitimação de algumas medidas da troika, na altura do processo de ajustamento. "Não vale a pena pensar que adotou as medidas com desagrado."

Este partido fundado a 6 de maio de 1974 por Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão e Joaquim Magalhães Mota, sozinho ou em coligação liderou 11 governos.

E é precisamente esta pulsão pelo poder que os militantes vão avaliar na corrida à liderança do PSD, sobretudo num momento em que, com eleições antecipadas ou sem elas, a ida às urnas está cada vez mais perto e os sinais de desgaste do Governo socialista são evidentes.

Quem será o candidato à liderança que terá a maior capacidade de incutir essa confiança numa mudança de ciclo político é a chave para saber quem será o próximo líder do PSD: Rui Rio ou Paulo Rangel?

paulasa@dn.pt

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