Presidente da Mesa do Chega/Açores demite-se com críticas a Ventura e ao "nepotismo" interno

O presidente da Mesa da Assembleia do Chega/Açores pediu a demissão do cargo e a desfiliação do partido, criticando o "nepotismo" interno, a direção nacional e o líder André Ventura, revela a carta de demissão.

No documento, a que agência Lusa teve acesso, João Martins pede a "demissão de funções" e o "cancelamento" da "militância do partido com efeitos imediatos".

"Tenho a plena convicção de que o senhor doutor André Ventura, ou alguém a seu rogo, virá a público dizer que é mentira. Mas é verdade, existe mesmo nepotismo no seio do partido Chega", lê-se no documento.

Na missiva enviada ao presidente da Mesa do Conselho Nacional, Luís Filipe Graça, João Martins critica a direção nacional do partido por permitir que os "órgãos regionais fossem alvo de ataques por parte de militantes tresloucados, que nunca foram devidamente admoestados pelas estruturas nacionais".

O até aqui presidente da Mesa do Chega nos Açores salienta ter comunicado a "gravidade dos acontecimentos" aos órgãos nacionais do partido, "sem que daí resultasse qualquer consequência".

A 14 de julho, o líder do Chega, André Ventura, anunciou a retirada de confiança política ao presidente da direção regional nos Açores, Carlos Furtado, que passou a deputado independente no parlamento açoriano.

Ao longo de vários meses foram públicas as divergências entre Carlos Furtado e José Pacheco, os dois deputados eleitos pelo Chega nas eleições regionais dos Açores, realizadas em outubro de 2020.

Na carta de demissão, João Martins disse ter sido "bem notória a total nulidade" da direção nacional, que manteve o "caos interno" e passou um "atestado de incompetência" à estrutura regional.

João Martins considera ainda "vergonhosa" a entrega das listas autárquicas nos respetivos tribunais sem que tivessem sido "submetidas a voto de aprovação" nos órgãos regionais.

O agora ex-dirigente do Chega revela que, "mediante estas desilusões", desistiu de ser o candidato do partido à Câmara da Ribeira Grande nas próximas eleições autárquicas.

"Senti que estava a ser desrespeitado também aqui como cabeça de lista, por parte do senhor doutor André Ventura, que num gesto infantilizado exigiu a apresentação de candidaturas, um comportamento infantil, como um menino mimado e birrento que faz um espalhafato exigindo aos pais um brinquedo", lê-se na carta.

O até aqui presidente da Mesa do Chega/Açores considera ainda "grave" a retirada de confiança política a Carlos Furtado e salienta que existe uma "grande coleção de faltas de respeito da direção nacional sobre a direção regional".

"Ao que foi dado a entender pelo outro deputado [José Pacheco], é-lhe conferido pelas estruturas nacionais responsabilidades no processo autárquico, desvinculadas da direção regional que nunca foi consultada nem ouvida", afirma.

Martins destaca que "ninguém da direção nacional se dirigiu à direção regional, depois da retirada de confiança ao antigo presidente".

João Martins considera uma "autêntica vergonha" André Ventura ter tido uma reunião com o presidente do Governo dos Açores, José Manuel Bolieiro, a 16 de julho, sem a presença de qualquer membro da direção regional.

O ex-dirigente do Chega refere que, da parte da direção nacional, "só se observou o fabrico da imagem, que é já como que uma marca comercial [...], a marca André Ventura".

"Nada mais importa a não ser promover a marca, mesmo que isto custe a destruição e destituir as pessoas sérias e honestas", conclui.

O Chega é um dos partidos que assinou um acordo de incidência parlamentar com as forças que integram o Governo dos Açores (PSD/ CDS-PP/PPM).

O partido elegeu dois deputados, mas apenas um - José Pacheco - representa o Chega, após Carlos Furtado ter perdido a confiança política do líder do Chega, mantendo-se como deputado independente na Assembleia Legislativa Regional.

A Lusa contactou a direção nacional do partido mas não obteve resposta até ao momento.

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