Pedro Nuno Santos, o líder do PS, e Luís Montenegro, o primeiro-ministro, não se afastam ideologicamente no que diz respeito ao con flito no Médio Oriente.
Pedro Nuno Santos, o líder do PS, e Luís Montenegro, o primeiro-ministro, não se afastam ideologicamente no que diz respeito ao con flito no Médio Oriente.Álvaro Isidoro / Global Imagens

Portugal antecipa cenários sobre o conflito no Médio Oriente

Marcelo Rebelo de Sousa reúne Conselho de Desefa esta terça-feira para avaliar a situação e o Governo garante que está a seguir todas as medidas para retirar de Israel e do Irão os turistas portugueses que estão a tentar deixar qualquer um dos dois países. Aperta-se o cerco a um conflito que dura há seis meses.
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O conflito no Médio Oriente, que se agravou com o ataque do Hamas - o grupo palestiniano que controla a Faixa de Gaza desde 2007 - a Israel no dia 7 de Outubro do ano passado, obrigou este fim de semana a que Portugal assumisse várias posições face ao cenário de guerra, incluindo uma reunião do Conselho de Segurança convocada para amanhã pelo Presidente da República.

Para já, o Governo garante estar a fazer tudo para retirar tanto do Irão como de Israel todos os portugueses que assim o desejem.

A nível internacional, a União Europeia (UE), também para esta terça-feira, já anunciou que vai convocar uma reunião urgente com os chefes da diplomacia de cada Estado-membro. O anúncio foi feito este domingo pelo Alto-Representante da UE para os Negócios Estrangeiros, Josep Borrell, com o objetivo de evitar a “desescalada” do conflito.

Tudo isto surge na sequência do ataque com drones feito pelo Irão contra Israel no sábado à noite, e que representa mais um degrau subido na longa escadaria que tem sido o conflito entre Israel e o Hamas.

Como reação, a comunidade internacional condenou todos os ataques.

Por parte de Teerão, o presidente iraniano, Ebrahim Raisi, classificou o ocorrido neste fim de semana como uma ação de “legítima defesa” contra o “regime sionista” que tem representado uma oposição aos “interesses iranianos”.

Portugueses no conflito

No que diz respeito à resposta do Governo português aos turistas que se encontram tanto em Israel, como no Irão, há a garantia de que todos os esforços estão a ser feitos para que tudo decorra com normalidade, de acordo com o que o DN apurou junto do secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário.

Entre a meia centena de portugueses que no sábado se encontravam no Irão e que pretendem regressar a Portugal, “há um pequeno grupo” que já deixou Teerão por via terrestre, de autocarro, confirmou o governante.

“Serão oito a dez e demoram 58 horas de Teerão até à Turquia”, garantiu José Cesário, acrescentando que saíram da capital iraniana no sábado à noite.

“Sei que pernoitaram esta noite em viagem, e vão continuar provavelmente até amanhã (2ª feira), se calhar à noite”, esclareceu.

Em relação aos restantes, “a maior parte deles, que são uns 35, esses estão em Teerão ainda. São pessoas mais velhas, não quiseram fazer a viagem de autocarro por terra. E, portanto, esses estão a aguardar por um voo que os deverá trazer hoje diretamente para Lisboa”, acrescentou.

“Quanto a Israel, temos também alguns turistas, 13, tanto quanto foi referido”, adiantou o secretário de Estado, explicando que este número pode sofrer atualizações.

Só há uma certeza: estão “a tratar do regresso através de voos comerciais”, destacou José Cesário.

Neste momento o Estado português está em “contacto com as autoridades do país local, neste caso de Israel, para saber se podemos fazer aterrar uma aeronave no respetivo espaço aéreo”, sustenta José Cesário, adiantando que é preciso “articular essa ação com os países parceiros da União Europeia. Isso é o que se faz sempre. Há contactos regulares e permanentes entre as autoridades diplomáticas dos diversos países da União, e, portanto, muitas vezes o que acontece é que vai um avião de uma determinada nacionalidade e que traz pessoas, dependendo da nacionalidade. Depois, a terceira questão é evidente, é ter os meios mobilizados. Nós já temos os meios mobilizados, pelo menos para uma primeira necessidade, e aguardamos que seja necessário buscar as pessoas. Para já, importa é realçar este aspeto: há condições de relativa normalidade para as pessoas poderem sair”, assegura José Cesário.

“Oportunamente, vamos avaliar de acordo com a evolução das coisas, de acordo com as circunstâncias. Vamos avaliar se é preciso mandar de facto um voo, que estará a ser chamado um voo militar, em princípio, para trazer as pessoas.

A posição consequente

O Governo, que assumiu os destinos do país há duas semanas, no programa que na semana passada foi debatido na Assembleia da República assumiu uma posição muito clara sobre este conflito: “Portugal lutará pela adoção da solução dos dois Estados”, Israel e Palestina.

No entanto, o Executivo de Luís Montenegro, nesta missiva, optou por destacar também que o objetivo é reconhecer “a Israel o direito à legítima defesa contra o terrorismo, reclamando a libertação de todos os reféns e advogando o estrito respeito pelas regras de Direito Humanitário Internacional, defendendo um cessar-fogo que faculte a ajuda humanitária e o estabelecimento de negociações com vista a uma paz duradoura, que passará pela autodeterminação do povo palestiniano”.

Se há dúvidas sobre possíveis entendimentos entre o Governo e o PS em várias matérias, desde política fiscal até à habitação, no que diz respeito a defesa nacional parece que há margem para negociações mais fáceis.

“No caso do conflito do Médio Oriente, defender intransigentemente a solução de dois Estados e contribuir no quadro das instituições internacionais, para a promoção de uma paz justa e estável através da convivência de um Estado palestiniano e de um Estado israelita”, propôs o PS no programa eleitoral, acrescentando que “Portugal deverá combater sem tibieza, no plano interno e externo, todas as manifestações de antissemitismo e de islamofobia, que se têm manifestado de forma recrudescente, em parte devido ao conflito no Médio Oriente”.

Seis meses da história de um longo conflito

7 de outubro de 2023
Israel sofre um ataque do Hamas, o grupo palestiniano que controla Gaza, na Palestina, desde 2007. De acordo com dados israelitas, morreram cerca de 1200 pessoas e 250, incluindo os corpos de algumas das pessoas mortas, são levados para Gaza.

9 de outubro de 2023 
O ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, declara um cerco em torno de Gaza, onde moram mais de dois milhões de palestinianos. “Nenhuma eletricidade, comida ou combustível” serão permitidos.

12 de outubro de 2023
Israel dá um prazo de 24 horas para que os civis que moram no norte de Gaza evacuem a zona em direção ao sul.

21 de outubro de 2023
A travessia de Rafah é reaberta pelo Egito, que no momento é a única saída ou entrada de Gaza que não está sob controlo israelita.

24 de outubro de 2023
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, perante o Conselho de Segurança da ONU, diz que os ataques do Hamas “não aconteceram do vácuo”, relembrando que o povo palestiniano “é sujeito a uma ocupação sufocante há 56 anos”. O embaixador de Israel na ONU Gilad Erdan, reage a estas declarações e pede que Guterres renuncie ao cargo. O secretário-geral acaba por justificar as declarações, mas mantém-se sempre ao lado do reconhecimento de um Estado palestiniano.

31 de outubro de 2023
Um ataque de Israel ao campo de refugiados de Jabalya, no norte de Gaza, mata mais de 110 pessoas e fere centenas.

6 de novembro de 2023
De acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, o número de mortos na região ultrapassa os 10 mil.

19 de novembro de 2023
Rebeldes xiitas do Iémen, os houthis, apoiados pelo Irão, atacam o navio Galaxy Leader. Este é o primeiro de vários ataques na zona.

24 de novembro de 2023
Israel e Hamas acordam um cessar-fogo e trocam reféns de ambos os lados.

22 de dezembro de 2023
O número de mortos, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, atinge a marca de 20 mil.

11 de janeiro de 2024
A África do Sul apresenta ao Tribunal Internacional de Justiça um caso de genocídio contra Israel. As alegações sul-africanas são contestadas tanto por Israel como pelos Estados Unidos.

15 de janeiro de 2024
O Irão dispara mísseis contra um local no Iraque, que alega ser de espionagem israelita.

26 de janeiro de 2024
O Tribunal Internacional de Justiça ordena a Israel que tome todas as ações necessárias para que haja comida para os civis em Gaza.

23 de fevereiro de 2024
Benjamin Netanyahu apresenta ao Governo um plano para o período pós-guerra em Gaza que passa por manter operações militares.

1 de abril de 2024
O movimento islamista Hamas pede, pela primeira vez, desculpa à população de Gaza pelo sofrimento causado pelo conflito.
 
13 de abril de 2024
O embaixador de Portugal no Irão, anuncia que vai reunir-se com o chefe da diplomacia iraniana, a propósito da captura de um navio com pavilhão português. O presidente dos Estados Unidos (EUA), Joe Biden, pede a Teerão que não avance com o ataque que anunciou. A Casa Branca avisa que vai ajudar Israel com a defesa contra o ataque do Irão com drones. Irão apela aos EUA que fiquem de fora. Irão avança com o ataque, que é repelido por Israel. União Europeia anuncia uma reunião com os chefes da diplomacia de cada Estado-membro para dia 16 de abril. Portugal, nesse dia, vai reunir o Conselho de Defesa, convocado por Marcelo Rebelo de Sousa.

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