Pinto Luz dá sinais no PSD. Melo a jogo no CDS? Partidos em crise de identidade

Rui Rio vai sair da liderança e Miguel Pinto Luz dá sinais internos de que pode avançar para a corrida à sucessão. No CDS, Nuno Melo mantém os apoios. Mas PSD e CDS confrontam-se com o crescimento do Chega de Ventura e da IL de Cotrim de Figueiredo.

Um partido está "em choque", o outro praticamente em "luto". PSD e CDS, em proporções bem distintas estão numa crise de identidade e, dentro em breve, de liderança após os resultados das legislativas. A maioria absoluta do PS e o crescimento do Chega, com 12 deputados, e da IL, com 8, deu cabo da presidência de Rui Rio - que não se recandidatará - , e das intenções de crescimento do partido, e arrasou o consulado de Francisco Rodrigues dos Santos no CDS. Ambos os partidos debatem-se internamente com uma crise de identidade e de liderança.

Apesar de o abalo ainda ser muito recente, as movimentações começaram no PSD a partir do momento em que Rio deixou perceber que não tenciona cumprir o mandato de dois anos a que tinha direito no partido. O DN sabe que, por exemplo, Miguel Pinto Luz, vice-presidente da Câmara de Cascais que concorreu contra Rio e Montenegro nas diretas de janeiro de 2020, já começou a ouvir alguns dos mais próximos para avaliar se deve avançar de novo para outra corrida à liderança. E há quem admita que Luís Montenegro também o poderá voltar a fazer.

Mas mesmo que surjam vários candidatos à sucessão de Rio, no partido todos reconhecem que "este é um momento muito difícil e inesperado", marcado "pelo voto útil no PS de um eleitorado de esquerda que saiu à rua, saiu do sofá, para votar no partido de Costa". E de outro à direita que "fez crescer o Chega e a IL".

"Vamos ter um grande problema para resolver. Quem quererá ser líder com um grupo parlamentar fraco, sem os debates quinzenais para confrontar o primeiro-ministro, com a IL com força e nomes de primeira linha no parlamento e a oposição ruidosa do Chega?" - interroga-se um ex-deputado social-democrata, que recorda que após um ciclo de quatro anos de maioria absoluta "é muito difícil conseguir uma reviravolta". E conclui: "Nestas eleições viu-se que o partido, a manter-se como está, não tem margem de crescimento. É um partido envelhecido e que já nem o interior tem com ele, basta ver que perdemos Bragança, Guarda, etc."

É também neste sentido que o ex-líder da JSD e deputado Pedro Rodrigues apela a um congresso prévio à discussão da liderança para discutir a reconstrução do partido e refletir sobre o "divórcio profundo entre o partido e o nosso eleitorado, a classe média, os empresários, os jovens, as famílias".

Pedro Rodrigues diz que seria um "erro" procurar "soluções instantâneas" de liderança, antes de repensar o que é preciso o PSD ser para se reerguer. "Continuamos organizados como nos anos 1980, é preciso modernizarmo-nos", afirma ao DN.

A bancada parlamentar do PSD com 76 deputados, mais pequena do que a saída das legislativas de 2019 (79 deputados), vai continuar a ser o principal partido da oposição, mas terá o confronto com os dois novos grupos parlamentares da Iniciativa Liberal e do Chega. Grupos que apesar de bem mais pequenos vão tentar afirmar-se como as peças-chave no confronto com os socialistas maioritários.

CDS morreu?

O CDS encontra-se numa situação muito mais dramática do que o PSD. Não conseguiu eleger um único deputado, o que conduziu à inevitável demissão de Francisco Rodrigues dos Santos.

O eurodeputado Nuno Melo tinha assumido que se candidataria à liderança mesmo que o congresso eletivo fosse depois das legislativas - e foi isso que determinou o Conselho Nacional do CDS -, e há fontes no partido que garantem que irá mesmo avançar. Até porque com ele tinha, em confronto total com a direção de Francisco Rodrigues dos Santos, figuras como Nuno Magalhães, antigo líder parlamentar do CDS, os ex-deputados João Almeida, Cecília Meireles, Pedro Mota Soares, Telmo Correia e Diogo Feio. Ao DN, Telmo Correia diz que o partido tem de "refletir sobre o que é a vontade das pessoas" e os ativos que ainda tem, entre os eleitos, os autarcas e militantes. "Há uma história e um espaço político, a ala democrata-cristã de direita e a ala conservadora, que não estão representadas nem no Chega nem na IL", afirma.

Admite que "não será fácil reconstruir o partido", mas "se há pessoa mais bem colocada para o fazer é Nuno Melo".

Telmo Correia explica porquê: "Foi ele que se chegou à frente contra a atual direção, tem um cargo institucional no Parlamento Europeu e está na política ativa." A que se soma o facto de, se o ciclo da legislatura for normal, as primeiras eleições serem as europeias. "Mas se ele vai avançar só ele é que sabe", sublinha o ex-deputado.

O antigo deputado Diogo Feio perante "o pior resultado da história do CDS" defende que é momento de colocar em cima da mesa todas as hipóteses, incluindo a do fim do partido. "Será a altura de com seriedade e dignidade fazer uma reflexão sobre o próximo congresso. Que ruturas fazer? Qual o caminho possível, se é que há? O que faz sentido? Tudo poderá e deverá, com dignidade institucional, estar em aberto", escreveu no Facebook. Acrescenta ao DN que até se pode pensar "numa lógica de federação da direita" e defende que as eleições demonstraram que "se pode ganhar sem os extremos e sem o Chega daqui a quatro anos".

Diogo Feio admite que o partido está "numa situação de cinzas, mas também ele diz que se Nuno Melo vier a protagonizar uma candidatura estará ao seu lado.

António Pires de Lima, o antigo ministro centrista que deixou o partido em setembro passado, foi taxativo ao Expresso: "O CDS morreu ontem [dia das eleições], sem oportunidade de passar pela última estação." "Na ausência de dois congressos - um solicitado e não concedido, outro marcado e depois cancelado - o CDS nem oportunidade teve de passar pela última estação", escreveu Pires de Lima. Convicto de que "o partido vai, realmente, fazer muita falta à democracia portuguesa".

O antigo líder parlamentar do CDS António Lobo Xavier afirmou que o partido passa "um momento triste" e repartiu as culpas pelo desaire eleitoral entre a direção e os críticos. "A culpa é própria, sempre, e a culpa é obviamente e em primeira linha dos dirigentes que estão, mas a culpa é muito generalizada. Esta culpa não é única. O clima de guerrilha e as frases assassinas não foram um exclusivo da direção do CDS ou dos apoiantes da direção", afirmou em declarações à Renascença.

Também correu nos bastidores do partido que Filipe Anacoreta Correia, presidente da Mesa do Conselho Nacional do partido poderia protagonizar uma candidatura à presidência, mas o próprio negou ao DN "que esteja a ponderar o que quer que seja" e também assumiu que este é o "momento de uma grande reflexão" dentro do CDS.

paulasa@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG