O ex-ministro das Infraestruturas Pedro Nuno Santos reconheceu esta quinta-feira na comissão parlamentar de inquérito (CPI) à TAP que, quando convidou Alexandra Reis para dirigir a NAV, não a interpelou sobre a eventual necessidade de devolver a indemnização de meio milhão de euros que tinha recebido poucos meses antes, quando deixou a administração da TAP.."Não tinha ideia que era minha função fazer isso", afirmou, quando questionado sobre o assunto pelo deputado Pedro Filipe Soares, do BE. "Também não perguntei a Alexandra Reis se tinha entregue a sua declaração de rendimentos no Tribunal Constitucional. Isso é responsabilidade da gestora", respondeu o ex-ministro..Pedro Nuno Santos reconheceu na comissão que o processo que levou Alexandra Reis a sair da TAP "correu mal" mas, interpelado por André Ventura, do Chega, recusou alinhar num pedido de desculpas aos portugueses. "Fiz o meu trabalho de boa-fé. As coisas não correram bem. E eu assumi as minhas responsabilidades demitindo-me. Essa é a punição máxima que aplicamos a nós próprios.".Ou seja: ao ter dado o ok a que a gestora recebesse a dita indemnização agiu de "boa-fé" porque o que lhe diziam (o seu secretário de Estado Hugo Mendes, recebendo este informação da própria TAP) era que não se podia baixar mais aquele valor (e inicialmente Alexandra Reis até tinha pedido 1,5 milhões). "Quando eu dou ok a um valor estou a responder de boa-fé. Antes as coisas tivessem corrido de outra forma [mas] não posso estar a punir-me quando agi de boa-fé.".Pedro Nuno Santos passou a reunião toda a valorizar as qualidades profissionais de Alexandra Reis ("inteligentíssima", "trabalhadora", etc.). Porém, em simultâneo, explicou porque aceitou (em janeiro de 2022) o seu afastamento da administração da TAP a pedido da então CEO da empresa, Christine Ourmières-Widener: foi para permitir a esta ter "uma equipa coesa", algo particularmente sensível numa altura em que a TAP lidava com um processo interno de reestruturação muito duro. Ou seja, reconheceu o ex-ministro: embora desconhecendo "casos concretos", sabia que havia "mal-estar" entre a CEO da TAP e a administradora Alexandra Reis e foi por isso que aceitou a saída da gestora, apesar de lhe reconhecer competência (tanto assim que meses depois a convidaria para dirigir a NAV, a empresa pública que gere o espaço aéreo)..Citaçãocitacao"Não olho para o comunicado [da TAP para a CMVM] como uma mentira, mas como a transposição de um acordo, de uma solução jurídica que eu não conhecia e não tinha de me pronunciar.".Ora, o que aconteceu depois, é que a TAP comunicou à CMVM a mudança na administração da empresa dizendo que esta tinha ocorrido porque Alexandra Reis ia abraçar novos projetos profissionais. O ex-ministro Pedro Nuno Santos sabia que não era assim mas isso não o impediu de ter dado aqui, mais uma vez, ok prévio a essa mensagem da TAP, agora ao regulador bolsista. Acusado por André Ventura de assim ter autorizado uma "mentira de facto", Pedro Nuno Santos recusou concordar: "Não olho para o comunicado [da TAP para a CMVM] como uma mentira, mas como a transposição de um acordo, de uma solução jurídica que eu não conhecia e não tinha de me pronunciar.".Ao longo da reunião, Pedro Nuno Santos foi também interpelado - primeiro por Bernardo Blanco, da Iniciativa Liberal - sobre a auditoria (na posse da CPI mas classificada) que dirá que, desde 2019, treze administradores deixaram a empresa com indemnizações que somam 8,5 milhões de euros..Perguntando aos deputados - e sem obter resposta - quem são afinal esses administradores, o ex-ministro criticou o facto de, com a revelação apenas em termos gerais dessa auditoria, estar a fazer caminho uma ideia de que afinal existiram "13 alexandras reis". Segundo assegurou, só tem conhecimento de facto de duas saídas de administradores com indemnização: a da própria Alexandra Reis e a do gestor brasileiro Antonoaldo Neves (CEO da TAP de 2018 a 2020)..Pedro Nuno Santos também explicou porque é que, ao demitir-se do governo, não assumiu de imediato publicamente que tinha sido ele próprio a dar autorização à indemnização que a TAP pagou a Alexandra Reis para esta deixar a empresa (no seu comunicado de demissão do governo essa responsabilidade ficou por conta do seu secretário de Estado Hugo Mendes): "No dia em que apresentamos a demissão eu tinha a explicação estabilizada, do que nos lembrávamos". E depois, já fora do governo, entrou em "descompressão" e "até num período de luto". Só semanas mais tarde, em casa, é que foi rever as mensagens e percebeu que o ok final tinha vindo dele, revelando isso imediatamente, em comunicado: "Fui eu que tornei pública a informação e a mensagem", sublinhou..Citaçãocitacao"Nunca senti falta de solidariedade do primeiro-ministro, a questão não se colocou nesse patamar.".O ex-ministro assegurou também não ter tido conhecimento na altura do mail que o seu secretário de Estado Hugo Mendes escreveu à CEO da companhia pedindo-lhe que alterasse o horário de um voo comercial que transportaria o Presidente da República de Maputo para Lisboa. Esse email, disse, foi "infeliz" - como o próprio Hugo Mendes reconheceu na quarta-feira - mas, ao contrário do que depois disse António Costa, não o teria demitido "na hora": "[Hugo Mendes] é muito mais do que aquele email. Quando faço uma avaliação é sobre o todo e não sobre um momento que não foi feliz." Depois, questionado sobre a sua relação com Costa, garantiu: "Nunca senti falta de solidariedade do primeiro-ministro, a questão não se colocou nesse patamar." Numa aparente farpa ao seu sucessor João Galamba, acrescentaria: "Quando decido demitir-me, decido demitir-me.".Citaçãocitacao"Trabalhei seis anos com ele [Frederico Pinheiro]. Faço uma avaliação do seu trabalho muito positiva. É inteligente, trabalhador, respeitador.".Questionado pelos deputados, fez ainda questão de - tal como também aconteceu com Hugo Mendes - proteger o seu adjunto Frederico Pinheiro: "Trabalhei seis anos com ele. Faço uma avaliação do seu trabalho muito positiva. É inteligente, trabalhador, respeitador"..Quando Pedro Nuno Santos deixou o ministério das Infraestruturas foi substituído por João Galamba e Frederico Pinheiro manter-se-ia no gabinete, protagonizando em 26 de abril passado, depois de exonerado pelo ministro, o famoso incidente que levaria um agente do SIS a sua casa para lhe resgatar um computador portátil de serviço que tinha levado do gabinete..Citaçãocitacao"[A geringonça] foi bom enquanto durou. Correu bem para todos e para o povo português.".Pedro Nuno recusou de todo comentar este incidente mas admitiu dois contactos telefónicos nessa noite: primeiro Frederico Pinheiro ligou-lhe a contar que tinha sido exonerado por Galamba; depois foi ele que ligou ao seu adjunto para "perceber o que tinha acontecido", já depois da intervenção do SIS. Não revelou porém quem lhe disse dos incidentes: "Não me lembro.".Já no fim, numa troca de palavras com o deputado do BE Pedro Filipe Soares, recordaria com nostalgia o tempo geringonça. "Foi bom enquanto durou. Correu bem para todos e para o povo português.".joao.p.henriques@dn.pt