Sente que há uma crise política evidente em Portugal? Não tenho dúvida nenhuma de que há uma crise política profunda, infelizmente consolidada e de que a pancadaria num gabinete do governo, a par de um SIS ao serviço de um partido, em vez de estar ao serviço do Estado, é apenas o último dos episódios. Nós o que temos como evidente é um governo que já substituiu 13 governantes em doze meses de vida, vai acumulando casos, escândalos, aspetos relacionados com o nepotismo, muita falta de sentido de Estado e de estatura para quem quiser ver..O grau de crise é tal que são necessárias eleições legislativas antecipadas? O CDS tem pedido eleições legislativas antecipadas. Aliás, pedimos eleições legislativas antecipadas e a dissolução do parlamento em dezembro, porque nos parece mais ou menos evidente que este executivo já não tem capacidade de se regenerar em condições de normalidade. Quer dizer, acha normal?.E isso faz sentido com um PRR por executar ainda? Isso não pode ter consequências? Para mim faz muito menos sentido ter um PRR - que já devia estar executado em larga medida - a ser executado de forma pífia, quando aqui ao lado, em Espanha, está executado próximo dos 80%. Isso é que não faz sentido nenhum..Mas não se corre o risco de perder fundos comunitários por causa de eleições antecipadas? Não, porque o facto de ter eleições antecipadas não só lhe permite ter um governo que em funções de gestão pode continuar a executar o PRR e a exercer as suas competências, como, porventura, depois de renovado à democracia, através do povo que fala nas urnas e perante o problema que é evidente, ter talvez um figurino, um eleito governativo que desse melhor conta do recado. Veja bem: como é possível ter um ministro das Infraestruturas que é destruído em direto perante o país, pelos casos - e estava a tentar recordar as expressões usadas pelo senhor Presidente da República -, que foram de tal contundência e, apesar da demissão simulada, no dia seguinte mantém-se no lugar..O que é que isso diz do ministro? Do ministro diz muito pouco, o que me diz é que o ministro só está formalmente no lugar porque já ninguém o leva a sério. O que João Galamba ainda não percebeu é que, apesar de estar no lugar, depois daquela simulação que fez com o primeiro-ministro, na verdade já não é ministro. Ou seja, à parte da nomenclatura que gravita ali à volta do Largo do Rato, realmente já ninguém lhe reconhece credibilidade..É um estorvo, é isso? É um estorvo, é lastro, é peso, prejudica o governo e prejudica o Estado. Como é possível um país inteiro ouvir um Presidente da República, que é o chefe de Estado, adjetivar como fez em relação àquele ministro em concreto e, mesmo assim, o primeiro-ministro achar que isso não prejudica o governo e o próprio Estado. Como é possível aqui chegarmos? Temos um primeiro-ministro que diz que não sabia e que não lhe foi nada comunicado a propósito de um computador de um cidadão por parte do SIS. É evidente que isto é impossível, porque sabemos que está em causa um gabinete do governo, está em causa um equipamento de um adjunto, está em causa o SIS, que tem um secretário-geral do SIRP como responsável que depende diretamente do primeiro-ministro, com o estatuto de secretário de Estado. Então como é possível estar em causa o próprio governo, gente escolhida por António Costa, equipamento do governo, um responsável que depende diretamente de si, e tudo isto acontece e o primeiro-ministro não sabe de nada?.DestaquedestaqueAtivo contra as políticas do governo de António Costa acredita que Bruxelas "pode travar a morte do alojamento local que o governo do PS quer decretar em Portugal"..Não acredita nisso? Evidente que não, porque das duas uma: ou o primeiro-ministro era totalmente destituído de razão de ser no exercício da função....Ou faltou à verdade quando disse que não sabia? Ou o primeiro-ministro é totalmente incompetente e desvaloriza o que não pode ser desvalorizado, porque estamos a falar de uma polícia secreta que não é alvo de escrutínio como é uma Polícia Judiciária ou uma PSP, e que age desta forma, com esta contundência num caso que não é de polícia, apesar do primeiro-ministro dizer que é; ou então sabia e escondeu..Saber e esconder é mentir? A partir do momento em que omite, mente, quando lhe é perguntado sobre o que aconteceu e diz que não sabia. Mas seja como for, ambas as coisas são graves, porque sendo primeiro-ministro tinha a obrigação de saber, e se não lhe foi comunicado tinha a obrigação de agir. E este secretário-geral do SIRP já lá não poderia estar, entre outras coisas..Confia no que foi dito pelo SIRP? Não tenho de confiar em nada porque está a ser apurado. Acho tudo tão grave. Sou um cidadão que vive num Estado de Direito e que só se pode preocupar quando percebe que uma polícia secreta, depois de um telefonema de uma chefe de gabinete de um ministro, vai a casa de outra pessoa para lhe pedir um computador. É tudo absolutamente amador e irresponsável, porque estão em causa direitos, liberdades e garantias..E é responsável manter o governo em funções? É irresponsável, diria..O Presidente da República não demitiu nem o governo nem o Parlamento. É responsável fazer isto? Quando ouvíamos o Presidente da República, eu estava a avaliar o diagnóstico e a pensar que concordava com aquilo tudo, só faltou no final a conclusão óbvia, que tinha uma ligação causal com a avaliação, que era dizer-se que então se dissolvia o Parlamento e se convocava eleições antecipadas..A decisão do Presidente foi responsável ou não? A decisão do Presidente foi uma decisão legítima de quem tem um entendimento na consequência que não é o meu. Mas eu, enquanto presidente de um partido, também estou no direito de ter outra avaliação e outra opinião..Também o primeiro-ministro tem legitimidade para manter o ministro em funções. Claro que tem, matando um princípio que considero muito importante nas democracias respeitadas e consolidadas, que se chama responsabilidade política. É suposto que os governantes, por modo próprio ou por decisão de um primeiro-ministro, perante casos que sejam considerados graves - e considero este caso grave, acho que a generalidade do país considera este caso grave -, assumam responsabilidades, isto é, que alguém assuma responsabilidades..O Presidente da República fez bem ou mal em manter o governo em funções? O Presidente da República, no meu entendimento, fez mal em manter o governo em funções. Já viu como há um ano, permanentemente, estamos a discutir os problemas do governo? Permanentemente estamos a discutir os ministros ou os secretários de Estado que já lá não deviam estar, e que o Dr. António Costa segura pela mão, insistindo contra a perceção geral para depois, afinal, o substituir ou demitir? Nós tivemos governantes que, em alguns casos, ficaram 24 horas no cargo. Acha isto normal em qualquer país do mundo? Eu não acho..E o atual relacionamento entre o Presidente da República e o primeiro-ministro é normal? Isso não sei, mas há uma coisa que me parece óbvia. É que a forma como o primeiro-ministro afrontou o Presidente da República, não substituindo um governante que não teve a lucidez mínima de assumir em si a responsabilidade política que lhe era devida, cria um caso e altera necessariamente um relacionamento que poderia ser muito melhor..Acredita que o Presidente vai deixar que o governo se mantenha até 2026 ou acredita que isto vai mudar a qualquer altura? Acho que se este governo nos demonstra uma rotina, acredito que dificilmente terá condições de cumprir a legislatura. A menos que, de repente, tudo o que hoje é lido como vício se transformasse em virtude. Seria estranho, ponderando que as pessoas são as mesmas. Portanto, acho que normalmente os mandatos são para cumprir, mas neste exato momento este governo é um problema para Portugal e deveria ser substituído. Claro que há o risco, que alguns invocam, de que indo a votos a alteração eleitoral não seja suficiente, que eventualmente possa ficar tudo mais ou menos na mesma, que a extrema-esquerda cresça, ou que a extrema-direita cresça, não sei..E consegue perceber o argumento, nomeadamente do Presidente da República, de que não há alternativa? Em democracia há sempre alternativas e não podemos ter medo da democracia. Sinceramente, ou os portugueses achariam que é muito mau mas deve ficar, e aí são corresponsabilizados pelo que se passa, porque passou um ano e tinham muito termo de comparação, ou acham que não e realmente mudam. E mudando podem mudar para um de muitos sentidos..Não há muitos. Sim, podem mudar para qualquer coisa mais à esquerda, para qualquer coisa mais à direita. Espero que no meio disso tudo mudem, dando desde logo ao CDS uma relevância que acho importante o CDS ter na democracia e devolvendo o CDS ao Parlamento..Acha que o PSD tem nesta altura condições para ser a alternativa? Não me compete avaliar o PSD, mas diria que a história da democracia mostra-nos que em Portugal o poder vem alternando entre soluções que tem de um lado o Partido Socialista e do outro lado o Partido Social-Democrata, sendo que em sete governos o Partido Social-Democrata governa com o CDS. E não foram poucas as vezes também em que, tendo nós eleições, as surpresas aconteceram contrariando até muitas sondagens..Mas há uma maior expressão da direita ou não? Parece-me evidente que se começa a construir uma alternativa, no sentido de que os portugueses já não reconhecem neste governo e em António Costa a confiança que uma maioria absoluta lhe garantiu há um ano atrás. Acho realmente impossível do ponto de vista racional, se há alguma racionalidade nas urnas, que um governo tão incapaz voltasse a ter uma maioria absoluta se fossemos hoje a votos. Não que isso também significasse muita coisa, tendo em conta que o Dr. António Costa já governou perdendo eleições, portanto, até poderia perder e voltar a governar novamente, mas com maioria absoluta não acredito. O ideal seria uma alternativa de centro-direita, na qual o CDS conte para alguma coisa..Que alternativa de centro-direita seria essa? Seria uma alternativa que englobasse necessariamente o PSD, o CDS e a Iniciativa Liberal. Não tenho nenhumas dúvidas em relação a isso. Acho que se avaliarmos o espectro político-partidário atual, com uma dispersão de partidos no espaço político de centro-direita, com alguns com votos que não existiam há algum tempo atrás, um cenário como este que lhe indico seria uma possibilidade boa para Portugal. O que espero é que tão cedo não voltemos a ter maiorias absolutas de um só partido em Portugal, seja PS, seja PSD. É a pior coisa que podia acontecer ao país..Já conversou com Luís Montenegro sobre isso? Já trocaram ideias? Conheço o Luís Montenegro há muitos anos, mas neste momento todo o meu esforço está em preparar o CDS para que o CDS dependa de si. Não fico preocupado com aquilo que poderá fazer eventualmente com os outros. A minha preocupação está em, tendo aprendido com erros que necessariamente foram de percurso e que nos levaram até há um ano atrás, preparar o partido para que o CDS ganhe músculo, volte a casar-se com a sociedade e a ser lido como útil e importante pelos eleitores, trazendo para si novamente os que votavam CDS e nas últimas eleições votaram Chega ou Iniciativa Liberal, dizendo-lhes, "ajudem-nos a recuperar este bem maior da democracia que se chama CDS". Acho que isso é possível, mas sendo assim, não me quero concentrar num CDS em estado de necessidade, não quero um CDS de mão estendida..Ter essa conversa era ficar de mão estendida? Não, ter essa conversa significa que CDS vale, o CDS conta, o CDS tem quadros extraordinários e o CDS tem votos. Se for por favor não vale a pena, porque nenhum partido que seja lido em estado de necessidade tem vantagem em si próprio depois no exercício dos próprios mandatos..E conseguiu recuperar os militantes que passaram, por exemplo, para o Chega? Consegui recuperar uns e não consegui recuperar outros. Consegui ter outros militantes que nem sequer eram do CDS. Ou seja, o CDS hoje é um partido dinâmico. Um partido que se tivesse desaparecido não era aquilo que nós temos mostrado desde o último congresso. Um partido que se tivesse desaparecido não tinha estas pessoas, não tinha estes quadros, não tinha esta simpatia na rua, não tinha esta garantia de muita gente que dizia, "não votei, mas vou voltar a votar"..Mas não tem o terreno também mais reduzido? PSD, iniciativa liberal, Chega ocuparam espaço onde o CDS vivia. Eu tenho, mas cada um desses partidos também tem um espaço mais reduzido, na medida em que são mais, e isso sucedeu noutros países também, essa fragmentação..Mas você não tem deputados e eles têm. Não tenho agora, mas ninguém é dono dos votos, nem nenhuma situação política é necessariamente imutável. Se assim fosse, não tínhamos visto partidos de centro a desaparecerem por essa Europa fora e outros a surgirem, a terem votos e depois desaparecerem. Nada é imutável e o facto de o CDS ter tido um desaire há um ano atrás, não significa que esse desaire de repente se transforme num anátema e numa circunstância para todo o sempre..E quais são os argumentos que têm para poder ir buscar eleitores ao Chega, à Iniciativa Liberal, ao PSD? Os primeiros argumentos que tenho estão nisto: o Chega e a Iniciativa Liberal aparecem com esse manto não experimentado, sem vícios dos partidos clássicos, quase virginal, que fariam tudo diferente, só que, entretanto, o tempo passou e já foram experimentados. Já foram tão experimentados que em pouco tempo já tiveram disputas de lideranças, já tiveram problemas internos graves, já tiveram cisões, também já tiveram saídas, já mostraram muitos problemas dos partidos clássicos..O que é que o CDS tem que a IL não tem que faz com que os eleitores possam regressar ao CDS? Não duvido que algumas pessoas que votavam no CDS, olhando para a Iniciativa Liberal, achassem que a Iniciativa Liberal era uma espécie de CDS moderninho. É um CDS com novas ideias, nova roupagem e tal. A verdade é que, para lá dos outdoors que são bons, em tudo o resto - exceção feita ao mercado no qual a Iniciativa Liberal não inova, porque não diz nada que o CDS não dissesse antes já que os liberais sempre tiveram no CDS - a Iniciativa Liberal está muito mais próxima do Bloco de Esquerda. A IL quis sentar-se à esquerda do PSD, assume-se que é um partido de centro/centro-esquerda. A IL luta pela liberalização das drogas, luta pela eutanásia, luta pela ideologia de género, enfim, realmente luta por aquilo que o coloca a par, com toda a legitimidade, do BE, muito mais do que do CDS..Isso não é uma característica de um partido que nem é de esquerda nem é de direita, que é liberal? Isso é um partido que não é coisa nenhuma. Dizendo com respeito, são partidos, e são partidos de pleno direito, mas não têm nada a ver com o CDS. Houve pessoas que votavam no CDS e que achavam que a Iniciativa Liberal podia ser um CDS com uma roupagem mais moderna e hoje percebem que, exceção feita ao mercado, a Iniciativa Liberal não tem nada a ver com o CDS. Conto a particularidade de que, na primeira vez que foi experimentada para tentar assegurar soluções de centro-direita capazes, nos Açores, deixaram cair um acordo que foi livremente assumido para abrir a porta aos socialistas..DestaquedestaqueNo Parlamento Europeu, num discurso, Nuno Melo defendeu que a possibilidade de José Sócrates não ser julgado é uma indignidade..Falta de coerência, é isso? Não, o que estou a dizer é que quando postos à prova não hesitaram em correr o risco de devolver o poder ao PS, ao ponto do atual líder da Iniciativa Liberal ter dito que, se dependesse dele, não se teria sequer celebrado nenhum acordo nos Açores. Mas se não tivesse sido celebrado nenhum acordo nos Açores, isso significava que hoje ainda era o PS que mandava. Ora, isto não tem nada a ver com o CDS..Mas isso não foi o que o seu partido fez na Madeira? Andou quase 50 anos a combater o PSD, criticando de uma forma violentíssima toda a gestão, e na primeira oportunidade seguraram o governo PSD que andaram meio século a criticar. Totalmente diferente. Porque realmente na Madeira o CDS foi o partido que fez oposição ao PSD, muitas vezes sendo a alternativa ao PSD. A diferença é que nós estamos agora no poder, levando o que o CDS é para dentro do governo, trazendo estabilidade à região e nisso sendo uma solução. Não estamos a abrir as portas ao PS. Nós na Madeira estamos precisamente a garantir que o PS não é governo..Qual é a lógica de estar 50 anos a criticar um partido, achar que são o pior e quando surge a oportunidade coligam-se? Desculpe, mas não há regime nenhum no mundo em que os partidos não possam esgrimir as suas diferenças numa fase que é eleitoral e depois, havendo a possibilidade de acordarem entendimentos sobre aspetos que são denominadores comuns, serem fórmulas de governo. Isso é assim em qualquer país do mundo..As últimas sondagens dão valores na ordem de 1% ou 1,5% se fosse sozinho. Portanto, desaparecia do Parlamento na Madeira, tal como aconteceu aqui. Da primeira vez que me candidatei ao Parlamento Europeu, uma semana antes das eleições, dizia-se que não seria eleito. Mas acabámos por ter 8.37% e elegemos dois deputados. Portanto, quem se deprimir com sondagens é melhor não se dedicar à política, porque senão está mal. Até pode acontecer que as sondagens se confirmem, mas pode também acontecer que não se confirmem. E no caso do CDS quase sempre não se confirmaram. Uma ou outra vez confirmaram-se, mas na maior parte dos casos não..E têm militantes com quotas pagas? Quantos são? Temos milhares de militantes, não lhe sei dizer o número exato, mas o facto que para mim é relevante é que temos milhares de militantes e temos principalmente estruturas que estão a ser eleitas de norte a sul do país. Além de que o CDS tem realmente pessoas de um talento incrível..E o que espera das Europeias? Precisa desse lugar de visibilidade como líder do partido. Isto leva-me ao que há pouco lhe dizia sobre o facto de o CDS não poder ser um partido em estado de necessidade ou um partido que precisa desesperadamente de outros para sobreviver. Quero o CDS a sobreviver porque vai trabalhar e fazer tudo por isso, independentemente do resultado que depois aconteça nas urnas. As pessoas no CDS, aliás, estão muito preparadas para isso e um partido político existe para ir a votos, mas não invalida que possa fazer coligações. Essas também acontecem, o CDS fez muitas e, neste momento, governamos mais de 40 autarquias coligadas com o PSD..Nas Europeias não há coligações, vai a votos sozinho. Eu não sei se há, se não há, porque antes das eleições europeias vamos ter um congresso. Não posso nem alterar ciclos eleitorais, nem substituir-me à vontade dos congressistas. Há uma coisa que sei: as eleições que vamos ter agora são as regionais da Madeira e nessas estamos coligados com o PSD. Acredito que o CDS pode, também com o PSD, ter aí a sua primeira vitória. Depois vamos ter Europeias ou até podemos ter eleições Legislativas, porque não sabemos se este ciclo não vai ser antecipado, não sabemos o que vai acontecer. Não lhe vou dizer aqui o que o CDS vai fazer nas Europeias sem que os congressistas que aprovarão a estratégia tenham tido a oportunidade de dizer o que fosse até lá..DestaquedestaqueNo caso do SIS e da recuperação do computador que Costa diz ter sido roubado, Nuno Melo questiona a independência da fiscalização das secretas: uma ex-ministra e um ex-secretário de Estado socialista fazem parte do CFSIRP..Ninguém acredita que o líder do CDS não seja cabeça de lista às europeias. Seria estranhíssimo que não fosse. O CDS, ao contrário de outros partidos, tem pessoas com muito talento, com muita capacidade e reconhecidas por toda a gente, que dariam excelentes cabeças de lista. Também poderia ser cabeça de lista, mas termos muito por onde escolher é uma coisa boa..Mas um líder sem exposição mediática não é nada. Um líder sem exposição mediática tem muito mais dificuldade, tenho noção disso e essa será certamente uma das variáveis a ter em conta quando se tomarem decisões. Não implica que não existam outras. Imagine, de repente, que temos um cabeça de lista daqueles que galvaniza metade de Portugal? O CDS tem gente extraordinária e a sociedade civil também..E oposição interna, sente isso? Se há oposição interna, se há neste momento, não se nota, mas não acredito em partidos que não tenham intrinsecamente oposições potenciais, porque um partido é uma realidade orgânica, feita de pessoas com pensamentos diferentes..Não existe ou você não sabe que existe? O que lhe digo é que o partido está mobilizado num bem maior, que é o de salvar para a democracia este património que é muito importante e que se chama CDS-PP. Portanto, acho que a generalidade da militância do CDS não está nem aí neste momento para, salvo casos excecionalíssimos, questões internas que não servem a ninguém..Senti algumas vezes nas suas palavras, em outras situações, alguma irritação com André Ventura e com as coisas que ele diz do CDS, de si e do seu partido. Não tenho de sentir irritação. O único apelo que faço aos eleitores que votaram CDS e que, porventura, tenham transferido o seu voto para o Chega nas últimas eleições, é que percebam que aquilo também não tem nada a ver com o CDS. Um partido conservador não é aquilo. Um partido conservador não é conversa de café, não é pateada em frente de chefes de Estado, não é cerco a sedes de outros partidos. Aliás, devo dizer, o CDS esteve cercado em 1974 e o CDS foi um partido que, no seu Congresso no Palácio Cristal, não gostou nada disso. Nós não gostamos de estar cercados, gostamos que a liberdade seja exercida..Não foi o único. Nós fomos cercados e apedrejados, desse ponto de vista, dentro dos partidos do chamado arco da governabilidade, fomos o único. E há gente que hoje está no governo, ou já esteve, e que ficou do lado de fora a apedrejar-nos..Vê democracia em todos os partidos, Bloco e PCP incluídos, mas não vê nada de democrático naquilo que é o Chega. Vejo democracia em todos os partidos que vão a votos e legitimam as suas lideranças. Não significa que veja em todos os partidos os mesmos modelos ideais da democracia. O CDS não é um partido de um homem só. Se morrer amanhã, garanto-lhe que o CDS continua, vai haver quem se candidate, mas também garanto que se o André Ventura desaparecer dificilmente o Chega terá os votos que atualmente vai mantendo..artur.cassiano@dn.pt