Na irredutível aldeia de Boalhosa, a morte do CDS soa algo exagerada

Num tradicional reduto centrista, a freguesia de Boalhosa deu ao CDS a maior expressão eleitoral, com 43%. E espera servir de inspiração à urgente reconstrução do partido

Se Ponte de Lima é um histórico bastião do CDS, que ali ganhou todas as eleições autárquicas desde 1976, Boalhosa, uma pequena freguesia rural no extremo leste do concelho, é uma espécie de aldeia gaulesa dos democratas-cristãos. Em 2013, o atual presidente da Junta, Daniel Pereira, ganhou aqui com mais de 91% dos votos e, no ano passado, apesar da oposição de uma lista de independentes saída do próprio universo centrista, assumiu o terceiro e último mandato ainda com quase 70% das preferências dos eleitores. Em Boalhosa, falar na "morte do CDS" soa a algo manifestamente estranho, mas o desastre eleitoral do partido nas legislativas de domingo, a nível nacional, foi recebido com um misto de surpresa e apreensão.

Pouco depois das 10h da manhã desta segunda-feira, o café Santo Estevão, mesmo em frente à Igreja Matriz, registava os únicos sinais de vida que se pressentiam por quem atravessava a principal rua da aldeia. Lá dentro, Ester Pinheiro servia o café a dois clientes ao balcão. As eleições não têm sido tema de conversa com os poucos vizinhos que por ali passaram, refere ao DN, mas não esconde que ficou "surpreendida" com os resultados. "Isso fiquei", reforça, assumindo-se eleitora do CDS desde sempre. "Nunca pensei que tivesse um resultado tão mau e ficasse sem nenhum deputado. E mesmo aqui na Boalhosa não foi o esperado", diz.

Ainda assim, mesmo se aquém das votações massivas de outras eleições anteriores, a "cruzinha no CDS" continuou a ser a mais vista em Boalhosa nestas legislativas. Os 31 votos, num universo de 72 votantes, deram ao partido até aqui liderado por Francisco Rodrigues dos Santos 43,06% nesta que, segundos os últimos Censos 2021, é uma das dez freguesias do país com menos de 200 habitantes. "É uma terra de muita emigração, com muita gente que foi trabalhar para França e só cá vem no verão", conta Ester, ela própria uma ex-emigrante que voltou "há 20 anos" para tomar conta deste café. A aldeia é, de resto, conhecida como uma aldeia de viúvas "francesas", cujos maridos morreram após uma vida a trabalhar em terras gaulesas, tendo muitas ficado a ganhar uma pensão do Estado francês.

Uma das viúvas da aldeia é Custódia Cerqueira Gomes. Aos 77 anos, continua a trabalhar nos campos, onde tem a ajuda do mais novo dos seus 13 filhos. "Quase todos foram para França", conta junto à moradia de um deles, onde se certifica que tudo corre bem com as obras em acabamento. A liderar os trabalhos está o presidente da Junta, empreiteiro de profissão e o homem que desde 2013 mantém a freguesia como a mais forte do bastião do CDS em Ponte de Lima.

"Fiquei de boca aberta quando vi a folha com a votação final e tinha apenas 31 votos", confessa ao DN Daniel Pereira sobre a votação de domingo na freguesia. Afinal de contas, apesar da vitória centrista em Boalhosa, o partido perdeu também expressividade face às lesgislativas de 2019, quando tinha obtido 55 votos (75,34% do total). Ainda assim, os 43,06% de domingo constituiram a maior percentagem de votação no CDS, que apenas conseguiu ser o partido mais votado em outra das 39 freguesias de Ponte de Lima: Gondufe. De resto, a nível concelhio, manteve-se a terceira força, mas desceu pela primeira vez dos dois dígitos em legislativas - 9,42% e menos 1500 votos.

Ora, se os resultados em Boalhosa e Ponte de Lima ficaram algo aquém do desejado, foram ainda assim um oásis comparados com o desastre nacional que deixou o CDS sem representação parlamentar pela primeira vez em democracia e com alguns ex-dirigentes a admitirem a "morte" do partido.

Daniel Pereira, que sempre concorreu pelas listas do CDS desde que entrou para a política, assume que o resultado foi "mau de mais". "Ficar com um ou dois deputados já era mau, então assim..." Mas falar do fim do partido, diz, talvez seja "exagerado". "A nível concelhio e distrital vai continuar a existir", está convicto, admitindo no entanto temer pelo futuro "nacional". E a responsabilidade, acrescenta, "não é só do líder", mas muito também "das divisões internas" que marcaram a vida do partido nos últimos anos.

"Fundamental devolver a credibilidade"

Na sede do concelho, Ponte de Lima,é dia da famosa feira local, bastante menos concorrida do que em tempos pré-pandémicos, queixam-se os comerciantes - como Luís Gonçalves, que ainda não vendeu qualquer das camisolas de Cristiano Ronaldo ou Messi expostas na sua banca, ou Celeste Fernandes, que corrobora que "o negócio está péssimo". As eleições são a "menor das preocupações", diz a comerciante de Barcelos, lembrando que "as pessoas estão cansadas da política e talvez por isso votem noutras opções novas". Em frente à banca, uma cliente, que não quis ser identificada, não esconde a estupefação com o resultado eleitoral. "Pelo vistos mais de metade do país está bem. Como dizia o outro [Scolari]: e o burro sou eu?", interroga, defendendo a tradição centrista local. "Aqui as pessoas estão felizes com o CDS".

Victor Mendes, que durante três mandatos presidiu à autarquia local e agora viu a filha ser cabeça de lista do CDS pelo distrito de Viana do Castelo, confessa-se "triste" pelo que está a acontecer ao partido e diz que "é o momento para refletir". Até na eventual morte do CDS? "Acho que tem de se discutir tudo", diz ao DN, sublinhando que "vai haver um congresso e é o momento de algumas personalidades do partido aparecerem a dar a cara", após a demissão anunciada por Rodrigues dos Santos. "É fundamental devolver a credibilidade".

Em Boalhosa, Daniel Pereira admite que gostava de voltar a ver os tempos de "Paulo Portas e dos 24 deputados" que o CDS conseguiu "ainda há dez anos", em 2011. "Quem for para lá tem de conseguir cativar essas grandes figuras e trazê-las de volta à esfera do partido", refere, aceitando o nome de Nuno Melo como "uma possível solução para o futuro imediato".

E, apesar de querer desligar-se da política após este último mandato na Junta, acredita que a aldeia continuará a ser uma irredutível base de apoio centrista nos próximos anos. Agora, Boalhosa tem "ainda mais responsabilidade" para "mostrar o que o partido pode valer". E Daniel Pereira espera "que o CDS tenha aqui uma fonte de inspiração para o seu futuro".

rui.frias@dn.pt

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