Mayan avança para pôr os liberais a crescer nas próximas eleições
Gerardo Santos / Global Imagens

Mayan avança para pôr os liberais a crescer nas próximas eleições

Ex-candidato à Presidência da República é principal rosto de "um movimento positivo" que vai apresentar moção de estratégia e uma equipa para refundar um partido tomado pelo "sectarismo".
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O teste à liderança da Iniciativa Liberal (IL) ainda vem distante, pois a próxima convenção, a 5, 6 e 7 de julho, servirá para tratar de questões estatutárias, mas Rui Rocha poderá contar com oposição em janeiro de 2025, quando terminar o mandato da Comissão Executiva a que preside. E logo de uma das figuras mais conhecidas dos liberais, pois o ex-candidato presidencial Tiago Mayan confirmou ontem que assumirá “todas as consequências” de ser o principal rosto de “uma alternativa capaz de restabelecer na estrutura e cultura do partido os princípios liberais que estiveram na sua génese”. Por outras palavras, procurará ser o quinto líder do partido criado em 2017.

O manifesto Unidos pelo Liberalismo, apresentado nesta segunda-feira, num hotel de Lisboa, tem 212 signatários, incluindo o primeiro líder da IL, Miguel Ferreira da Silva, ou o conselheiro nacional Rafael Corte Real, mas Tiago Mayan teve todo o protagonismo na apresentação do documento. O presidente da União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, eleito nas listas do movimento do presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, é o rosto de “um movimento positivo, competente, aberto, sem sectarismos e com espírito de mudança”.

Todas essas características são o que a oposição interna à liderança de Rui Rocha não reconhece na IL tal como existe hoje, mas no horizonte dos subscritores do manifesto Unidos pelo Liberalismo preferem olhar para o futuro. Depois das eleições regionais na Madeira, em que o objetivo mínimo é a reeleição do deputado Nuno Morna, embora o desgaste do PSD torne plausível um crescimento, e para o Parlamento Europeu, com a IL a apresentar como cabeça de lista o ex-presidente João Cotrim de Figueiredo, procurando uma estreia melhor do que a eleição de um só deputado, os autores do documento pretendem que a IL esteja preparada para qualquer cenário.

“Enfrentamos um novo ciclo político com novos desafios, tais como a instabilidade governativa, o risco da incapacidade de fazer valer as ideias liberais, e o horizonte das eleições autárquicas, que não podem ser uma oportunidade perdida para a implantação do partido”, defende-se. Com o Governo de Luís Montenegro nas mãos da oposição, desde logo do PS e do Chega, o movimento encabeçado por Tiago Mayan - que surge como segundo subscritor apenas por a lista ter sido ordenada pela antiguidade no partido, sendo Miguel Ferreira da Silva o número 10, quatro abaixo do autarca portuense - defende a necessidade de o partido estar preparado para ir a votos. Eventualmente em legislativas antecipadas, mas de certeza para procurar a representação autárquica que o partido ainda não consolidar: o ex-candidato presidencial é o único membro da IL à frente de uma junta de freguesia e Ricardo Valente o único vereador - ambos eleitos pelo movimento de Rui Moreira -, enquanto o fundador do partido Bruno Horta Soares não se conseguiu eleger vereador da Câmara de Lisboa e há apenas 26 deputados municipais liberais em todo o país.

Apelo aos regressos

Entre as críticas à atual liderança está o que os subscritores designam por afastamento dos princípios liberais, “seja na forma de agregar valor, seja na promoção de uma cultura de abertura aos membros e à sociedade civil, seja no foco da sua comunicação, seja no relacionamento com as demais estruturas internas nacionais e locais”.

A esse propósito, Tiago Mayan disse, na apresentação do documento, que “preocupa-nos o estado atual do partido, mas não desistimos dele”. Algo que tem acontecido nos últimos meses, com a saída de figuras destacadas do partido, como a ex-deputada e candidata à liderança Carla Castro, o também candidato à liderança José Cardoso, os ex-elementos da Comissão Executiva Catarina Maia, Paulo Carmona e Vicente Ferreira da Silva e vários conselheiros nacionais.

Também por isso, o manifesto visa “envolver e trazer novos e antigos quadros ao partido”. Questionado sobre a hipótese de promover regressos, Mayan respondeu “quero acreditar que sim”. O homem que admite vir a disputar a liderança a Rui Rocha disse desejar que “entrem novas pessoas, mas também algumas que estiveram connosco e que se afastaram”. Apesar de garantir que não falou com Carla Castro antes da apresentação.

“Boas vindas” de Rocha

Desafiado por jornalistas a comentar o manifesto Unidos pelo Liberalismo, quando reagia na Assembleia da República à carta que o secretário-geral do PS, Pedro Nuno Santos, enviou ao primeiro-ministro Luís Montenegro, Rui Rocha referiu estar mais empenhado na resolução dos problemas dos portugueses, mas acabou por fazer uma curta declaração sobre o texto apresentado ontem de manhã.

“Somos liberais e damos sempre as boas vindas à concorrência”, disse o presidente da Iniciativa Liberal, esclarecendo que não considera que a proximidade das eleições regionais antecipadas na Madeira, marcadas para 26 de maio, e das eleições para o Parlamento Europeu, que decorrem a 9 de junho, torne impeditiva a discussão de ideias avançadas pela oposição interna.

Segundo o líder do partido, que nas últimas semanas chegou a ser dado como provável ministro do Governo de Luís Montenegro, as divergências existentes entre os liberais “não afetam a capacidade de o partido se afirmar com as suas ideias”.

Críticos dizem que a IL tem “falhado consecutivamente”os seus objetivos eleitorais

O resultado da Iniciativa Liberal (IL) nas legislativas de 10 de março, mantendo oito deputados, como na anterior legislatura, e subindo apenas de 4,91% para 4,94%, enquanto o Chega mais do que quadruplicava o grupo parlamentar, de 12 para 50 deputados, e saltou de 7,18% para 18,07%, é um dos motivos que levam a oposição interna a criticar a liderança de Rui Rocha.

“O partido está, de facto, em dificuldades e os resultados mostram que as ideias liberais pouco contam no xadrez político”, disse Tiago Mayan, na apresentação do manifesto Unidos pelo Liberalismo, no qual se lê que “a estratégia desenvolvida pela atual direção do partido tem consecutivamente falhado em atingir os objetivos declarados, seja nas eleições regionais nos Açores e na Madeira, e nas eleições legislativas, seja no cumprimento de metas e ações da moção de estratégia global”.

No final da convenção em que foi eleito presidente da Iniciativa Liberal, em janeiro de 2023, Rui Rocha estabelecera uma meta eleitoral muito mais ambiciosa. “Vamos ter 15% e vamos acabar com o bipartidarismo em Portugal”, disse o sucessor de Cotrim de Figueiredo, quando tudo indicava, tendo em conta a maioria absoluta obtida pelo PS no ano anterior, que as próximas legislativas só se realizariam em 2026.

A antecipação das legislativas, na sequência da demissão de António Costa, ao ter o nome envolvido na Operação Influencer, limitou as expectativas de crescimento dos liberais, mas ainda assim os responsáveis do partido contavam resistir ao apelo do voto útil na Aliança Democrática e aumentar o grupo parlamentar para 12 deputados, com a eleição do quinto candidato por Lisboa, do terceiro pelo Porto e dos cabeças de lista de Leiria e Aveiro. Só o último, Mário Amorim Lopes, entrou para a Assembleia da República. Já na capital, sem Cotrim de Figueiredo e Carla Castro, a IL recuou e só elegeu três deputados.

Refundação

Tiago Mayan e os demais subscritores do manifesto prometem refundar o partido com base em valores e princípios liberais, o que passa também por “apresentar uma liderança forte e carismática, verdadeiramente liberal”. Numa “visão coerente, ambiciosa e agregadora”, o manifesto quer que a Iniciativa Liberal seja um partido “ambicioso, capaz de reformar Portugal”, “aberto aos membros e à sociedade em geral” e que se baseie “na competência e na prova científica”. “Numa época marcada pela divisão e pela desilusão, esforçamo-nos por construir uma força política que defenda os valores liberais e adote atitudes reformistas, provocando mudança positiva”, lê-se no manifesto.

Comunicação

Os críticos da liderança de Rui Rocha dizem que o partido deve “adotar uma estratégia de comunicação sustentada no ideário liberal”. Algo que os subscritores do manifesto “Unidos pelo Liberalismo” consideram não estar a suceder atualmente, com os liberais a irem “a reboque do desenrolar dos acontecimentos”. De igual forma, defendem que o partido encontre as suas bandeiras, apostando numa mensagem “capaz de explicar as suas valias e eficácia”, enquadrando as propostas “na realidade do país, da sociedade e dos cidadãos”. Algo que também passa por um incentivo ao debate público, “estimulando que diferentes vozes liberais contribuam para a disseminação” da Iniciativa Liberal e das suas propostas, “de uma forma construtiva e informada”.

Democracia interna

Um dos pontos que maior celeuma tem provocado entre os liberais é a manutenção de inerências com direito a voto no Conselho Nacional, as quais abrangem todos os membros da Comissão Executiva. Entre os críticos, há acusações de que o órgão partidário que tem a missão de escrutinar o desempenho da liderança acaba por ser totalmente controlado por quem estiver a mandar no partido. Por outro lado, é dito que as estruturas locais devem ver reforçada a sua autonomia, o que não terá acontecido na definição dos candidatos às últimas legislativas.

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