Marcelo avisa: de nada vale a liberdade se for "esvaziada pela pobreza"

A prioridade máxima para o Presidente da República no novo mandato que ontem se iniciou é fiscalizar o uso dos fundos da UE. Para Marcelo, é curto o objetivo de "regressar a 2019". É preciso "corrigir as desigualdades existentes" ou então está-se a "reconstruir menos para todos"

António Costa saiu da cerimónia de tomada de posse do Presidente da República (PR), ontem de manhã, no Parlamento, a manifestar satisfação com o discurso de Marcelo - por ter uma "agenda muito clara" de "cooperação institucional e solidariedade estratégica" com o Governo.

A verdade, porém, é que nessa intervenção, Marcelo demonstrou muito claramente que, quanto aos milhões da bazuca europeia, não se limitará a estar atento aos problemas da "clareza estratégica, boa gestão, transparência e eficácia" nos gastos. O Presidente, agora já com o segundo mandato iniciado, promete estar atento aos resultados dos investimentos "na resiliência social, na qualificação, na transição energética, no digital".

"Teremos de reconstruir a vida das pessoas, que é tudo ou quase tudo: emprego, rendimentos, empresas, mas também saúde mental, laços sociais, vivências e sonhos. É mais, muito mais, do que recuperar, ou seja, regressar a 2019 ou a fevereiro de 2020."

Marcelo explicou no seu discurso inaugural - pronunciado, como é de tradição, no Parlamento - as suas cinco prioridades. A questão dos fundos da UE foi incluída na sua terceira "missão prioritária", que "cobre não apenas 2021, mas também os anos que se seguem": "Teremos de reconstruir a vida das pessoas, que é tudo ou quase tudo: emprego, rendimentos, empresas, mas também saúde mental, laços sociais, vivências e sonhos". Ou seja, "é mais, muito mais do que recuperar, ou seja, regressar a 2019 ou a fevereiro de 2020".

"Reconstruir a vida das pessoas sem a economia a crescer é impossível, mas reconstruí-la só com a economia, sem corrigir as desigualdades existentes, é reconstruir menos para todos, porque sobretudo para alguns privilegiados."

Porque "a pandemia fez ressaltar a existência de vários Portugais", o que "urge" é "reconstruir um só Portugal". "Queremos mais crescimento e para isso investimento, exportações e mercado interno. Mas queremos, no entanto, mais do que isso, políticas que corrigem o que a liberdade, a concorrência e o mercado, de per si", não permitem corrigir, e que se agravou drasticamente com a pandemia."

"Estabilidade sem pântano"

Reforçando esta mensagem, argumentou que "reconstruir a vida das pessoas sem a economia a crescer é impossível, mas reconstruí-la só com a economia, sem corrigir as desigualdades existentes, é reconstruir menos para todos, porque sobretudo para alguns privilegiados".

"Queremos uma democracia que seja ética republicana na limitação dos mandatos, convergência no regime e alternativa clara na governação, estabilidade sem pântano."

Como "primeira prioridade", elegeu a defesa de uma "melhor democracia, onde a liberdade não seja esvaziada pela pobreza, pela ignorância, pela dependência ou pela corrupção, onde a inclusão, a tolerância, o respeito por todos os portugueses, para além do género, do credo, da cor da pele, das convicções pessoais, políticas e sociais não sejam sacrificados ao mito do português puro, da casta iluminada, dos antigos e novos privilegiados". "Queremos uma democracia que seja ética republicana na limitação dos mandatos, convergência no regime e alternativa clara na governação, estabilidade sem pântano, justiça com segurança, renovação que evite rutura, antecipação que impeça decadência, proximidade que impossibilite deslumbramento, arrogância, abuso do poder. Assegurá-lo é a primeira prioridade do Presidente da República para estes cinco anos."

"Só haverá verdadeira reconstrução se a pobreza se reduzir, os focos de carência alimentar extrema desaparecerem, as desigualdades se esbaterem, a exclusão diminuir, a clivagem entre gerações e entre territórios for superada."

Sublinhando que "vivemos em democracia, queremos continuar a viver em democracia, e em democracia combater as mais graves pandemias", o PR disse preferir "a liberdade à opressão, o diálogo ao monólogo, o pluralismo à censura", o que no seu entender foi demonstrado "realizando duas eleições em pandemia, de uma das quais [nos Açores] resultou a subida da oposição ao Governo".

Como "segunda prioridade e a mais imediata", apontou o combate à propagação da covid-19, "em espírito da mais ampla unidade possível". O chefe de Estado considerou que é preciso "desconfinar com sensatez e sucesso" e "evitar nova exaustação das estruturas de saúde e dos seus heróis".

"O Presidente da República é Presidente também de todos os que vivem em Portugal, mesmo não sendo portugueses ou não sendo portugueses de origem."

A "coesão social" foi a sua "quarta missão prioritária" porque "só haverá verdadeira reconstrução se a pobreza se reduzir, os focos de carência alimentar extrema desaparecerem, as desigualdades se esbaterem, a exclusão diminuir, a clivagem entre gerações e entre territórios for superada". E a quinta aprofundar o protagonismo de Portugal no plano internacional .

Marcelo prometeu, mais uma vez, que será "o mesmo de há cinco anos" - mas explicitamente anteviu um segundo mandato "mais difícil" porque é "sempre" assim. Assegurou, além de "afeto e proximidade", "independência", "com qualquer maioria parlamentar [e] com qualquer Governo".

Finda a posse, o PR partiria para o Porto, onde teria sempre a seu lado o presidente da câmara, Rui Moreira. No Centro Islâmico da cidade diria que o Presidente da República é "Presidente também de todos os que vivem em Portugal, mesmo não sendo portugueses ou não sendo portugueses de origem".

Depois - como há cinco anos - rumou ao Bairro do Cerco, recebido como sempre com afetividade, mas agora forçado a recusar abraços (apesar de já ter recebido as duas doses da vacina). "Não se pode. Eu gostava, mas não se pode. Compreenda", foi dizendo.

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