Lisboa. O povo votou e a noite alongou-se. No final, um só vencedor, mas uma cidade dividida

Dois quilómetros apenas separavam as sedes de campanha dos candidatos apoiados pelos dois maiores partidos do país: Fernando Medina (PS, Livre) e Carlos Moedas (PSD, CDS-PP, Aliança, MPT, PPM). Mas a distância no ambiente era avassaladora. E foi preciso esperar pela madrugada para confirmar a mudança em Lisboa. Carlos Moedas saía vencedor. A noite foi marcada pelo inesperado.

Voto a voto, até ao último boletim... e no final, a surpresa. Carlos Moedas, que surgiu para desafiar o autarca socialista que governava Lisboa, confirmava a mais inesperada vitória desta noite eleitoral - apesar do ambiente de festa que se sentia desde cedo na sede desta candidatura, que reunia o apoio de cinco partidos, PSD, CDS-PP, Aliança, MPT e PPM. Depois de uma campanha em que uma vitória de Moedas nunca foi verdadeiramente considerada, foi ele o vencedor da noite. E os seus apoiantes pareciam já o adivinhar à hora das primeiras projeções, ganhando cada vez mais entusiasmo - por oposição ao que acontecia na sede de Medina.

À porta do Pátio da Galé, os carros de diretos das televisões chamavam a atenção de turistas como Anna Bantula e Anna Pujol, mãe e filha, catalãs, a primeira a viver em Barcelona, a segunda em Amesterdão, que não queriam acreditar no que estavam a viver acabadas de aterrar na capital. "Mas o que é?" Explicamos que o homem que passa ali com a mulher, grávida do terceiro filho, uma rapariga, é Fernando Medina, presidente e recandidato à Câmara de Lisboa pela lista Mais Lisboa, que reúne o apoio do PS e do Livre. Riem-se: "Bien. Que seja bom. Lisboa é linda."

À porta do Hotel Sana, na Fontes Pereira de Melo, nada no exterior fazia adivinhar que ali ficava a sede de Carlos Moedas. Mas mesmo sem carros de diretos à porta, lá dentro a festa marcava a noite. E mais animada ficou logo que os apoiantes tiveram a perceção de que nada estava garantido para o adversário socialista. A noite ia ser renhida, "taco a taco, com contagens e recontagens de votos, e a vitória seria de detalhe", como nos disse Ricardo Mexia, o médico de Saúde Pública que foi diretor de campanha de Moedas e candidato à junta de freguesia do Lumiar - que ganhou ao adversário do PS.

No Terreiro do Paço, às 21.00, já os apoiantes de Medina se faziam silenciosos, de olhos postos nos ecrãs, a ver à distância a festa ganhar ímpeto na sede do adversário do PSD. Na sala meio vazia, o silêncio fazia companhia ao susto. Quem ali estava não queria acreditar nas primeiras projeções: empate técnico em Lisboa. Só quando as câmaras se viraram para o Pátio da Galé, os jovens da Juventude Socialista, que ao longo da campanha acompanharam Medina, reagiram, com gritos de vitória.

Na altura, Bernardo Catarino, de 17 anos, disse ao DN estar "sereno e confiante", como tinha sido pedido minutos antes pelo diretor de campanha de Medina, Duarte Cordeiro. Recém-filiado no PS, dizia-nos: "Confio na vitória". Mas o silêncio voltou rápido ao Pátio da Galé. E alguns apoiantes não quiseram sequer comentar o que se estava a passar. Os olhos dividiam-se entre televisões e telemóveis. Tudo em busca de informação sobre o que se passava freguesia a freguesia. Mas as notícias tardavam e preocupavam: "Está taco a taco", admitia fonte da comitiva de Medina. "Temos Benfica, estamos a perder votos em algumas freguesias, mas a ganhar noutras importantes."

Noite longa em Lisboa. Há uma semana e pelas sondagens publicadas, ninguém diria que seria assim. Medina conseguiria vencer, Moedas ficaria seis a sete pontos percentuais atrás. De madrugada, tudo virou ao contrário. E Moedas vai liderar Lisboa.

No hotel junto ao Marquês, os telemóveis não paravam de tocar e ouvia-se gritos de vitória. A meio da noite, a lista Novos Tempos tinha já dez freguesias, muitas tiradas ao PS, incluindo Arroios, Alvalade e Lumiar. O que fazia Mexia afirmar que, independentemente do resultado final, "o engenheiro Carlos Moedas já é um vencedor. "Estes resultados expressam o que fomos vendo na rua, que as pessoas queriam mudança e o que se passou nesta noite deixa uma mensagem clara", disse. "Ele reuniu cinco partidos e construiu um projeto para Lisboa. Agora é executá-lo." Do taco a taco saiu um vencedor: Moedas.

Depois das 02:00, era o próprio adversário, Fernando Medina, que o vinha admitir ao país, assumindo que a derrota da lista Mais Lisboa era dele, uma dele derrota "pessoal e intransmissível", já que ele recebeu todo o apoio do partido.

Medina congratulou Carlos Moedas, que recebeu mais votos, embora em termos de vereação ambos as listas terão o mesmo número de vereadores, sete, a CDU terá dois e o Bloco de Esquerda um. Desta forma, dizia Medina continuará a haver uma maioria de esquerda em Lisboa.

Carlos Moedas aceitou a vitória passavam poucos minutos das 02:30. Na sala ouviam-se gritos de vitória, as juventudes partidárias dos partidos da coligação manifestavam-se euforicamente ao receber Moedas, que assim que teve o microfone disse: "Caros Amigos e amigas: Que grande noite. Ganhámos contra tudo e contra todos", passando depois a cumprimentar todos os candidatos, sublinhando: "Hoje fez-se história em Lisboa". E Moedas disse que se comprometia com Lisboa, "não vamos falhar e vamos mudar Lisboa".

No final, os agradecimentos especiais a todos os partidos da coligação, dirigindo-se a Rui Rio, a Francisco Rodrigues dos Santos, do CDS-PP, bem como aos outros partidos Aliança, MPT e PPM. Por fim, à equipa que o acompanhou no dia-a-dia desde o início "desta aventura" e aos independentes, porque "esta coligação foi muito mais do que os partidos".

Moedas disse mesmo que esta campanha "era a prova de que podemos mudar o sistema, porque a democracia não tem dono e os lisboetas disseram e alto e em bom som que queriam mudança". Hoje, "iniciamos um novo ciclo, de Novos Tempos, e acredito que este ciclo começa em Lisboa, mas não acaba aqui". Por fim, a mensagem aos lisboetas. "Serei o presidente de todos os lisboetas". De forma inesperada, a noite no hotel do Marquês começou e terminou em festa.

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