"Há gente em Loures que vive sem água e sem saneamento. É inadmissível"

O novo presidente da Câmara, do PS, tem como prioridades a habitação para a classe média e jovens, a educação e acessibilidades no concelho. Diz que se for preciso faz créditos bancários para avançar obra, mas promete tirar máximo partido dos fundos comunitários.

Ganhou as eleições em Loures ou foi a CDU e Bernardino Soares que as perderam?
Em qualquer resultado eleitoral há sempre quem ganha e quem perde. Neste caso teve de existir conjugação das duas coisas. O PS ganhou porque fez um trabalho responsável, de oito anos de uma oposição em que nunca inviabilizou orçamentos, sempre criou as condições para a governação sem aceitar pelouros, mas na rua dizíamos o que achávamos. Ganhámos porque eu nunca abandonei Loures, mantive-me como vereador da oposição no primeiro mandato, num segundo já como presidente da Assembleia Municipal, com as nossas juntas de freguesia. Foi esse trabalho que fizemos na rua, ouvindo as pessoas, que nos permitiu ganhar. A CDU perdeu porque não cumpriu com as suas promessas.

Oito anos de governação do PCP, o que correu mal?
As pessoas estavam muito cansadas daquela política do queixume e do passa culpas. As pessoas não querem saber se a responsabilidade é do A, do B ou do C, as pessoas querem os assuntos resolvidos. E esta visão muito política e ideológica que a CDU colocava aqui no concelho de Loures, em que praticamente eram decisões emanadas do Comité Central do PCP, fazia com que muitos dos problemas estruturais do nosso concelho ficassem reféns dessas ideologias e dessas medidas político-partidárias. Dou o exemplo da saúde, enquanto outros municípios aqui ao lado, e bem, não andaram a ver de quem é a responsabilidade para a construção de novos centros de saúde - e ninguém está a dizer que não é do governo - e quiseram ser parte da solução, até tiraram na totalidade do orçamento municipal as verbas para os construir, aqui ficámo-nos pelo queixume. E nestes oito anos, centros de saúde novos foram zero. Este exemplo replica-se na área do desporto, da mobilidade. Este concelho estagnou e não houve investimento para resolver os problemas das pessoas.

Ganhou sem maioria e fez agora um acordo com o PSD. Que cedências teve de fazer?
Acordos nos municípios, num quadro político mais amplo, é o que mais se conhece no panorama local. Temos aqui uma junta de freguesia de Loures que a CDU ganhou sem maioria e fez coligação com o PSD. Há oito anos, Bernardino Soares venceu a câmara e com quem se coligou foi com o PSD. O que me interessa é que quero ter quatro anos para colocar o interesse das pessoas em primeiro lugar e fazer tudo o que for necessário para garantir uma estabilidade governativa. Tudo o que fiz com o PSD foi no sentido de garantir essa estabilidade.

Que pelouros atribuiu aos vereadores do PSD?
Ficaram com a área do Ambiente, Atividades Económicas, Turismo e Museologia e Bibliotecas.

A que problema quer responder de imediato?
Há quatro grandes problemas para resolver, alguns mais rápidos e outros que vão demorar um tempo. A Habitação, sem dúvida nenhuma. Já pedi uma reunião com o ministro Pedro Nuno Santos no sentido de reverter alguma da estratégia que as câmaras assinaram aí há uns meses, porque temos de dar uma resposta muito concreta também à classe média e aos jovens e vamos ter de criar, rapidamente, bolsas de habitação pública para colocá-las em arrendamento acessível para estas duas faixas da população. Com a especulação imobiliária, uma pessoa da classe média paga uma renda de 700/800 euros em Loures, o que é completamente insuportável. Temos de criar políticas sociais de habitação e não políticas de habitação social. Depois temos a situação gritante da saúde. Já temos reunião agendada com a ministra Marta Temido, para lhe dar nota da urgência da construção de quatro novos centros de saúde, que vamos fazer, mesmo que saia do orçamento municipal, até numa lógica do aproveitamento do PRR e dos fundos comunitários - e do contributo do Orçamento do Estado terá, se este for aprovado. Os centros são o do Catujal, Bobadela, dos Tojais e o de Camarate. Uma das coisas que está no acordo com o PSD é, se existir necessidade e não hesitaremos, a contração de um empréstimo bancário para a realização de obras. Ou seja, eu não vou ficar à espera se o PRR tem ou não, se o OE tem ou não tem, eu vou fazer. E depois aguardo que os fundos e o governo financiem. As pessoas estarem à espera mais anos para que o governo se chegue à frente, isso não vai acontecer.

"Temos um hospital, o Beatriz Ângelo, que pode servir de âncora para um conjunto de empresas na área da ciência e da investigação e da saúde."

Antes de dizer quais são as outras duas prioridades, qual é a situação financeira do município?
Compreendo que durante o ano pandémico houve aqui um apoio extraordinário que teve de se dar às IPSS e a todo um conjunto de parceiros neste combate, mas de maneira nenhuma é aquele quadro que é pintado. Bernardino Soares lançou uma imagem do anterior presidente da câmara e anunciou uma pseudo auditoria que ia revelar coisas muito graves. Passaram-se oito anos em que a oposição toda perguntou onde estava essa auditoria e ela nunca existiu. Foi só fazer política baixa. A minha política não é essa. Já iniciei o procedimento para uma auditoria, mas numa lógica normal para conhecer a realidade dos processos que aqui foram desenvolvidos para termos uma fotografia exata da situação financeira do município.

Quais são então as outras duas prioridades?
São as acessibilidades. É claro que vamos ter um forte investimento da expansão da rede de metropolitano especialmente nesta zona norte do concelho, mas depois temos também a expansão através de elétricos em modo rápido na outra zona oriental. O que vai permitir que as pessoas deixem de usar muito a sua viatura própria. Nas acessibilidades ainda, quer a variante a Loures quer a tão falada saída da A1 na Bobadela quero aqui dizer perentoriamente - já tive uma reunião prévia com a Infraestruturas de Portugal (IP)- que há todas as condições para mandar fazer. Esta é das situações em que se a IP não se chegar à frente, irei contrair um empréstimo bancário para as executar. E depois temos uma questão importante que é a educação. Temos um parque escolar em que a rede básica 2/3 e secundárias, que não são responsabilidade da câmara, estão em muito mau estado porque infelizmente nos atrasámos. Esta política, que espero que o governo continue, de descentralização de competências para as câmaras, que o anterior executivo camarário nunca aceitou, fez com que todo o parque escolar que não é competência da câmara esteja num estado que não dá dignidade nem aos professores nem a quem ali aprende. E, por isso, vamos ter de fazer de uma forma muito intensiva um programa de requalificação do parque escolar, particularmente das escolas que foram abandonadas durante estes oito anos.

"Se não aproveitarmos o PRR ao máximo (...) corremos o risco de em 2025 ter uma taxa de execução fraca e ninguém vai perdoar ao poder político."

Que problemas sociais e económicos existem num concelho tão grande e tão heterogéneo?
Temos um concelho muito grande, dos maiores geograficamente do país, e com as 211 mil pessoas que aqui vivem, das quais 30% em áreas urbanas de génese ilegal. É um drama que essas pessoas têm do investimento de uma vida e a câmara ao longo destes anos todos não conseguiu tomar uma medida para resolver de vez este drama e legalizar as suas casas. Depois, segundo os dados dos Census, o rendimento per capita da população do concelho de Loures, em média, está a baixar muito. Isto só se consegue inverter com uma nova lógica de captação de empresas para o concelho. Somos muito 'massacrados' com tudo o que é empresa da logística e temos de ter outra visão para o concelho. Ainda ontem estive em Oeiras em reunião com o presidente da câmara, Isaltino Morais, e ele próprio diz que Loures é um concelho com capacidade de atração de outro tipo de empresa, mais ligadas à ciência, tecnologia, investigação, empresas que deixem valor acrescentado, coisa que não acontece com a logística, que ocupa demasiado espaço para o valor que cá deixa. Temos de criar esses clusters. Não gosto de falar de coisas que já existem, mas o Tagus Park é um exemplo excelente. Temos de criar um modelo, onde há espaço e onde temos um hospital, o Beatriz Ângelo, que pode servir de âncora para um conjunto de empresas na área da ciência e da investigação e da saúde, e até um politécnico ligado à saúde que capte emprego qualificado, que é o que precisamos. Existe ainda muita disparidade social no concelho. Temos bairros de habitação social que carecem de uma intervenção e de uma nova visão, temos a antiga Quinta do Mocho - hoje urbanização Terraços da Ponte -, a Quinta da Fonte, a Quinta das Mós e depois temos ainda pessoas que vivem em condições muito indignas. Andei oito anos a dizer ao anterior presidente de câmara que há gente no nosso concelho - num concelho da Área Metropolitana de Lisboa que se quer com uma nova centralidade - que vive sem água e sem saneamento básico. Isto é inadmissível.

Deixou de se falar de problemas com a comunidade cigana ou nunca existiram, ao contrário do que em tempos disse André Ventura?
Somos um concelho onde temos uma multiculturalidade enorme, a comunidade indiana, africana, cigana. O que temos de ter é a capacidade de criar com elas uma política de inclusão com todos. Fiz uma campanha muito clara sobre essa matéria e sei que tive muito apoio dessas comunidades. Tive apoio porque fui frontal e disse ao que vinha. Se formos visitar um bairro municipal e dissermos que todas as crianças têm as mesmas oportunidades, não é verdade. Neste momento já não se sabe quem é quem neste processo, a câmara que é a senhoria proprietária dos bairros municipais não tem contribuído e cumprido a sua parte e depois os moradores também não cumprem a deles. E este andar de irresponsabilidades leva a um ponto que pode ser ainda mais complicado. O que me comprometi é que vamos cumprir a nossa parte, mas vamos exigir que eles cumpram a deles. A comunidade cigana está perfeitamente integrada, mas há casos pontuais e temos de os resolver. Uma junta do PS em São João da Talha tem um projeto na Escola Secundária de São João da Talha e que tem uma comunidade cigana mesmo em frente, um bairro muito problemático, em que ao colocarmos mediadores ciganos nessa escola as coisas mudaram. Dentro da escola nunca mais houve nada. Fora da escola a questão que se coloca é a segurança. A PSP não tem meios, não tem viaturas e pessoal para andar na rua, mas a Câmara de Loures, como qualquer outra, tem um instrumento que é a Polícia Municipal e a visão que o anterior executivo tinha era a de a pôr a fazer fiscalização de obras. Para mim não, a Polícia Municipal pode ter um novo quadro, com competências que a Assembleia da República há uns anos lhe atribuiu, em que pode, em colaboração com a PSP, fazer policiamento de proximidade. A minha ideia é colocá-la na rua.

Como se vai empenhar na execução de projetos ao abrigo do PRR?
Temos de aproveitar ao máximo o PRR e estou preocupado porque as informações que tenho é que o anterior executivo poucos passos deu no sentido de olear a câmara para esse esforço que temos de fazer. Tudo o que conseguir trazer de PRR liberta o meu orçamento municipal para outras prioridades e por isso vou focar-me na captação e aproveitamento ao máximo desses fundos. Durante a campanha ouviu-se muito que as câmaras do PS iam ser beneficiadas. Eu não estou à espera que me dêem mais ou menos, mas das respostas que o PRR vai dar às áreas que são importantes: habitação, saúde, educação e ambiente. Se não aproveitarmos o PRR ao máximo, se as câmaras não criarem estruturas ágeis e eficazes no sentido dessa captação, corremos o risco de em 2025 ter uma taxa de execução fraca e ninguém vai perdoar ao poder político. Vou criar uma unidade especifica para o PRR e próximo Quadro Comunitário de Apoio , mas não é só para a captação de tudo para a câmara. Vou colocá-la ao lado das nossas empresas e IPSS, porque, particularmente as pequenas e médias empresas, que não têm dinheiro para contratar consultores externos, precisam dessa ajuda para captar ao máximo esse apoio.

A Jornada Mundial da Juventude vai ajudar a redesenhar o concelho, sobretudo na sua ligação ao Tejo?
Na zona ribeirinha, durante anos e anos, os contentores eram uma separação autêntica da população com o rio. A realização destas jornadas vai ser uma oportunidade única para dar a conhecer o concelho e criar a oportunidade única da libertação de um espaço, que agora temos de pensar muito bem o que ali queremos fazer. Um espaço que seja de lazer e de fruição das pessoas.

paulasa@dn.pt

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