Governo ainda não é responsabilizado pela crise

Politólogos dizem que os dados da Aximage mostram que os portugueses ainda não sentem uma alternativa de poder.

O governo "ainda não está a ser responsabilizado pela crise económica, talvez o seja após a pandemia". É assim que o politólogo António Costa Pinto interpreta os dados do barómetro da Aximage para o DN, o JN e a TSF que mostrou que António Costa ainda continua a bater aos pontos o líder do maior partido da oposição, Rui Rio, na preferência do eleitorado.

E isto num momento em que a pandemia não dá sinais de abrandar e depois de alguns ministros terem sido alvos de forte crítica pública, em particular o da Administração Interna, Eduardo Cabrita, por causa do caso do ucraniano morto por agentes do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras no aeroporto de Lisboa.

"Faz parte da tradição arder um ou outro ministro sem que isso afete o primeiro-ministro, basta recordarmo-nos de Leonor Beleza e Miguel Cadilhe nos governos de Cavaco Silva", frisa ao DN José Adelino Maltez. E por esse motivo até resiste a remodelar o governo, afirma.

"Não há suficiente ética pública que se traduza em voto de protesto", afirma o politólogo. Não são eventuais casos de "clientelismo" ou até de "corrupção" que podem levar a mudar o sentido de voto, diz ainda. "Agora, se houver uma falha no plano de vacinação da covid, até porque foi escolhido um método complexo, as coisas podem complicar-se para o governo. Há um momento em que se pode dar um clique e que faz que os primeiros-ministros sintam o tabu ou o pântano", reforça José Adelino Maltez.

Por enquanto não se vê Rui Rio a descolar como alternativa de poder, ficando a bastantes pontos de António Costa nas preferências de voto, tal como o PSD do PS. "Esta distância entre o PS e o principal partido da oposição é porque não se sente alternativa credível neste momento para governar", frisa António Costa Pinto. O politólogo relembra que em 2019, o governo socialista vinha de um contexto de crescimento económico e de estabilização da situação financeira do país. "E na própria gestão da pandemia, apesar de alguns erros, tem uma boa avaliação dos portugueses."

Chega cresce, CDS desce

O barómetro da Aximage também apontou para alterações no espectro político à direita. Com um reforço das intenções de voto no Chega e uma diminuição muito acentuada no CDS, liderado por Francisco Rodrigues dos Santos.

Que o crescimento do Chega já "era expectável" os politólogos estão de acordo, tanto mais que, com a candidatura às eleições presidenciais, André Ventura ganhou um novo palco para fazer campanha e tentar verter esses ganhos a favor do partido que lidera.

Mas sobre a quem o Chega irá roubar votos os politólogos já não estão de acordo. António Costa Pinto entende que é ao PSD que o partido populista fará mais mossa, tal como ao Iniciativa Liberal, já José Adelino Maltez vê o CDS a ser o mais penalizado.

E segundo o barómetro são os centristas que perdem mais terreno nas intenções de voto, com um resultado que não chega a um digito. "O CDS tem um problema de alinhamento à direita que é o seu posicionamento dentro do "centrão", já que faz parte do Partido Popular Europeu, e integrou os governos com o PSD e não é um partido antissistema", afirma Adelino Maltez.

Depois, diz que o CDS, que apoia na eleição presidencial Marcelo Rebelo de Sousa, não tem uma candidatura autónoma para ter palco nestas eleições de 24 de janeiro. A que se soma uma liderança, diz, que não tem conseguido fazer passar a sua mensagem política. "Este seria um tempo de antena raro para usar", frisa.

A verdade é que a base eleitoral com que Francisco Rodrigues dos Santos tomou conta do partido - a que saiu das eleições legislativas de 2019 e colocou o CDS apenas com 4,22% dos votos - já não era famosa, recorda o politólogo. "O que parece verificar-se agora é que a mudança de liderança não produziu uma nova ligação aos eleitores do CDS." Ainda assim, nas recentes eleições regionais dos Açores, os centristas conseguiram manter-se à tona e até integrar uma coligação de governo com o PSD.

E foi isto que faltou no continente, segundo António Costa Pinto, para que o eleitorado pudesse sentir que existia uma alternativa ao bloco governativo socialista, apoiado pelos partidos mais à esquerda, e que penaliza ainda mais o CDS.

"Os principais partidos da direita não quiseram fazer uma coligação pré-eleitoral em 2019 nem têm intenções de fazer na atual conjuntura, e o CDS é que tem mais a perder por isso."

Presidenciais previsíveis

O barómetro da Aximage para o DN, o JN e a TSF também mostrou as tendências de voto nas eleições presidenciais, com Marcelo Rebelo de Sousa a larga distância dos restantes candidatos. Seguido de Ana Gomes, e com André Ventura em terceiro, mas muito próximo de João Ferreira.

A recolha de dados foi feita antes dos debates televisivos para as presidenciais, que só começaram no sábado e se vão prolongar pelo menos até dia 12 e que podem mudar algumas dinâmicas na perceção que os eleitores têm dos candidatos a Belém. Mas, afirma, José Adelino Maltez, "este é um campeonato de Marcelo contra si mesmo, que já não está habituado ao debate". O politólogo lembra que André Ventura entrou nesta corrida presidencial "para partir a loiça" e poderá introduzir muito ruído nestas eleições e até estreitar a base eleitoral de Marcelo.

Curiosamente, apesar de o atual Presidente da República surgir de forma muito destacada nas intenções de voto para Belém, quando se trata da sua popularidade individual, Marcelo teve uma descida ainda considerável. Parece que apesar de ter chamado a si muito do combate à covid-19, com a defesa dos estados de emergência e o apoio às medidas de restrição do governo, não ajudaram a compensar o que lhe falta em contactos públicos, dizem os analistas. E destacam que o governo parece tirar mais proveito do que foi feito nestes nove meses de pandemia.

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