Esquerda. Liderança do BE debaixo de fogo. Livre quer união de esforços

Histórico apoiante do Bloco de Esquerda desfere ataque contundente à líder do partido - que afirma continuar a sentir-se "confortável" no comando do partido

"Obviamente, demita-se". Parafraseando o apelo que um dia o general Humberto Delgado dirigiu ao ditador Salazar, o sociólogo Boaventura Sousa Santos, apoiante de sempre do Bloco de Esquerda (BE), intitulou assim, ontem, no Público, um artigo fortemente crítico para a líder e para a direção do partido.

Embora não sendo uma crítica proveniente de um militante do partido , este tratou-se, na verdade, do mais duro ataque de que Catarina Martins e a sua direção foram alvo por causa do resultado obtido pelo BE nas eleições de domingo passado.

O partido passou de 3ª maior força partidária para 5ª maior, sendo ultrapassado pelo Chega e pela Iniciativa Liberal. Perdeu 14 deputados (tinha 19 e passou a ter cinco, ficando em número de eleitos atrás do PCP); perdeu mais de metade dos votos obtidos em 2019, passando de 492,5 mil para 240, 2 mil (menos cerca de 252 mil votos). Foi o pior resultado em 20 anos do partido fundado em 1999 por Francisco Louçã, Miguel Portas, Luís Fazenda e Fernando Rosas.

Boaventura defendeu que, face aos resultados, Catarina Martins deve demitir-se a liderança, criticando duramente a decisão da direção do partido de votar contra o Orçamento do Estado para este ano (OE2022). "O BE não entendeu os sinais do seu eleitorado porque o seu pensamento vanguardista não lhe permitiu descer até onde os cidadãos discutem [...] os seus medos e as suas esperanças", escreveu.

As críticas do sociólogo - que é uma espécie de mentor académico da eurodeputada bloquista Marisa Matias - somam-se a outras provenientes do interior do partido e da autoria de dirigentes que há muito estão na oposição interna a Catarina Martins.

Ontem, à saída da audiência que manteve em Belém com o Presidente da República, Catarina Martins afirmou-se "confortável" na liderança do partido. Contudo, remeteu mais discussões sobre o assunto para a reunião da Mesa Nacional do BE já convocada para o próximo sábado. Este é um órgão onde, na última convenção do BE, em maio de 2021, a lista da direção, embora mantendo-se claramente maioritária, perdeu peso face ao crescimento da oposição interna. Uma maioria de 87,5 por cento (70 eleitos em 80) encolheu para 67,5 por cento (54 eleitos em 80). Nada aponta que o desaire eleitoral do BE venha a dar origem a uma crise de liderança.

Jerónimo aguenta-se

Quem também foi interpelado sobre questões de liderança foi o secretário-geral do PCP, ontem, igualmente em Belém. Jerónimo de Sousa foi sintético na resposta: "A questão não está colocada." O Comité Central do partido reuniu ontem para discutir os resultados das eleições - onde a CDU passou de 12 para seis deputados, o pior resultado legislativo da história dos comunistas. As conclusões da reunião serão esta manhã apresentadas por Jerónimo em conferência de imprensa. Falando com os jornalistas em Belém, o secretário-geral do PCP reconheceu que a maioria absoluta do PS coloca agora o seu partido numa situação "mais difícil e exigente".

O Presidente da República recebeu ontem também uma delegação do Livre, liderada pelo deputado único eleito pelo partido.

Tavares "articula" esquerda

À saída, Rui Tavares anunciou que vai pedir reuniões ao PCP, BE e PAN. "Se encontrarmos as linhas de força conjuntas destes partidos, também é muito mais difícil que o Governo não tenha de encontrar caminho para fazer e construir diálogo com estes partidos", justificou. "Achamos que é preciso desenvolver mais esse tipo de trabalho porque talvez uma das fraquezas à esquerda do PS naquilo que aconteceu, no colapso das negociações orçamentais, foi uma falta de articulação e contactos entre os partidos que estão à esquerda do PS."

Costa com covid

Hoje o Presidente da República receberá delegações dos quatro maiores partidos. Por esta ordem: IL, Chega, PSD e PS. António Costa, preso em casa com covid, não chefiará a delegação do PS, que será constituída por José Luís Carneiro, Ana Catarina Mendes e Duarte Cordeiro.

joao.p.henriques@dn.pt

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