Crise Política: O ano de todas as profecias

Marcelo foi muito claro: se o OE 2022 chumbasse, convocaria eleições. Assim foi. O Presidente da República até podia desejar o efeito contrário, mas desta vez o PCP (a bem da sua própria existência) não deu a mão ao governo e deixou cair Costa. O Chefe de Estado terá agora como desejo que, a bem da estabilidade governativa, resulte das legislativas um Bloco Central, mas informal. Mas é precisamente essa possibilidade que dará trunfos para a campanha dos pequenos partidos contra a bipolarização. E, no final, se o parlamento se fragmentar ainda mais, que estabilidade restará?

Quando o Presidente disse que dissolveria o Parlamento e convocaria eleições antecipadas, se o Orçamento do Estado fosse chumbado, as apostas neste cenário tinham odds muito altas. Quem apostasse que a profecia de Marcelo se iria realizar ganharia muito dinheiro com a aposta. O próprio incluído, porque Marcelo não se cansou de dizer que pretendia o efeito inverso, quando falou ao país desse perigo que nos levaria a entrar num ciclo político com muitos miniciclos lá dentro, passando as crises a terem o comportamento das cerejas, aparecendo uma atrás da outra. E esta é mais uma das profecias que tem tudo para se autorealizar, num Parlamento altamente fragmentado, com os velhos partidos a perderem espaço para os novos partidos, mais instáveis e mais sedentos de regressar de novo às urnas para reforçar o seu peso eleitoral.

A terceira profecia de Marcelo é a de que os resultados eleitorais acabarão por nos conduzir a um Bloco Central informal, feito à imagem e semelhança do que ele fez com Guterres, como a única forma de garantir a governabilidade do país. Por um ano ou dois, seguramente para dois orçamentos aprovados no próximo ano, o de 2021 e o de 2022.

Numa profecia autorealizável, cria-se uma expectativa que, mesmo podendo ser falsa, conduz ao comportamento que a torna verdadeira. No caso de Marcelo troca-se a falsa expectativa pelo desejo assumido e há uma alta probabilidade de acontecer o contrário. Foi assim com as contas do Estado que o Presidente queria aprovadas e com a legislatura que queria cumprida e acabará por ser com a estabilidade que espera ver sair das eleições de 30 de Janeiro, no desejo supremo de Marcelo, com os blocos bem firmes à direita e à esquerda.

Ao tornar pública a chantagem política que fez com o PCP e o Bloco, o Presidente tinha o desejo de que, pelo menos os comunistas, derrotados uma vez mais nas urnas, recuassem perante o abismo. Não cuidou de entender que, perante a acumulação de derrotas, enlaçada com uma ameaça presidencial, ao PCP não restava outra solução senão quebrar para não continuar a torcer até ao ponto em que já não se revisse no espelho, até ao ponto em que já não fizesse sentido a existência de um partido comunista.

Ao empurrar todos os partidos para eleições, convencido que o voto útil à esquerda no PS e à direita no PSD acabará por dar a um dos blocos uma maioria confortável com uma liderança mais forte, o Presidente corre o risco de ver uma maioria aritmética transformar-se numa impossibilidade política por excessiva fraqueza de uma das partes de qualquer uma dessas maiorias. No caso da esquerda, porque o regresso do PCP ou do Bloco a uma geringonça só poderá acontecer com ganhos de causa, mesmo que saiam com perdas significativas nas urnas. No caso da direita, mesmo com uma vitória do PSD e com uma subida de votos face a 2019, nenhuma maioria parece ser possível sem o reforço significativo do Chega.

O resultado das eleições autárquicas, mais do que a política orçamental, soltou o último dos parafusos que segurava a geringonça.

Para lá das ideias racistas, no partido de André Ventura há que temer a permanente instabilidade que faz parte do ADN de quem tem como ideologia o oportunismo. Como pudemos constatar recentemente quando quiseram derrubar o governo açoriano, apenas porque o líder do Chega se sentiu menosprezado pelo líder do PSD.

Um Parlamento mais fragmentado, com os novos partidos a ganharem peso no hemiciclo, diminuirá as condições de governabilidade, empurrando os dois maiores partidos do sistema para os braços um do outro, se todas as outras tentativas de viabilizar um governo falharem. O problema é que a partir do momento em que todos sabemos que é isso que terá de acontecer mais o combate a essa solução entrará na campanha. Para crescerem, PS e PSD precisam de uma campanha bipolarizada e em que possam apelar ao voto útil, mas a ideia de que há um bloco central informal na forja forneceu a todos os outros partidos o melhor argumento para combater a bipolarização.

O resultado das eleições autárquicas, mais do que a política orçamental, soltou o último dos parafusos que segurava a geringonça e não é possível antecipar com uma probabilidade razoável uma solução governativa (mesmo que apenas temporária) mais forte que o Bloco Central (mesmo que apenas informal). Se também esta solução falhar, então, Marcelo, o Presidente que ama a estabilidade, arrisca ficar para a história como o chefe de Estado que ajudou a que o país ficasse ingovernável, quando permitiu a António Costa antecipar umas eleições que para o PS serão muito menos difíceis agora que em qualquer outro momento mais à frente.

jornalista

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