Bruno Horta Soares "A câmara é um monstro que está a bloquear a cidade"

Entrevista DN-TSF Candidato da Iniciativa Liberal a Lisboa recusa ser a opção "B", admite uma coligação pós-eleitoral com Carlos Moedas e não poupa críticas a Medina, que diz estar a fazer um "frete" ao PS. E defende a entrega de serviços da câmara aos privados e ao setor social.

A Iniciativa Liberal (IL) fez um arraial em Lisboa, pelo Santo António, que provocou um sem número de críticas, da esquerda à direita. O presidente da IL, João Cotrim Figueiredo, dizia, dois dias depois, que voltaria a fazê-lo. E agora, com a situação sanitária que estamos a viver na grande Lisboa, a IL mantém que foi uma boa ideia?
Foi visível o sem número de críticas, mas também vimos um sem número de gente alegre e feliz, e a dar-nos os parabéns, a dizerem que era o momento certo para fazer aquele tipo de movimento, focado na importância de arranjar soluções. Naquele momento, com a informação que tínhamos, fomos os primeiros a dizer "vamos encontrar uma solução. E, se se recordam, depois é que Medina disse que iria proibir [os festejos no Santo António]. O que quisemos na altura foi passar a ideia de que era possível encontrar soluções, tal como o Porto encontrou. Foi um Santo António, como nós dissemos, "à 2021", não foi um Santo António de 2019, e espero que não seja o Santo António de 2022, e foi esse o sinal - é possível tomar decisões em contexto de pandemia.

Mas, chegados ao dia de hoje, estamos perante um caso em que a realidade veio desmentir a IL?
Ao dia de hoje tenho uma dificuldade enorme em entender o que é a realidade, esta bolha covid em que vivemos. Há uma inconsistência de decisões públicas e políticas que nos deixam - a qualquer cidadão - muito confusos. Num momento vemos ministros a viajar e a celebrarem com a seleção, depois há uma proibição de circulação dentro do país...

Está a passar a ideia de que "se os outros erram nós também podemos errar"?
Não. Estou a passar a ideia de que não é fácil para o cidadão comum entender que decisões pode, conscientemente, tomar. Para um partido político também não é fácil. Estamos todos, o país, um pouco dependentes das reuniões de quinta-feira [do Conselho de Ministros]: à quinta o Governo decide como é a nossa semana seguinte. E isso não é fácil, tomar decisões com essa quantidade de informação. Nós não somos negacionistas, respeitamos aquilo que são as decisões, mas não é fácil ouvir tantas decisões contraditórias, arbitrárias, sinais políticos - e fortíssimos - do Presidente da República, do presidente da Assembleia da República, de esperança, de "vamos avançar". No dia a seguir, contrariados pelo primeiro-ministro, a dizer que não. Fernando Medina só diz que faz o que os outros fizerem. Há aqui uma inconsistência, passado um ano parece que não aprendemos nada ao nível da comunicação. Este tema tem uma camada técnica, mas tem uma componente política fortíssima, onde, durante o último ano, não se aprendeu nada. Continuamos a cometer os mesmos erros.

Avancemos para a sua candidatura à Câmara de Lisboa. Receia ser penalizado nas urnas por ser a segunda escolha da IL? O plano B, depois da desistência, por motivos pessoais, de Miguel Quintas?
Absolutamente. Continua a configurar aquilo que era o plano A da IL, que era apresentar uma candidatura à Câmara Municipal de Lisboa (CML). Esse era o primeiro simbolismo que nós queríamos passar com a nossa candidatura. Houve um conjunto de conversações iniciais com outro candidato, mas surgiu a hipótese, que eu anteriormente não tinha pensado, de avançar. E eu pensei que este era o momento chave. Para mim não são umas eleições quaisquer, são as primeiras eleições depois do covid e isso para mim faz toda a diferença. Como é que vai ser Lisboa a partir de agora, para mim é muito importante. É nisso que eu estou focado, em ser um candidato diferente e talvez o "B" só de Bruno.

O próprio João Cotrim de Figueiredo admitia que se a substituição não tivesse sido rápida "o dano reputacional seria superior", o que deixa subentendido que haverá algum dano. Mas percebo que não, que está tranquilo.
Não temos sentido isso.

Porque é que a IL não se juntou à coligação de direita, liderada por Carlos Moedas? Não seria a melhor forma de tirar o PS do Executivo da câmara, como pretende?

Compreendo a análise e talvez utilizasse aquela expressão "não és tu, sou eu". Na altura não era uma questão, sequer, ser o Carlos Moedas. A IL, sendo um partido recente, tinha muita vontade de fazer uma campanha autárquica, de mostrar a todos aqueles eleitores que puderam passar a meter uma cruzinha na IL que também o podiam fazer nas suas freguesias, em Lisboa e em tantas outras cidades. Essa foi a primeira decisão. A segunda decisão tem muito a ver com a direita e Carlos Moedas. Efetivamente estamos a escolher entre PS e PSD. A razão da nossa fundação foi querermos ser um partido diferente destes partidos de sistema. Há uma tentativa muito forte, e nós compreendemos, do ponto de vista político, de Carlos Moedas se afastar... há momentos em que quase parece que tem alguma vergonha de dizer que é o candidato do PSD. E eu não tenho vergonha nenhuma de dizer que sou o candidato da IL. Imaginemos se estivéssemos também ali, por trás daquela coligação. Não faria sentido, não podíamos ter a nossa identidade, não nos podíamos mostrar aos eleitores e isso era o mais importante. Acho que os eleitores não se vão esquecer que Carlos Moedas é o candidato do PSD e que é o candidato do PSD de Rui Rio.

É um obstáculo, ser o candidato de Rui Rio à frente do PSD?
Se houvesse vontade de Carlos Moedas se identificar com o PSD nós víamos mais laranja nos cartazes, mais laranja na atitude, mais laranja atrás dele. E não vemos. Vemos um candidato muito esforçado, mas com uma máquina, um aparelho partidário muito tímido atrás dele. E quando olho para a IL não vejo isso, vejo um partido cheio de vida, cheio de jovens, cheio de vontade de fazer campanha.

No pós-eleições, se os resultados eleitorais o permitirem, admite uma coligação com Moedas?
Se eu for eleito presidente da CML terei todo o gosto em falar com Carlos Moedas e acho que isso faz todo o sentido, porque nesse momento será claro que houve um sinal nas urnas, um sinal dos eleitores. Se isso for um cenário de governabilidade da cidade, porque não? Obviamente que sim.

E se Carlos Moedas for eleito presidente da CML?
Se for essa a decisão dos eleitores, certamente que há uma identidade muito mais próxima daquela linha política, que pelo menos Carlos Moedas vai partilhando, do que qualquer outra das opções que estão em jogo. Seria de longe o candidato mais natural para nos podermos juntar.

Não viabilizaria um governo de Fernando Medina?

Não faz qualquer sentido. Há aqui esta ideia que Medina é o candidato. Nós neste momento não sabemos se é o candidato, porque o que está em jogo é um exercício de poder do PS. A convicção com que fico muitas vezes é que, se fosse qualquer outro... Não queria desvalorizar exageradamente, mas é quase a ideia que se fosse um pino a concorrer, as pessoas votavam porque era PS, porque não há qualquer razão para que Fernando Medina seja um candidato de cabeça levantada. Não fez um bom trabalho, não está a fazer um bom trabalho, todo este clima em torno da câmara é por sua responsabilidade, ou falta de responsabilidade. Não há nenhuma razão para que possamos acreditar que Fernando Medina agora é que vai ser um bom líder de uma câmara municipal. Acho que ele não gosta do que faz, não gosta de estar à frente da câmara, está a fazer um frete ao PS, porque tem de estar alguém do PS à frente daquela câmara.

A IL concorre pela primeira vez às autárquicas, com que ambição para Lisboa? Há pouco dizia "se for eleito presidente terei muito gosto em fazer uma eventual coligação pós-eleitoral com Carlos Moedas". Mas o que é que seria uma vitória? Já o ouvi dizer que não descura a hipótese de poder eleger dois vereadores. Esse objetivo é realista?

É cada vez mais realista. Nós temos de ter alguma cautela porque o entusiasmo, esta paixão de andarmos em campanha e de falarmos com as pessoas, deixa-nos muitas vezes com a sensação que vamos ter maioria absoluta, fica um pouco essa ideia no ar. Nós temos a consciência que queremos aproveitar muito a campanha, é um momento de muita democracia. Após as eleições, acreditamos que - se for esse o caso - um vereador, tal como um deputado, pode fazer uma diferença enorme. Se um deputado faz diferença em 230, na Assembleia da República, acho que um vereador em 17 também pode fazer diferença. A oposição também é um exercício da democracia, nós passámos a desvalorizar a oposição, qualquer coisa que a oposição diga é contrapoder, e também por isso é que estamos onde estamos. Deixou de haver oposição a nível nacional, deixou de haver oposição a nível municipal e parece que elegemos líderes para quatro anos, ditadores de quatro anos. A IL existir na pool de vereadores será importantíssimo. A sensação com que fico é que vamos ter mais do que um.

Nas últimas autárquicas o BE, para eleger um vereador, conquistou 18 mil votos. Nas últimas legislativas, em Lisboa, a IL conquistou cerca de 12 mil. Neste contexto, parece-lhe mesmo um objetivo realista? Eleger, por exemplo, dois vereadores implicava triplicar a votação das legislativas.
Nas últimas eleições, o CDS/PP, com Assunção Cristas, teve uma votação muito expressiva. Podemos lê-la como um voto de protesto ou, pelo menos, um voto flutuante. Nada me diz que, com o desenrolar da campanha, esse voto não venha para nós. Quem nos diz que aquela soma fica na coligação e não vem para nós? É um bocadinho subestimar a decisão dos eleitores à cabeça. Temos a convicção de que há muitos eleitores flutuantes, muitos jovens que começam a votar e não tenho dúvida nenhuma que os jovens se identificam com a IL, há muita gente que não votou e nos diz "eu não consigo mais ficar calado, vou começar a votar". Tenho a convicção que vai haver um número muito mais significativo de pessoas que querem dar um sinal de que estas são as eleições da mudança, as eleições pós-covid.

Defende uma agenda liberal para a cidade. Em que é que esta frase se materializa? Em que medidas concretas? O que é que mudaria na vida dos lisboetas?
A agenda liberal, se falarmos de um ponto de vista mais ideológico, acaba por ser conotada com uma menor dependência do Estado na vida das pessoas. E isso, apesar de poder ter algumas características que possam não ser tão adaptáveis ao exercício executivo local, mantém-se. A agenda liberal é, desde logo, uma redução da centralidade da decisão de todo o poder na câmara municipal.

Menos câmara na vida dos cidadãos?
Não é menos câmara, é muito menos câmara, muito menos centralismo, muito menos burocracia. Neste momento ignoramos que há um monstro na cidade. Temos que ficar impressionados por a terceira maior empresa do país ser uma CML, com 17 mil empregados. Eu sou de gestão, dou aulas de estratégia, de organização, não consigo explicar aos meus alunos como é que se gere uma organização de 17 mil pessoas. É este monstro que, na minha opinião, está a bloquear a cidade. A agenda liberal é perguntar "o que é que nós podemos deixar de fazer". Deixar de fazer para que sejam as pessoas, as empresas, o setor social a fazer. Como é que isso se materializa? A modernização administrativa é um passo fortíssimo, foi das primeiras coisas que eu disse, não é coincidência, temos de fazer uma modernização administrativa. Era evidente, ainda antes de todos estes casos, que é um acidente à espera de acontecer. Uma organização daquela complexidade, que não tem um modelo de governança e de gestão forte, e que tem essencialmente uma governação política, de quatro em quatro anos, não é governável.

Mas está a falar de uma redução de estruturas, do número de pessoas na câmara, por exemplo?
Há muitos serviços que não deviam estar a ser prestados pela câmara. Uma câmara tem de pensar como é que presta bons serviços aos cidadãos. E hoje o cidadão é "chato", quer coisas diferentes, quer ser tratado como uma pessoa identificada, e uma estrutura burocrática - como é qualquer estrutura pública - não pode satisfazer essas necessidades. Temos de decidir de uma vez por todas se queremos ter uma administração pública para a administração pública ou para os cidadãos. Se assim for, muitos dos serviços terão de passar para entidades privadas, do terceiro setor e por aí fora.

Que tipo de serviços?
​​​​​​​A medida mais concreta que eu propus é no dia 9 de janeiro de 2022, passados 100 dias da data das eleições, apresentar um plano de modernização administrativa à séria para a CML. Não é possível ter tantos serviços. Os burocráticos, de licenciamento são, naturalmente, serviços. Agora, há uma parceira com as entidades privadas, com as entidades sociais, que não está a ser feita. Isto já não corre bem e vamos agora ficar com os centros de saúde, com as USF, com a educação, com os edifícios da educação. O Estado central está a distribuir incompetências, ou seja, nós somos incompetentes para fazer isto, vamos distribuir para as câmaras. Como é que uma câmara tem competência para agora gerir escolas, gerir centros de saúde... Naturalmente tem de fazer parcerias com os privados e é isso que nós queremos.

Disse que Lisboa é uma cidade envelhecida, que na última década perdeu 10% da sua população e que quer tornar a cidade mais atrativa para os jovens qualificados. Como é que isso se faz e que instrumentos tem numa câmara para conseguir fazer isso?
Para nós é muito importante repovoar Lisboa. Acreditamos que Lisboa perde muita gente porque não tem dinâmicas de crescimento. O maior problema é a própria câmara - os privados dizem "só se eu fosse maluco é que metia dinheiro numa câmara que é uma roleta". Achamos que isto vai ser um ano, mas às vezes é dois, às vezes três, há uma imprevisibilidade que afasta todos aqueles que querem investir. Há objetivamente uma veia ideológica que é "nós no público fazemos melhor que o privado". Então fingimos que queremos envolver o privado, vamos fazer contratos completamente destruidores de qualquer relação win-win, de qualquer relação de confiança, o que afasta ainda mais os privados.

Mas em relação ainda aos jovens, é isso, ter mais iniciativa privada?
Sim, claramente. Nas áreas em que trabalho, tecnologias e digital, é constrangedor, é doloroso, ver um jovem ser atraído para uma incubadora da junta de freguesia. É aquela ideia de "ficas aqui ao pé de mim, o presidente da junta é que toma conta de ti". Há um paternalismo da junta de freguesia, da câmara, do Estado. Se [a câmara] quer fazer, aproveitem despachar já o hub do Beato, para ver se não há entidades globais que querem pegar naquele edifício. Mas não, a câmara municipal acha que vai ser uma incubadora, vai gerir um espaço. Pois bem, está há mais de cinco ou seis anos à espera de o construir. Um jovem hoje, que olha para o mundo, quer viajar, ver o que é que acontece lá fora, não encontra vida na cidade. E não é boa vida, de comer e de beber e de festejar, é a vida de progresso, é eu ser melhor que os mais pais e os meus pais terem sido melhores que os meus avós, este elevador social. Portanto, quem fica é quem está confortável - e nós achamos que quem quer estar confortável pode e deve estar, é um direito. Mas para quem quer avançar, a câmara não pode estar à frente. Não pode estar à frente de quem quer avançar e não pode deixar ninguém para trás, é esse o nosso lema.

E os idosos? Lisboa é uma cidade envelhecida, há muitos idosos a viver sozinhos e em muitos casos sem suporte familiar. Que planos é que tem para esta faixa etária?
O que nos choca muitas vezes é tratarem os jovens e os idosos da mesma forma: se um idoso é apoiado por uma junta de freguesia, um jovem também deve ser. Isso não faz sentido nenhum. Não deixar ninguém para trás é apoiar os mais desfavorecidos e isso, na visão liberal, não é necessariamente fazer, é criar condições para que alguém faça. Porque é que um idoso tem de ser tratado por um enfermeiro contratado pela junta de freguesia? Não pode haver uma parceria com clínicas, com hospitais locais, que tem competências e tem dinâmicas? Mais uma vez, há aqui uma tentativa de montar os serviços para eleitores e não para doentes, para idosos. Todos os serviços do Estado são para eleitores: "ficas aqui perto de nós, é o melhor que podemos fazer".

Apoio à habitação. "Casas no centro de Lisboa, mas porquê? É mau morar fora, nas periferias?"

Sobre a habitação ou a falta dela. Já disse que é preciso que os privados se sintam bem recebidos e possam fazer parte da "reconstrução". Diria que o setor privado consegue por si só resolver o problema da habitação em Lisboa, dos preços caríssimos das casas e dos alugueres? Ou neste caso específico será necessária uma intervenção pública?
Ainda existe muito para construir em Lisboa, não estamos a falar de uma cidade que já não tem ponta por onde construir. Há muitos edifícios, terrenos da própria câmara que nem estão inventariados. Acreditamos que não está a ser construído aquilo que podia ser construído. Porquê? Porque a câmara quer construir, a câmara quer participar como construtor, como promotor. Se a câmara fosse um bom regulador... Um dos modelos que temos vindo a estudar e vamos certamente promover, é um modelo designado de "construir para arrendar", super interessante para todas as partes. Para a câmara, que tem uma perspetiva de longo prazo de arrendamento, e dá esta noção que não estou a dar uma casa, os sorteados que ganharam uma casa... Isso não é justo porque aquela casa foi paga com dinheiro dos contribuintes. Apoiar alguém durante um tempo a ter uma casa alugada parece-me, do ponto de vista de justiça, de sociedade, muitíssimo melhor.

Mas a verdade é que em muitas das capitais europeias estamos a assistir a uma tendência exatamente contrária, uma intervenção pública no sentido de disponibilizar mais casas, de limitar o preço das rendas. Devemos ir ao arrepio do que estamos a observar um pouco por toda Europa?
Mas nos casos que temos visto é sempre em parceria com os privados: o construtor civil não é a câmara, o gestor de obra não é a câmara. Temos visto projetos belíssimos, de bairros inteiros, em que uma câmara se senta com promotores imobiliários e diz: "como é que vamos fazer aqui as pessoas felizes". E se senta com eles. [Em Lisboa] Um promotor imobiliário manda um e-mail para a câmara e a câmara tem vergonha de reunir. Os promotores não são os maus. Sentam-se com eles, desenham, definem as características para que todas as partes possam ter benefícios. Depois deixam funcionar o mercado, numa espécie de concessão, um envolvimento dos privados, e [a câmara] mantém-se a supervisionar, não são players de gestão de ativos, nem de gestão de rendas, não são os senhorios.

Mas como é que consegue, nesse modelo, baixar as rendas?
Muitos destes modelos são acordados à partida: naquelas construções há um conjunto de rendas que são logo normalizadas. E os privados dizem "por nós tudo bem", desde que os contratos não sejam feitos como hoje são feitos, para não serem aceites por privados, que é uma coisa extraordinária. Lemos um caderno de encargos, que demoram anos e anos a preparar, e aquilo está blindado, numa desconfiança total dos promotores. Estamos a falar de uma capital como Lisboa poder abrir-se a promotores imobiliários de todo o mundo. Há grandes grupos que já estão em Portugal, grupos de confiança. Agora, falta é a confiança no promotor público, que é a câmara. Construir para arrendar, isso é uma espécie de condição que nós estamos a meter à cabeça - "não queremos promover especulação imobiliária, queremos que vocês façam uma gestão de ativos durante um período longo". Isto já vai orientar esse modelo, e esse modelo está a ser um sucesso lá fora, porque interessa a toda a gente. Agora, interessa a quem quer fazer modelos de gestão de ativos durante 50 anos. E aqui, esta instabilidade fiscal, esta instabilidade legal de arrendamento assusta qualquer um.

Pareceu deixar subentendido que discorda de programas como o "Renda Segura", em vigor em Lisboa, em que a câmara financia parcialmente as rendas. Isso não merece a sua aprovação?
Deixe-me ser muito direto, esse tipo de modelos e esse tipo de programas financia a campanha do PS em Lisboa. Não são projetos sérios, nem são quantificáveis. Há uma promessa de seis mil casas que foi feita e que resultou em quê? Cerca de 15% das casas foram construídas. Há dois momentos em que os socialistas conseguem, de facto, passar uma ideia de grande progresso: uma no anúncio e outra no lançamento da primeira pedra. Depois, as coisas desaparecem. E não é isso que nós estamos a falar. Os modelos de renda acessível que estão a ser feitos são pontuais, é uma casa aqui, um prédio ali, são para promover uma ideia de justiça social que não vai ao encontro da nossa ideia de justiça social, que é: todos podem ser muito felizes, mas não há privilegiados. Esta ideia de vamos sortear quem é que ganha uma casa para a vida? Não faz sentido. Mas são mil? Não, são 10 aqui neste edifício. Uma cidade como Lisboa deve estar a fazer muita construção. A ideia dessas casas serem no centro de Lisboa? Mas porquê no centro de Lisboa? É mau morar fora de Lisboa, nas periferias de Lisboa? Há aqui todo um conjunto de tiques que são eminentemente ideológicos. Não são programas sérios para resolver os problemas, esses sim sérios, de pessoas que realmente têm que ter condições. Neste tipo de programas deve-se sempre perguntar: até quando é que nós vamos apoiar as pessoas? Porque se estou a apoiar alguém a ter uma renda, eu quero que essa pessoa se desenvolva, que utilize a casa como um acelerador da sua vida, não quero que ache que ganhou um prémio de uma casa. Mais uma vez, aquela casa foi paga por todos os contribuintes.

Mas em Lisboa uma família da classe média ou um jovem não consegue comprar uma casa nem arrendá-la porque os preços são muitíssimos superiores ao rendimento de qualquer família média. E o que acaba por acontecer, falou agora nisso, é que as pessoas saem para a periferia, que foi, aliás, uma das razões pelas quais Lisboa acabou por se despovoar nos últimos anos.
Não existe neste momento uma oferta suficiente e isso iria regularizar-se. Mas deixe-me falar sobre a questão de ir para a periferia. Há 60 e tal anos os meus avós também vieram para Lisboa, do interior, e depois foram morar para o Cacém, eu também fui morar no Cacém, e só passados só 50 anos [sobre a altura em que os avós moravam na capital] é que voltei para Lisboa. Para mim não há nenhum problema de as pessoas andarem passo a passo a procurar onde é que podem melhorar todos os dias.

Mas isso não é contraditório com querer repovoar Lisboa?
Não. Eu quero que existam hipóteses para todos fazerem as suas escolhas. Não quero ostracizar. Esta ideia de se as pessoas vão para a periferia são menos que as outras... Não, se calhar querem pagar uma casa elas próprias com o seu trabalho, e depois querem pagar uma casa melhor e um dia, se calhar, querem comprar uma boa casa em Lisboa. Não me choca absolutamente nada. Esta ideia do "nós vamos dar uma casa às pessoas no centro de Lisboa" não faz sentido na minha forma de ver a vida, que é nós próprios conseguirmos esses avanços. Podemos equilibrar, ajudar, claro que sim, mas os mais desfavorecidos. Nós não estamos a falar de bairros sociais, nós vemos campanhas do PS a dizer para a classe média.

Estamos a falar de uma classe média que neste momento não tem rendimentos para pagar o nível de rendas que há em Lisboa.
Mas o problema é do PS, que nos últimos anos colou o ordenado mínimo ao ordenado médio. O problema não é as casas serem caras, é Portugal estar completamente empobrecido, com ordenados baixos. Não são as casas que estão caras, as pessoas é que ganham pouco.

Se for presidente promete "reduzir todos os impostos, as taxas e as taxinhas". Também já sabemos que a primeira medida que tomará, se for eleito presidente, vai passar por aumentar a devolução do IRS aos munícipes para 5%.Que outros impostos e taxas poderão ser reduzidos?
A nossa agenda de princípios é que qualquer dinheiro que esteja a mais do Estado é porque está a menos no bolso dos contribuintes.

A taxa turística, por exemplo, estaria incluída nessa redução?
Acreditamos que a taxa turística é suficientemente consensual, não só na cidade como nos turistas.

Essa taxinha a IL aceita.
A cobrança da taxa é algo que sentimos que está normalizado. O que queremos sempre garantir é que será aplicada de forma eficaz, transparente e eficiente. Não é só cobrar, há taxas que têm de ser necessariamente cobradas. Mas como é que é devolvida às pessoas? Nós tínhamos uma taxa turística e depois tínhamos casos de insatisfação das pessoas que estavam a ser afetadas diretamente pelo turismo e a taxa não podia ser utilizada para compensar essas pessoas, só podíamos fazer jardins e coisas turísticas para atrair mais turistas.

Interrompi o seu raciocínio. Para além dessa devolução do IRS, ainda não tem nenhuma outra ideia, a este nível de impostos, fechada?
Temos muitas limitações ao nível municipal porque há tetos definidos e Lisboa, felizmente, por essa vida que acabou por ter nos últimos anos, tem muitas dessas taxas já no mínimo.

Ou seja, quando falou em reduzir todos os impostos excedeu-se um pouco?
Não, não, não. Todos os que for possível reduzir seremos perdigueiros atrás deles. O que eu digo é que há limites legais que não permitem - IMI, IMT -, não é possível baixar mais. O IRS, já o sinalizámos, e esse é já. Agora, há todo um conjunto de taxas que depois estão associadas, por exemplo, à fatura da água... Um lisboeta olha para uma fatura da água e fica impressionado, mesmo que não beba um copo de água paga um conjunto de taxas e taxinhas enorme. Tudo o que nós pudermos reduzir, iremos reduzir.

E as tarifas da EMEL também pretende reduzir?
A EMEL é um caso emblemático, tem uma criação focada nesta questão do estacionamento e depois esticou-se imenso. Relativamente ao estacionamento, na minha visão a cidade será sempre mais conectada, com mais tecnologias, porque é esse o meu background técnico. Queremos uma capacidade de estacionamento ajustada ao momento, por exemplo, taxas dinâmicas que possam variar de acordo com o fluxo das pessoas. Sempre balanceando aqui, obviamente, o não criar incentivos para que as pessoas comecem a trazer muitos carros para a cidade. Aquilo que se faz em bairros como Arroios, São Domingos de Benfica, de criar estacionamento onde os próprios moradores não conseguem estacionar é logo para acabar. Temos que encontrar soluções claras pelo menos para os moradores. Está provado que nas cidades cerca de 30% do tráfego são as pessoas à procura de estacionamento. E quando nós falamos de uma mãe que vem de ir buscar o filho da escola e que ao final do dia anda uma hora para estacionar o carro à frente da sua casa, isto é uma incompetência que está a marcar as pessoas.

A Carris é para continuar nas mãos da câmara ou para eventualmente entregar a privados?
A nós preocupa-nos muito a jornada de vida das pessoas. Perceber que as pessoas se calhar acordam numa freguesia, vão trabalhar a outra, acordam num concelho e vão trabalhar a outro. Portanto, para os transportes como a Carris, e também o Metro, a nossa visão é um trabalho muito forte nos transportes metropolitanos de Lisboa, uma visão da Área Metropolitana de Lisboa (AML).

Mas ficando a gestão com a câmara?
Nesse sentido, o cenário que neste momento temos em vista... O privatizar, não vemos modelos que nos possam ser suficientes, porque o mercado pode ainda não estar suficientemente liberalizado, mas temas como a concessão não estarão fora de causa. Agora, sempre visto numa AML. E, acho que temos de deixar isso muito claro, a IL não quer privatizar por privatizar. Quer privatizar sempre que o mercado estiver liberalizado. Sempre que o mercado não estiver liberalizado, quer concessionar para que a gestão seja mais eficiente.

Se fosse presidente da câmara e descobrisse que os serviços que tutela tinham enviado dados de manifestantes para as embaixadas que atitude é que tomaria?
​​​​​​​O tema da privacidade, da segurança, é a minha base profissional. A resposta que lhe posso dar é que eu não teria sabido pelos jornais como Fernando Medina soube, porque qualquer líder sabe das coisas que pergunta. Podia admitir que até 2018 fosse um tema de lei de acesso à documentação administrativa, mas a partir de 2018, com o sinalizar forte de que o tema da privacidade e dos dados pessoais não era mais um tema administrativo, era um tema de Direitos Humanos, eu era o primeiro a perguntar como é que estão a ser implementados os mecanismos. Essa pergunta não foi feita por Medina e é isso que lhe dá a responsabilidade. A responsabilidade dele foi não ter perguntado e aquele gesto de demitir o DPO [encarregado de proteção de dados] é algo escabroso. Eu dou aulas destes temas, não posso dizer aquilo aos meus alunos, não posso sinalizar aquilo como um comportamento aceitável.

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