Gonçalo Santos, autarca da IL nas Avenidas Novas

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Avenidas Novas, a freguesia mais liberal do país e de "gente que está bem na vida" 

O partido de João Cotrim de Figueiredo passou a ser a 3.ª força política de Lisboa. Na freguesia das Avenidas Novas a IL obteve o melhor resultado, alcançando os 16,6%. Sem surpresa numa das zonas mais ricas da cidade

Gonçalo Santos chega na sua bicicleta desde o bairro de Santos e junta-se a nós na clássica Versailles, na avenida da República. Este advogado é o autarca da Iniciativa Liberal (IL) na freguesia das Avenidas Novas e tem motivos para ter um sorriso rasgado na cara.

O seu partido, liderado por João Cotrim de Figueiredo, obteve aqui o melhor resultado de todo o país, com 16,6% dos votos (2 409) de um total de 14 811 votantes. O PSD, tal como nas últimas autárquicas, venceu com 34,77 %, seguido do PS com 25,57%.

O seu caso é talvez paradigmático dos que aderiram ao partido fenómeno destas legislativas. "Era do PSD. Mas sempre fui liberal e muitas vezes senti que não tinha partido para votar. Percebi cedo que as políticas liberais traziam prosperidade aos países", assume. Foi o cabeça-de-lista pela freguesia e andou com o grupo IL-Avenidas Novas pelas ruas a contactar moradores e comerciantes, "a ouvir os seus problemas", fez debates online.

Esta aproximação justifica, no seu entender, parte do sucesso da IL, mas reconhece que o perfil da população ajudou a que as ideias do partido fossem melhor compreendidas. "Jovens, gerações em idade ativa, médicos, engenheiros, advogados, um nível mais elevado de qualificações académicas. Percebemos que havia uma relação entre este perfil e o reconhecimento que políticas liberais são as melhores para as suas expectativas de vida, com liberdade de escolha e prosperidade, através da criação de riqueza", sublinha.

O liberal Gonçalo Santos vive nas Avenidas Novas desde que nasceu e acredita que "a freguesia mais liberal do país será uma freguesia que quer trabalhar, prosperar e que os problemas sociais sejam resolvidos". Tem como bandeira a "transparência" das decisões públicas e promete propor em breve a criação de um portal na freguesia onde a população possa consultar o orçamento, as despesas, os contratos e respetivas justificações.

De acordo com os dados ainda provisórios do Censos de 2021, a freguesia tem 23 261 residentes, o que significa um aumento de 7,6% desde o último Censos de 2011 - em contraciclo com a tendência de diminuição de residentes em Lisboa (menos 1,2% entre 2011 e 2021). Mais de metade da população (54%) das Avenidas Novas tem entre 25 e 64 anos e mais de metade também (51,3%) tem o ensino superior.

Catarina Carvalho, jornalista, diretora do jornal digital "Mensagem de Lisboa", conhece bem a freguesia, quer profissional quer pessoalmente, pois é moradora. "Os liberais conquistaram o eleitorado urbano, sem surpresa nas zonas mais gentrificadas e ricas da cidade, onde há mais jovens, classe média alta e muitos serviços do setor terciário. Se compararmos os preços por metro quadrado das casas podemos ver essa coincidência. Além disso, são zonas em crescimento com uma nova classe média-alta a substituir a anterior. Por tudo isso a IL tem sucesso neste género de população."

Não foi fácil encontrar moradores durante o dia. Boa parte dos transeuntes ou estavam de passagem ou iam trabalhar. O presidente da junta de freguesia, Daniel Gonçalves do PSD não quis falar com o DN e a secretária pediu-nos para enviarmos um mail.

Na praça do Campo Pequeno encontrámos, sentada num banco de jardim, Ana Torres, de 70 anos, uma recém-moradora, num quarto alugado, por ter sido obrigada a deixar a sua casa no Príncipe Real, que nos chora as suas mágoas do "tanto trabalho, tantos anos, para ficar sem nada".

Do outro lado da rua, Bernardo Lisboa, 54 anos, e a gata Mimi, aproveitam o sol da manhã. Ele é consultor imobiliário, residente, e compreende bem o sucesso da IL na freguesia. "As características sociológicas, com uma classe média e média alta, famílias da burguesia desde o início do século XX, famílias de posses que vieram de África, muitos jovens, tornam estes moradores mais permeáveis às ideias da IL."

Pela Defensores de Chaves, trocamos dois dedos de conversa com Maria José Rosa, 72 anos, que puxa a cadela Pérola pela trela. "Quem? Iniciativa Liberal? Não sei o que é. Só conheço o Chega e o PSD. O que queria era tirar o Costa, que anda tudo farto. Votei no Rio, mas o rio secou", afirma com uma gargalhada, seguindo pelo passeio.

Catarina Félix, moradora há 24 anos no bairro, sublinha que ali "há gente de muitas gerações, é uma freguesia fervilhante". Por isso não se surpreendeu também com o resultado da IL. "Fui abordada durante a campanha e achei que tinham ideias muito refrescantes. Estávamos a precisar", afirma, recebendo o apoio da sua filha, Francisca Antão, de 22 anos, que a acompanha na esplanada.

Mais adiante descobrimos outro jovem residente. Bernardo Cid, 24 anos, estudante do ISEL, auscultadores nas orelhas e guardado pelo seu pastor-alemão, levanta os olhos do telemóvel, desconfiado, quando metemos conversa. "Não sei o que vos diga, mas sei que muita gente da minha geração e da vossa votaram IL. Eu sou da JSD e votei PSD, mas as ideias da IL agradam a muitos da minha geração. São mais acessíveis e fazem que não pensemos em emigrar", assevera.

Encontrámos no restaurante Apple House, na Avenida Elias Garcia, Júlio de Sousa, 48 anos, proprietário, e João Frazão amigo e cliente. Ambos moram e trabalham no bairro.

"Aqui vive pessoal de muito dinheiro, é gente que está bem na vida e abastada. Para mim até é mau para o negócio porque preferem ir para restaurantes caros. Aqui vem mais quem é de fora e trabalha cá", confessa, bem-disposto. Frazão, que mora no bairro desde que nasceu, acompanha Júlio e diz que "o nível económico é muito elevado" e não se surpreende "que muitas dessas pessoas achem que o liberalismo é bom para o país".

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