Associações pró-Putin. Conselho de Fiscalização confirma relatórios das secretas

Vai ser ouvido esta manhã no parlamento, a pedido do PSD, o Conselho de Fiscalização do Sistema de Informações da República Portuguesa que acompanhou o trabalho e leu os relatórios de contraespionagem que as secretas terão produzido sobre indivíduos e organizações pró-regime russo em atividade em Portugal

O Serviço de Informações e Segurança (SIS) terá produzido relatórios sobre perfis de indivíduos e associações de imigrantes em Portugal suspeitos de serem pró-regime russo e esses documentos terão sido entregues ao gabinete do Primeiro-Ministro e à Casa Civil do Presidente da República.

Este trabalho poderá ser nesta quarta-feira confirmado pelo Conselho de Fiscalização do Sistema de Informações da República Portuguesa (CFSIRP) numa audição, à porta fechada, requerida pelo PSD.

Numa operação relâmpago na tarde de ontem, o vice-presidente da bancada social-democrata, André Coelho Lima, conseguiu em poucas horas a aprovação do PS para ouvir, ainda no final da manhã de hoje, Abílio Morgado, António Rodrigues e Filipe Neto Brandão, antes que deixem o CFSIRP - está agendada já para amanhã, quinta-feira, a tomada de posse dos novos membros (Mário Belo Morgado, ex-secretário de Estado da Justiça, Constança Urbano de Sousa, ex-ministra da Administração Interna, e Joaquim da Ponte, deputado do PSD pelos Açores) e só os atuais poderão ter esta informação.

"É importante perceber como foi possível não terem sido evitadas situações como a que aconteceu em Setúbal, que podem ter colocado em risco a vida de cidadãos ucranianos que procuraram a nossa proteção"

"Sendo público que os serviços de informações teriam conhecimento das ligações ao regime de Putin destas associações e seus membros, é importante aferir se foi feito um acompanhamento pelo SIS da atividade destes cidadãos e/ou associações e as conclusões que daí resultaram. É importante perceber como foi possível não terem sido evitadas situações como a que aconteceu em Setúbal, que podem ter colocado em risco a vida de cidadãos ucranianos que procuraram a nossa proteção", explicou ao DN André Coelho Lima, que também faz parte do Conselho Superior de Segurança Interna.

Uma leitura mais atenta do último relatório do CFSIRP, relativo ao ano de 2021, dá parcialmente uma resposta a esta dúvida, atestando a "qualidade" do trabalho das secretas nacionais no que diz respeito a esta matéria.

"O CFSIRP testemunha ainda o quanto o atual conflito na Ucrânia permitiu revelar, em diferentes momentos (necessariamente classificados), a qualidade dos Serviços de Informações de Portugal", é escrito, sublinhando que "o desenvolvimento de uma tal referência extravasa do presente parecer, cingido que está ao ano de 2021".

Parecendo, à primeira vista, inócuas, estas palavras contém, de acordo com fontes da comunidade das informações que acompanham este processo, "um claro sinal de confirmação sobre o trabalho que tem sido feito pelo SIS, designadamente na produção de relatórios sobre a atividade de cidadãos de origem russa (a maior parte com nacionalidade portuguesa), apoiantes do regime de Moscovo, que incluem perfis de indivíduos e associações de imigrantes em Portugal suspeitos de serem pró-Vladimir Putin, que no atual contexto devem ser alvo de especial atenção".

Segundo ainda estas fontes, os relatórios produzidos pelas secretas "têm uma lista de distribuição, de acordo com o seu conteúdo". Neste caso, "este tipo de relatório é seguramente remetido, pelo menos, ao gabinete do Primeiro-Ministro e à Casa Civil do Presidente da República".

Se se confirmarem estes documentos e o seu conhecimento por parte do poder político, fica a interrogação se foram enviados atempadamente às autoridades competentes e se o seu conteúdo era suficiente para acionar mecanismos legais, em articulação com as várias entidades envolvidas, incluindo a própria autarquia, de forma a, no mínimo, evitar que estas organizações estivessem envolvidas neste acolhimento.

Recorde-se que, segundo noticiou o Expresso, alguns refugiados recebidos em Setúbal, por uma destas associações sob suspeita, queixaram-se de lhes terem sido feito perguntas sobre a localização na Ucrânia dos seus familiares combatentes - uma situação que será também alvo do inquérito criminal em curso que investiga suspeitas de acesso e uso indevido a dados pessoais, titulado pelo Ministério Público de Setúbal, no âmbito da qual foram ontem realizadas buscas na autarquia.

A audição do CFSIRP foi também uma forma de fintar o chumbo dos socialistas ao requerimento do PSD para ouvir a secretária-geral do SIRP, embaixadora Graça Mira-Gomes, em relação às denúncias, que o presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal e a própria embaixadora da Ucrânia em Lisboa garantiram ter enviado a esta responsável, sobre alegadas infiltrações de russos pró-regime em associações de imigração ucraniana, como poderá ser o caso da Edintsvo (Associação de Imigrantes de Leste), dirigida por Igor Kashin e pela sua mulher Yulia Kashina, funcionária da Câmara Municipal de Setúbal.

O Expresso disse que o SIS acompanha as movimentações de Igor "há alguns anos" e, pelo menos, desde 2014, ano da anexação da Crimeia pela Rússia, que a contraespionagem do SIS produz relatórios sobre a atividade dos chamados "conselhos de compatriotas russos" que têm ligações às autoridades oficiais do regime, como a Embaixada. As fontes ouvidas pelo DN confirmaram a veracidade desta informação.

De acordo ainda com aquele jornal, pelo menos 160 refugiados foram recebidos por Igor Khashin, antigo presidente da Casa da Rússia e do Conselho de Coordenação dos Compatriotas Russos, e da sua pela mulher.

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