"Antigamente era tudo unido pela CDU, agora não. Esta mocidade nunca passou fome"

Beja tem agora o único deputado comunista de todo o Alentejo, com o partido a perder eleitos emblemáticos. Mas o DN precisou de ir a Baleizão para encontrar um comunista em cada esquina.

Beja manteve o único deputado comunista no Alentejo, João Dias. Enfermeiro de profissão, a muitos ganha simpatia mas é a tradição política, e que vem dos tempos da resistência antifascista, que lhe dão a maior força, diz quem nele votou. Os outros criticam que o partido não se renovou e, por isso, tem perdido deputados, com o PS a liderar e a voltar a conquistar dois nestas legislativas. A CDU consegue manter um, número que vem desde 1995. Em 1976 eram quatro. E foi preciso o DN ir a Baleizão, terra de Catarina Eufémia, para encontrar um militante da CDU em cada esquina.

"Votei sempre no PCP e votarei até morrer. É o partido que mais tem defendido a classe desfavorecida. Embora não ganhe, vai sempre na mesma linha, um partido não deve fugir da linha", defende Francisco Manuel Gralho, 70 anos, toda a vida agricultor, mesmo quando esteve emigrado na Suíça.


Vive em Baleizão, na aldeia de baixo, "onde há mais comunistas". Aproveita o sol de inverno sentado na cerca que envolve o busto de Catarina Eufémia. O símbolo da terra foi morta aos 28 anos, numa greve de assalariados rurais. "Fomos o povo que mais sofreu com a clandestinidade, a reação vinha sempre aqui. Basta olharmos para esta estátua para ver como foi o nosso sofrimento. É por isso que temos de lutar e a CDU vai continuar. Quando a pessoa é forte não há que recuar, se recua perde mais depressa." Ergue os braços em sinal de força, leal ao partido, mesmo que não tenha gostado do chumbo do Orçamento do Estado (OE).

Deixou a escola aos 13 anos, com a 3.ª classe, "não devia sair mas era assim naquele tempo", diz. Começou logo a trabalhar no campo, aos 36 emigrou para a Suíça, para um cantão francófono, onde se lhe juntou a mulher e o filho, agora com 47 anos e que lhe deu dois netos. O rapaz ficou pelo estrangeiro, os pais regressaram a Baleizão. Sempre a trabalhar no campo, sempre "na terra dos outros". E é com orgulho que revela: "Agora tenho um terreno meu, a minha horta, que comprei com o dinheiro do estrangeiro."


A emigração parece ter sido a saída de muitas pessoas da terra. Sentados num banco, José Candeias, 85 anos, viveu 25 anos na Suíça alemã. Os primeiros 13 anos no campo e os restantes 12 a trabalhar numa fábrica. Reafirma o seu comunismo. A seu lado, Silvestre Calisto, 67, votou no BE, uma sequência lógica para quem era da UDP.

Os compadres desconfiavam que o PS iria ganhar, mas "não com uma diferença tão grande". Acreditam que não foi o chumbo do OE pelo PCP que o fez cair na votação. "Antigamente era tudo unido, agora não. Esta mocidade toda nunca passou fome, têm tudo", explica José Candeias. E os mais velhos estão a morrer. "A aldeia já teve cinco mil habitantes, agora vivem cá uns 500", acrescenta. Eram 902 nos Censos 2011. Nestas eleições legislativas, estavam inscritos 739 eleitores, votaram 54,55 %.


Baleizão é uma das cinco autarquias da CDU do distrito - 60,20 % dos votos conquistados há quatro meses. A votação foi muito diferente nestas legislativas, ainda, assim, é a freguesia com o melhor resultado da coligação e a única onde ganhou no concelho: 38,77 % dos votos (164). No distrito, ganhou o PS com 43,73%, seguido da CDU, 18,42 %.


O deputado João Dias não esteve disponível esta segunda-feira para falar destes resultados, nem ninguém da hierarquia do PCP.

Discurso desatualizado

O casal Patriarca, Nelson, 45 anos, produtor de vídeo, e Margarida, 37, arquiteta, têm uma explicação para a perda contínua do peso dos comunistas no país, em especial no Alentejo. Ambos são simpatizantes e votantes do PS.


"O discurso do PCP não mudou, a sua característica é defender os trabalhadores, mais equipamentos, o que fazia sentido nas gerações mais velhas, trabalhavam de sol a sol, era a luta, o sofrimento. Não eram letrados e construíram esses equipamentos. Justificava-se esse discurso, hoje não corresponde à realidade", explica o Nelson.

Margarida concorda e, até acha "anacrónico" que Beja não tenha uma autoestrada, uma linha férrea eletrificada e um hospital com todas as condições e a população tenha mantido o deputado comunista. "Aqui ao lado, em Évora, havia uma pessoa, o João Oliveira, que tem lutado pelo distrito, está a ser construído um novo hospital e não foi eleito". Justificam o resultado com o sucesso de António Costa, sobretudo na forma como lidou com a pandemia. "As pessoas preferiram a segurança, do que a incerteza de uma nova geringonça."


Maria Paula Silva, 68 anos, farmacêutica, também votou PS mas no passado já elegeu o PCP. Desta vez, teve mais bejenses a acompanhá-la. "As pessoas, como eu, foram pelo voto útil, pela estabilidade." Não concordou com o chumbo do OE, mas defende que não terá sido esse o motivo principal para a diminuição de simpatizantes. "O PCP perdeu os votantes que já cá não estão. Perdeu os votantes que lhe eram leais, as pessoas mais velhas e das aldeias. Os mais jovens e citadinos estão mais virados para outros partidos, como a Iniciativa Liberal e o BE."


Manuel Palma votou BE e não é jovem, mas é citadino. "Voto sempre no Bloco e não mudei. O Costa deu-me mais quatro euros de reforma, agora ganho 504 euros, uma fortuna", ironiza este reformado de 70 anos, nascido e criado em Beja. E remata: "O Alentejo já não é comunista, era há 30 anos. Agora, a juventude vai para outros partidos."


António João, outro filho de Beja, socialista desde sempre, e não tem dúvidas: "Tanto o PCP como o BE foram penalizados por causa da geringonça e por chumbarem o OE."

ceuneves@dn.pt

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