"É um absurdo". Montenegro inclui Trump nas críticas sobre o impacto do conflito no Médio Oriente na economia
O primeiro-ministro português criticou esta quarta-feira, 23 de setembro, todos os responsáveis, incluindo o presidente norte-americano Donald Trump, pelo “absurdo” de a economia nacional e global estar a ser penalizada pelo conflito no Médio Oriente através da escalada do preço dos combustíveis.
Luís Montenegro cumpre esta quarta-feira em Nova Iorque o segundo de três dias de uma visita oficial aos Estados Unidos para participar na 81.ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), e começou a agenda com um encontro de cerca de meia hora com o secretário-geral da organização, o português António Guterres.
No final, foi questionado pela comunicação social sobre qual o alinhamento político de Portugal com a administração norte-americana, começando por dizer que, “mais do que fazer uma apreciações e entrar em debates polémicos sobre o que se diz neste dia ou naquele”, Portugal deseja resultados positivos, como o acordo de segurança assinado entre EUA, Dinamarca e Gronelândia.
Questionado quem visava quando referiu, na semana passada, que a via seguida no conflito no Médio Oriente era EUA e Irão “era um caminho estúpido”, Montenegro disse tratar-se de “uma crítica geral a todos, àqueles que não têm capacidade de superar este bloqueio ao desenvolvimento global”.
Instado a concretizar se essa crítica inclui o chefe de Estado norte-americano, Montenegro respondeu afirmativamente.
“Inclui todos, isto é um absurdo, nós estamos todos a ser prejudicados, estamos todos a ser penalizados, estamos todos a contribuir para que o ambiente, a atmosfera social e económica à volta do mundo seja mais pesado e que as dificuldades apareçam na vida das pessoas, na vida das empresas, na vida das instituições e das organizações também”, disse.
O primeiro-ministro deixou um apelo ao sentido de responsabilidade geral “que integra todos, não deixa ninguém de fora”.
“Aqui não há exceções, somos todos chamados, as partes envolvidas e as partes que podem ter uma intervenção, a dar o nosso contributo. O meu desejo é que se aproveitem todas as iniciativas que estão em curso de restabelecer um memorando de entendimento que possa servir os interesses das partes conflituantes”, disse, referindo-se quer ao conflito no Médio Oriente, mas também à guerra na Ucrânia.
O primeiro-ministro admitiu também que a economia portuguesa vive hoje “numa realidade com duas faces”, entre os bons resultados “com um reconhecimento internacional elevadíssimo” e o impacto do conflito no Médio Oriente na vida de pessoas e empresas.
Questionado se não existe uma contradição entre o otimismo que tem demonstrado nos EUA quanto à economia portuguesa e o “momento duro” que admitiu na declaração ao país na semana passada, Luís Montenegro admitiu que “há uma espécie de confrontação entre duas realidades que são as duas existentes, que são as duas vividas, mas que vão em sentidos opostos”.
“Por um lado, Portugal é um país que está hoje com um reconhecimento internacional elevadíssimo. E não é por acaso”, destacou.
Montenegro referiu-se, em concreto, à sua passagem pela Bolsa de Nova Iorque na terça-feira, durante a qual a presidente da instituição apontou a economia portuguesa como “um exemplo na União Europeia porque está a conciliar maior crescimento económico com equilíbrio orçamental, com diminuição dos impostos, com combate à burocracia”.
“Nós temos tido simultaneamente uma valorização dos salários pelo seu montante e também pela diminuição da carga fiscal. Temos ajudado as empresas e temos ajudado a retenção do capital humano. E isso é muito positivo e tem de ser dito aos portugueses, porque gera confiança que não é retórica, é sustentada”, disse.
No entanto, admitiu que existe um “outro plano, que também é real”, causado pelo impacto da guerra entre Estados Unidos e Irão.
“Estamos a sofrer, na pele, todos nós, cada um dos cidadãos portugueses, cada família portuguesa, cada empresa portuguesa, cada instituição portuguesa e organização, um aumento que não tem razão de ser do custo dos combustíveis. E isso, naturalmente, que gera, ao contrário da primeira parte, não otimismo, mas apreensão”, reconheceu.
O primeiro-ministro considerou que será preciso “lidar com as duas partes”.
“Não é uma contradição, mas é, neste momento, uma realidade que tem duas faces, tem duas vertentes que são, de facto, diferentes”, afirmou.
Primeiro-ministro elogia Guterres como “a grande referência moral das nações”
O primeiro-ministro considerou esta quarta-feira que o secretário-geral das Nações Unidas é hoje “a grande referência moral das nações”, afirmando que, se a organização tem falhado nos seus objetivos, “não é por falta de esforço” de António Guterres.
No final da 81.ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em declarações à comunicação social, classificou o encontro “muito interessante e importante” para fazer uma avaliação da fase final do mandato do secretário-geral António Guterres, que termina em dezembro dez anos à frente da ONU, quase coincidindo com o início de funções de Portugal como membro não permanente do Conselho de Segurança nos próximos dois anos, em janeiro.
“Quero aqui destacar que o secretário-geral das Nações Unidas, o engenheiro António Guterres, é mesmo hoje a grande referência moral das nações e da concertação das nações a nível mundial, pelo esforço que tem feito para garantir o cumprimento do direito internacional, da Carta das Nações Unidas, do direito humanitário”, afirmou, enaltecendo a sua preocupação também com “os grandes desafios da humanidade para o futuro”, como a transição climática, energética ou o desenvolvimento de todas as regiões.
Montenegro defendeu ser necessário sensibilizar os líderes políticos “para a necessidade de construírem pontes e se aproximarem, muitas vezes, de posicionamentos que são à partida divergentes”.
“E as Nações Unidas, infelizmente, nem sempre têm alcançado esse objetivo, mas não é por responsabilidade, nem por falta de esforço do secretário-geral. É mesmo por incapacidade de alguns de seus membros, e em particular de membros permanentes do Conselho de Segurança, o que não deixa de ser, naturalmente, muito, muito preocupante”, considerou.
Questionado se Portugal já definiu que candidato vai apoiar na sucessão a António Guterres, Montenegro respondeu negativamente, dizendo concordar que deveria ser uma mulher.
“Estamos, nesta fase, a fazer a apreciação desse processo. Há candidatos que estão pré-anunciados, há outros que deixaram de estar e se projetavam como possibilidades e, portanto, quando sentirmos que esse processo está estabilizado, tomaremos a nossa posição”, disse.
Questionado se irá votar para que haja uma mulher, pela primeira vez, à frente da ONU, respondeu: “Nós já manifestámos a nossa concordância de que isso possa acontecer”.
Portugal vai contribuir com 75 milhões de euros para projeto europeu sobre oceanos
O primeiro-ministro português afirmou esta quarta-feira que Portugal vai contribuir com 75 milhões de euros para o projeto europeu destinado a reforçar a proteção dos oceanos, a Aliança “Ocean Eye”, entre doações financeiras e em espécie.
Luís Montenegro discursou esta quarta-feira no lançamento da Aliança Ocean Eye, um novo projeto europeu destinado a reforçar a observação do oceano e a melhorar o acesso a dados marinhos essenciais para a ciência, a economia e a proteção ambiental, presidido pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e pelo primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney.
“A aliança internacional que formalizamos hoje vai ser essencial para assegurar que a observação dos oceanos é sustentada por um quadro de governação adequado e é financeiramente sustentável”, afirmou o chefe do Governo português.
Agradecendo a iniciativa da presidente da Comissão Europeia e do primeiro-ministro do Canadá, Montenegro assegurou que Portugal vai “fazer a sua parte, com contribuições financeiras e em espécie” para apoiar a observação dos oceanos.
“O conjunto dos nossos donativos rondará os 75 milhões de euros”, disse.
Montenegro detalhou que, para lá dos contributos financeiros diretos, Portugal irá continuar “a investir substancialmente nos laboratórios de Estado”, de modo a que tenham os equipamentos necessários para participar nesta aliança internacional.
O primeiro-ministro comprometeu-se também a prosseguir as suas contribuições financeiras para a EUMETSAT (Organização Europeia para a Exploração de Satélites Meteorológicos), uma organização intergovernamental europeia focada na monitorização do tempo, clima e ambiente a partir do espaço.
Finalmente, destacou o contributo que Portugal poderá dar a partir da área da Defesa.
“A Marinha portuguesa está a desenvolver novas capacidades na vigilância dos oceanos e na pesquisa oceanográfica, que incluirão a entrada em serviço, em 2027, de um navio desenhado para servir como Plataforma Naval Multifuncional, capaz de dar apoio naval a futuras atividades desta aliança”, disse, referindo-se ao projeto de navio polivalente NRP D. João II.
Depois de se ter encontrado com António Guterres e ter participado neste evento paralelo da Assembleia Geral da ONU, Montenegro terá ainda hoje vários encontros bilaterais, incluindo com os Presidentes da República de Angola, João Lourenço, e de Timor-Leste, José Ramos Horta, e intervirá na iniciativa promovida pelo secretário-geral da ONU sobre Ação Climática e Transição Justa, conhecida como Cimeira do Clima.
Na quinta-feira, último dia da deslocação do chefe do Governo PSD/CDS-PP, Montenegro discursará na sessão de alto nível da 81.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas.
Este debate da ONU acontece a poucos meses de o país voltar a sentar-se, a partir de 1 de janeiro do próximo ano, como membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU no biénio 2027-2028, para o qual foi eleito com a maior votação de sempre numa candidatura portuguesa àquele órgão (e, pela primeira vez, à primeira volta).
A representação de Portugal no debate geral anual nas Nações Unidas tem alternado entre Presidente da República e primeiro-ministro.
Em 2016, 2018, 2019, 2021, 2023 e 2025 foi o anterior chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa, a deslocar-se a Nova Iorque, e em 2017, 2020 e 2022 a intervenção perante a Assembleia Geral coube ao anterior primeiro-ministro, António Costa, sendo esta a segunda participação de Luís Montenegro, que se estreou em 2024.
