A direção da Polícia Judiciária entregou documentação à Procuradoria Europeia sobre contratos de obras celebrados com a Construbarcelos entre 2019 e 2025, período em que o atual ministro da Administração Interna, Luís Neves, dirigia aquela polícia. Carlos Cabreiro, atual diretor nacional da PJ, reuniu-se também com representantes do organismo europeu, noticiou a CNN Portugal.De acordo com a estação televisiva, as diligências decorrem no âmbito de um “processo de verificação” entregue a um dos sete procuradores europeus delegados da equipa portuguesa. Trata-se de uma averiguação preventiva, ainda sem a abertura formal de um inquérito-crime, destinada a recolher informação sobre as adjudicações.A Construbarcelos, empresa de construção civil pertencente ao empresário João Santos Carvalho, está no centro da polémica que envolve Luís Neves. Além de ter executado obras para a PJ, a sociedade foi contratada para remodelar uma moradia localizada num dos montes do atual governante.Confrontada pela CNN Portugal com o contacto dos procuradores europeus, com os documentos solicitados e com a reunião em que terá participado Carlos Cabreiro, a direção da Judiciária não prestou esclarecimentos.“A Polícia Judiciária não tem qualquer comentário a fazer sobre as questões colocadas”, declarou Carlos Cabreiro à estação.Contratos superiores a 2,23 milhões de eurosDiz a CNN que a averiguação estará concentrada nos 17 contratos que a Polícia Judiciária atribuiu à Construbarcelos ao longo de seis anos. Entre 2019 e 2025, a empresa recebeu mais de 2,23 milhões de euros para realizar remodelações e empreitadas no Departamento de Investigação Criminal da Guarda e na Unidade Local de Investigação Criminal de Évora.Apenas três procedimentos passaram por concurso público. Nove recorreram à contratação excluída, um regime que dispensa a consulta de várias entidades. Estes contratos atingiram 1,45 milhões de euros e corresponderam, segundo os dados divulgados, a 61% do montante global.A PJ invocou exigências especiais de segurança para justificar essa modalidade de contratação. O mesmo argumento permitiu que uma parcela significativa das adjudicações não fosse divulgada, nem sequer no Portal Base, onde são publicitados os contratos públicos.Segundo a CNN Portugal, terão sido as investigações jornalísticas sobre estes contratos - sobretudo o trabalho desenvolvido em parceria pela TVI e pelo jornal Nascer do SOL - a desencadear a recolha de informação pela Procuradoria Europeia.As diligências estarão a decorrer sob forte reserva. Ainda de acordo com a estação, a Procuradoria Europeia avançou com a averiguação sem a comunicar ao procurador-geral da República, Amadeu Guerra.O “processo de verificação” é a segunda investigação conhecida sobre factos.A Procuradoria-Geral da República já havia anunciado um inquérito-crime destinado a esclarecer como o atrelado de um camião apreendido e dezenas de bidões com substâncias químicas usadas no processamento de droga foram parar ao armazém de um empreiteiro amigo do ministro.O empresário em causa é o mesmo que, através da sua empresa, obteve adjudicações da PJ.Ministro diz estar disponível para colaborarLuís Neves afirmou estar disponível para responder às autoridades e defendeu que todas as diligências destinadas a apurar os factos devem ser acolhidas favoravelmente.“Como sempre, estou inteiramente disponível para colaborar com as autoridades e prestar todos os esclarecimentos que me sejam solicitados. Todas as averiguações, investigações, inspeções ou audições, são sempre de saudar, porque relevantes para o esclarecimento da verdade”, declarou o ministro da Administração Interna à CNN Portugal.A Procuradoria Europeia é um Ministério Público independente das autoridades nacionais, especializado na investigação de crimes que prejudiquem os interesses financeiros da União Europeia. Desde a sua criação, em 2017, esteve envolvida em investigações nacionais e transnacionais sobre matérias como fraude no IVA e desvio de fundos europeus.Portugal designou o seu primeiro procurador europeu em outubro de 2020. Sediado no Luxemburgo, o magistrado supervisiona os procuradores europeus delegados que trabalham em Lisboa e no Porto..PGR investiga caso que envolve Luís Neves sem recorrer à PSP, GNR ou Judiciária