A recusa de Luís Montenegro e dos candidatos derrotados Cotrim de Figueiredo e Marques Mendes de darem indicação de voto para a segunda volta das eleições presidenciais, ignorando a pressão de André Ventura para a agregação do eleitorado da “direita fragmentada”, torna muito provável que António José Seguro seja eleito Presidente da República a 8 de fevereiro. Até porque ninguém espera que Mariana Leitão e Nuno Melo ofereçam ao seu rival direto o apoio da Iniciativa Liberal e do CDS que o primeiro-ministro, falando enquanto líder do PSD, deixou claro não estar disposto a conceder. E Gouveia e Melo poderá apelar ao voto no antigo secretário-geral do PS quando decidir que é o momento de se pronunciar.Tudo isto leva a que o vencedor da primeira volta, com mais 428.256 votos do que o rival, parta para as próximas três semanas com a vantagem que todas as sondagens lhe atribuem. Devido à elevada taxa de rejeição do fundador do Chega, ainda não houve nenhum cenário de segunda volta que o encaminhe para o Palácio de Belém após a saída de Marcelo Rebelo de Sousa. Nesse sentido, a sondagem da Aximage que o DN publicou na sexta-feira apontava para 20 pontos de vantagem de Seguro sobre Ventura (49%-29%) entre os inquiridos que garantiam ir votar num ou noutro. Além disso, todos os candidatos e partidos à esquerda do socialista declararam que irão votar em si a 8 de fevereiro, o que representa perto de 250 mil votos, pese embora os indícios de voto útil logo à primeira volta e a notória erosão de uma área política que só ocupa uma dezena de assentos no hemiciclo da Assembleia da República. .Mas André Ventura responde com números ao que parece ser extremamente difícil. E a verdade é que a soma dos eleitores que teve consigo na primeira volta com os de Cotrim de Figueiredo e de Marques Mendes, candidatos de centro-direita que repartiram grande parte do eleitorado da AD, representam mais de metade dos portugueses que votaram no domingo. Os 23,52% do fundador do Chega, os 16% do ex-presidente e atual eurodeputado da Iniciativa Liberal e os desastrosos 11,30% do antigo líder do PSD somam 50,82% - mesmo sem juntar um único eleitor de Gouveia e Melo, cujos 12,32% terão saído sobretudo da AD e do PS -, o que não fica distante dos 53,69% resultantes da junção dos resultados de Mário Soares, Salgado Zenha e Maria de Lourdes Pintasilgo na primeira volta das presidenciais de 1986. Os resultados da única segunda volta das presidenciais disputada até hoje revelaram-se mais renhidos, pois Soares foi eleito com 51,18%, perdendo 37.755 votos em relação à soma das três candidaturas da esquerda. Já o centrista Freitas do Amaral, que ficara à frente na primeira volta, com 46,31%, ainda acrescentou mais 242.467 eleitores, mas só conseguiu chegar a 48,92%.. Na noite eleitoral de Ventura falou-se muito dessas eleições presidenciais, com o próprio candidato a referir que desta vez é a direita que está fragmentada”, antes de definir uma estratégia destinada a trazer-lhe proveitos não limitados à escolha do próximo Chefe de Estado. “Só perderemos estas eleições por egoísmo do PSD, da Iniciativa Liberal, e de outros partidos que se dizem de direita e que terão agora de escolher entre um socialista e alguém que quer fazer reformas”, disse quem pode ver na eventual eleição de Seguro uma arma de arremesso contra outros partidos “não-socialistas” em futuras disputas eleitorais.Ainda assim, entre as principais figuras do Chega há quem acredite que o seu líder tem hipóteses de ser eleito Presidente da República. Mesmo sem apoio de “barões” sociais-democratas, liberais e centristas - vários anunciaram que votarão em Seguro na segunda volta -, espera-se atrair eleitores bombardeados com a mensagem do regresso do socialismo, mesmo que para isso Seguro seja conotado com José Sócrates e António Costa, seu antecessor e sucessor no Largo do Rato, dos quais é tudo menos próximo. “Não haverá uma caça aos ‘notáveis’”, acrescenta um autarca do Chega, antecipando que Ventura se apresentará como um “candidato das pessoas comuns”.Para o antigo secretário-geral do PS, o maior risco é que recém-convertidos à sua candidatura radicalizem o discurso na campanha, contrariando a imagem de moderação que lhe conduziu à vitória na primeira volta. E que isso contribua para mobilizar eleitores de centro-direita que, à partida, não estariam dispostos a dar o seu voto ao líder do Chega. Para já, o candidato insiste num discurso de união: “Apelei a todos os democratas, aos progressistas e aos humanistas para se juntarem a esta candidatura, que é uma candidatura pela liberdade e pela democracia num momento muito exigente.”.Seguro e Ventura passam à segunda volta nas presidenciais mais concorridas das últimas décadas