A conferência de líderes terminou com a recusa do requerimento do Chega para que o ministro da Administração Interna, Luís Neves, e a ministra da Justiça, Rita Júdice, fossem ouvidos na Comissão Permanente da Assembleia da República, numa sessão plenária que seria realizada na próxima semana. Apesar de ter ficado marcado para segunda-feira um debate sobre "a situação dos exames nacionais" em que o Governo poderá ser representado pelo ministro da Educação, Fernando Alexandre.Além da oposição dos grupos parlamentares do PSD e CDS-PP, que já tinha contribuído para o indeferimento de outro requerimento, da Iniciativa Liberal, para que Luís Neves comparecesse no órgão que assegura os trabalhos parlamentares durante as férias de verão, para a recusa do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, foi decisiva a seu posição de que a Comissão Permanente não tem competência regimental e constitucional para assegurar a convocação de membros de Governo.A intransigência do Chega foi responsabilizada pelo porta-voz da conferência de líderes, que contrapôs o exemplo do PS. Os socialistas aceitaram alterar o seu requerimento para que o ministro da Educação, Fernando Alexandre, fosse ouvido na Comissão Permanente, apresentado na manhã desta sexta-feira, transformando-o num debate sobre os problemas na correção dos exames, a realizar na segunda-feira, em que o Governo poderá estar representado, caso assim pretenda, "embora não tenha essa obrigação".“Os grupos parlamentares não têm o poder de convocar este ou aquele membro do Governo para a Comissão Permanente”, disse o ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, reduzindo a recusa da comparência de Luís Neves e Rita Júdice a “uma questão regimental”.Em declarações à comunicação social, o ministro dos Assuntos Parlamentares disse ainda que na conferência de líderes desta sexta-feira esteve a ser discutida "a perenidade das regras de funcionamento da Casa da Democracia". E disse que o Governo "em momento algum se recusou a prestar esclarecimentos ou à vinda de ministros", desde que "dentro das regras".Por seu lado, o líder do grupo parlamentar do Chega, Pedro Pinto, lamentou que os grupos parlamentares da maioria impeçam que o ministro da Administração Interna dê explicações aos deputados sobre "um caso demasiado urgente" e que "não pode esperar por setembro ou outubro", visto que põe em causa a Polícia Judiciária. "Mais uma vez, o PSD e o CDS nem quiseram esse consenso. E infelizmente foram respaldados pelo presidente da Assembleia da República, que tem poder para convocar a Comissão Permanente", disse, acusando as duas bancadas que apoiam o Governo de Luís Montenegro de terem provado "que estão a fugir ao debate"."Que sentido fazia estarmos a aceitar uma Comissão Permanente para estar a falar do ministro da Administração Interna, e de tudo o que ele fez enquanto foi diretor nacional da Polícia Judiciária, sem a presença do mesmo?", perguntou Pedro Pinto, argumentando que Luís Neves já disse aos jornalistas que "estava disponível para vir à Assembleia da República".Pedro Pinto também perguntou "porque é que o PS tem tanto medo que se fale do caso de Luís Neves" e, nas suas palavras, "não quer esclarecer nada" sobre os casos relacionados com os mandatos do atual ministro da Administração Interna enquanto diretor nacional da Polícia Judiciária.Pelo grupo parlamentar do PS, o deputado Pedro Delgado Alves disse esperar que o ministro da Educação, Fernando Alexandre, compareça no plenário da Comissão Permanente. "Não nos passa pela cabeça que esse não seja o caso", salientou, dizendo que um debate sobre os exames nacionais na ausência do responsável pela tutela "seria estranhíssimo".Quanto à vinda de Luís Neves, Delgado Alves defendeu que o agendamento de um debate em que o Governo se fizesse representar "permitia um palco parlamentar suficientemente adequado para o tema ser discutido", imputando ao Chega responsabilidades "por não termos debate nenhum". "Nestas circunstâncias, era preferível ter aceitado a solução de marcar um debate sobre a matéria, garantindo-se que o Parlamento escrutina, como é da competência da Comissão Permanente, mas infelizmente não teremos essa oportunidade", defendeu.O líder do grupo parlamentar da Iniciativa Liberal, Mário Amorim Lopes, reagiu ao desfecho da conferência de líderes com a ideia de que o Governo e os partidos da AD perceberam que a conferência de imprensa do ministro "correu mal" e têm de gerir um problema que põe em causa a Polícia Judiciária. Quanto ao debate sobre os exames, destacou que não houve qualquer garantia por parte do Governo que se faça representar.O deputado do Livre, Paulo Muacho, considerou "muito positivo" que vá haver um debate sobre o "caos" nos exames nacionais, "pois o país precisa de explicações por parte do Governo", esperando que Fernando Alexandre esteja presente na segunda-feira e "dê as explicações que deve dar".Sobre o requerimento do Chega para a vinda de Luís Neves e Rita Júdice à Comissão Permanente, Muacho ressalvou que "em circunstância alguma o Parlamento convoca um ministro específico para estar presente", o que nem em requerimento potestativos é garantido. E reconheceu ao presidente da Assembleia da República "competência constitucional e regimental para marcar ou não reuniões" do órgão que assegura os trabalhos parlamentares entre sessões legislativas.Os dois partidos da AD foram também acusados de bloquear o escrutínio da Assembleia da República e a fiscalização do Governo pela líder parlamentar do PCP, Paula Santos. "A Assembleia da República não fecha e o escrutínio tem que ser feito. Neste momento, com a suspensão dos trabalhos, esse escrutínio é feito através da Comissão Permanente", disse a deputada comunista, acrescentando que "não passa pela cabeça" do PCP que Fernando Alexandre não compareça o debate que terá lugar na próxima segunda-feira. O deputado único do Bloco de Esquerda, Fabian Figueiredo, qualificou de "lamentável" que o PSD e o CDS, "com apoio" do presidente da Assembleia da República, "tenham bloqueado" a vinda do ministro da Administração Interna. E enumerou esclarecimentos que deve ser dados aos deputados, nomeadamente sobre "como é possível que durante tantos anos não tenha cumprido com as suas obrigações declarativas" e "o ambiente de informalidade em que funcionavam vários aspetos da Polícia Judiciária", recordando que existe um regime sancionatório "que em último caso pode levar à destituição do cargo".Sobre o debate em que poderá ou não participar Fernando Alexandre, o deputado bloquista disse esperar que o Governo se faça representar pelo ministro da Educação na próxima segunda-feira. E defendeu que este deixou de ter condições para se manter em funções.Por seu lado, a deputada única do PAN, Inês de Sousa Real, disse que, "independentemente da responsabilidade política" do ministro da Administração Interna, e da responsabilidade de o primeiro-ministro, existem falhas graves que deveriam ser esclarecidas num debate parlamentar. "Além do atrelado e das criptomoedas que apareceram num casino, tivemos recentemente um episódio, que tem passado por entre os pingos da chuva, de termos tido informação que chegaram ao gabinete do Chega informações vindas do seio da própria Polícia Judiciária, o que nos parece tão ou mais grave", explicou, referindo-se a "falhas de auditoria" nessa polícia de investigação.Sobre o debate relacionado com os exames nacionais, Inês de Sousa Real disse que "é absolutamente fundamental".In