José Manuel Pureza prometeu avançar para uma atualização programática do documento orientador do Bloco de Esquerda e os trabalhos estão em andamento. Na primeira fase, Alexandre Abreu, Bruno Góis e José Soeiro recolherão indicações no partido, do coordenador também, com valorização de propostas setoriais e temáticas de filiados especialistas em certas áreas. O plano é apresentar o conjunto de ideias em debates sucessivos, de setembro a novembro, para culminar numa proposta final em fevereiro de 2027.Ao DN, Alexandre Abreu olhou para o espaço do partido e, sem recusar as pontes necessárias, deixou claro que a aproximação declarada do Livre ao Partido Socialista não é o caminho seguido pelos bloquistas. “A nossa responsabilidade, de qualquer partido de esquerda até, é de não sermos sectários. Queremos dar força à Justiça Social, estaremos unidos em várias lutas. Não vamos é esvaziar o Bloco com uma aproximação a um Partido Socialista que tem tido responsabilidades centrais na deriva liberal em muitos domínios”, expressa o economista e professor no ISEG.Abreu integrou uma coligação autárquica em Cascais com o Livre e o PAN e realça que as junções com partidos de esquerda “são experiências que se podem repetir”, que há “abertura para caminhos conjuntos e de geometria variável” e que o Bloco deve “escolher bem os adversários” e “não procurar ter adversários de perto” do seu espetro político. Respeitando “a opção estratégica do Livre”, salienta que “o Bloco tem um espaço próprio e necessário”. “Não há quem assegure a nossa abordagem política, a nossa visão do socialismo democrático”, acentua. A clarificação do projeto do Livre mais perto do PS pode ser “útil na definição do espaço do Bloco”, concorda, pedindo que “entre a esquerda se consiga evitar a crítica gratuita”.No projeto político estará a importância da captação de “eleitorado do Chega, que procurou a alternativa com perguntas certas, mas com respostas erradas”, e olhar “para toda a população”, porque “muitas pessoas que votaram à direita já votaram à esquerda”, replicando, portanto, a visão do próprio Livre na captação do eleitorado. Para isso, vinca a importância da “mobilização territorial”, de um partido “mais vivo no debate político.” Cita as lutas nacionais, mas também locais, como “a petição contra a concessão das águas em Santa Maria da Feira e o impedimento de privatização das praias de Setúbal”, como “oportunidade para ter pessoas a aproximarem-se do partido.”“Houve um documento fundador, mas depois desse não penso que haja qualquer documento comparável em termos de ambição”, responde, valorizando o projeto. Este incidirá na análise ao crescimento da extrema-direita, no agravamento das alterações climáticas - à procura de um ecossocialismo, visão de que a acumulação de lucro do capitalismo é incompatível com a preservação ambiental -, e no combate à “degradação de serviços públicos. Também procurará “uma resposta à desqualificação produtiva portuguesa”, que tem exigido “a imigração em massa”, estrangeiros esses condenados “a condições precárias e sem salários dignos em muitos casos”. Está definido que não será um programa eleitoral e é propositado não se apresentar, explicitamente, algumas linhas condutoras. “Não queremos desde já dar a nossa visão, porque será um processo concertado”, garante Abreu.O compromisso assumido por Pureza na Convenção de 2025 terá “muitos passos e abertos a várias esferas”. Será delineado, inicialmente, “não só por elementos da moção A”, terá “meses de discussão e debate, sejam propostas alternativas avulsas ou globais”, e será apresentado em fevereiro em conferência, que coincidirá com o aniversário do Bloco de Esquerda, para ser depois aprovado em Mesa Nacional.As moções B e S do Bloco de Esquerda disseram ao DN que entendiam ser preferível que fosse votado em Convenção, já que na Mesa a maioria da moção A na eleição de delegados permitirá, tudo indica, a aprovação. “O primeiro equívoco é de que o programa vai ser elaborado pela Moção A. Está aberto o contributo a todos os camaradas, às concelhias e a especialistas setoriais e temáticos. O segundo equívoco é achar que o programa, mesmo aprovado, não possa ser revisitado na Convenção”, deixa a garantia.Abreu deixa a entender, portanto, que a Convenção acontecerá no final do ano de 2027 - a oposição reivindicava que fosse a meio de 2027 - e que vê como “precoce a necessidade de aplicar reformas estatutárias quando o Tribunal Constitucional aprovou recentemente alterações”. Foram públicas 60 demissões no partido na passada semana. Uma das razões para a divergência prendia-se com a visão de que o alargamento da NATO para Leste acicatou a Rússia para invadir a Ucrânia. De forma curta, Alexandre Abreu disse que se “lamenta sempre a saída de militantes” e que na política externa, tal como Catarina Martins vincou em campanha presidencial, o Bloco é “totalmente crítico de imperialismos, o dos Estados Unidos da América e o da Rússia”, e defende “o fim da NATO e a saída portuguesa” da Aliança..Programa político divide no Bloco de Esquerda.Jorge Pinto: "Se a esquerda quer voltar ao poder, PS e Livre têm de estar nessa equação”.Rui Tavares: "Dizer que somos muleta do Partido Socialista é usar retórica de direita".Presidenciais. Livre, Bloco e PCP juntos não passam dos 5%, mas vincam importância na definição da agenda