Rui Rio tem desprezo pelo debate democrático, acusa Catarina Martins

A coordenadora do BE, Catarina Martins, considera que o líder do PSD, Rui Rio, tem traços de autoritarismo e "desprezo pelo debate democrático", acusando a direita no seu todo de "não ter nada para dizer" nestas eleições legislativas.

Em entrevista à agência Lusa, a líder bloquista refere-se ainda ao PCP, lamentando não ter podido fazer um frente-a-frente com Jerónimo de Sousa, até porque os debates são importantes para esclarecer. Sobre o PAN, não o vê como concorrente, mas assume divergências quanto ao método.

Confessando que nunca debateu com Rui Rio, mas que conhece a sua prática no Porto, Catarina Martins reconhece que fica "um bocadinho desconcertada" com o seu discurso de "'eu penso isto, mas se for um bocadinho diferente também pode ser'".

"Não se sabe, afinal, o que o PSD pensa sobre cada matéria", o que "torna mais difícil o debate por [haver] falta de clareza do projeto para o país", diz.

"Rui Rio tem uma espontaneidade na conversa que é real, ele é mesmo assim e isso desperta alguma simpatia porque todos nós gostamos de estar a debater com alguém que tenha esse grau de espontaneidade", afirma Catarina Martins.

A coordenadora do Bloco chama, no entanto, a atenção para o facto de essa espontaneidade também ter "muitas vezes uma dimensão de um certo desprezo pelo debate democrático, ou de não o considerar muito importante".

E sublinha: "isso é perigoso porque com isso vem o autoritarismo que toda a gente que viveu no Porto conheceu tão bem".

Sobre a direita em geral, Catarina Martins não tem dúvidas de que tanto o PSD como o CDS ficaram "desorientados" e sem discurso: "lendo os programas do PSD e do CDS é até confrangedor. Por um lado, as suas contradições, por outro lado, a sua falta de capacidade de dizer como é que vão executar aquilo a que se propõem, porque não têm coragem de propor voltar atrás".

"Estes quatro anos mudaram o centro do debate político", declara. "O que a direita propõe são cortes como única forma de ter contas equilibradas no país e ficou sem nenhum programa (...), ou seja, provou-se que mais salário e mais pensão é importantíssimo para a economia (...), cria empregos. Portanto, a direita ficou à espera do diabo, [e isso] não aconteceu.", conclui.

E se, segundo a coordenadora do BE, há quatro anos, a direita dizia "claramente que queria baixar os custos de trabalho, hoje já não tem coragem de dizer, mas também não põe nada [nos programas] que resolva o problema dos baixos salários em Portugal".

Por essa razão, Catarina Martins considera que a tensão de debate se deslocou para a esquerda, deixando de existir com a direita": "a história desta legislatura é a tensão entre o Partido Socialista e a esquerda".

"Muito do que se debate agora é em condições diferentes, é um equilíbrio diferente, e o que se vai debater nestas eleições e aquilo que o resultado eleitoral nos dirá é se é possível um novo equilíbrio à esquerda ou não", refere, para destacar que "é por isso que este é um debate diferente do que era há quatro anos".

Direita "não deve ser menorizada"

Tal facto não impede Catarina Martins de considerar que a direita "não deve ser menorizada" porque a sua base social existe e "deve ser respeitada nas suas ideias", fazendo parte "da pluralidade democrática do nosso país".

Quanto ao PCP, apesar de considerar que os debates teriam sido importantes, a coordenadora do BE pensa que as pessoas, de modo geral, conhecem as divergências e convergências entre os dois partidos.

Questionada sobre se o facto de nunca terem reunido em conjunto não fez os dois partidos perderem força negocial perante o PS, Catarina Martins concorda que "teria sido importante" que tal tivesse acontecido, porque sinalizaria "um equilíbrio à esquerda mais forte" e teria "existido uma posição maior de força".

"Não foi esse o entendimento do PCP, nós respeitamos", salienta.

Já sobre o PAN, o BE não se vê beliscado no seu eleitorado, e assinala o "maior foco" que têm hoje questões ambientais e de emergência climática, o que considera positivo.

"É verdade que surgem cada vez mais partidos temáticos, não só em Portugal, mas um pouco por toda a Europa, muito pelo falhanço do centro em responder à vida das pessoas", explica a líder do Bloco, para quem são as pessoas do espetro da "direita, mais do que centro", que "acabam por ver nos partidos temáticos uma forma de, não colocando em causa a estrutura, se dedicarem a causas a que se sentem ligadas".

Para Catarina Martins, é mais "preocupante" a ideia de que não é preciso "mexer na economia" para resolver os problemas ambientais.

"Esta a ideia de que tem tudo a ver com comportamentos individuais, que se tivermos políticas que se impõem às pessoas, seja pelas proibições sobre os comportamentos individuais, seja pela sensibilização das empresas por via fiscal, vamos resolver os problemas de emergência climática, isso não é verdade", afirma Catarina Martins, assinalando que é essa a maior divergência com o partido Pessoas, Animais e Natureza.

"O PAN acha que se fará a coisa um bocadinho pelos comportamentos individuais, nós achamos que é preciso uma mudança mais vasta", declara.

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