Rio diz que PS não terá maioria absoluta. Catarina quer 100 milhões para os CTT

Debate na TVI entre líderes do PSD e do BE marcado pelas memórias de Rui Rio sobre os quatro anos da geringonça e a de Catarina Martins sobre a legislatura do PSD/CDS.

"A pergunta não faz sentido" porque o PS "não vai ter maioria absoluta" pois as sondagens já publicadas foram "mais ou menos manipuladas" pelos seus autores, declarou o presidente do PSD logo no início do debate deste domingo na TVI com a coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins.

Num frente-a-frente animado, onde ficaram claras as diferenças ideológicas entre ambos, Rui Rio justificou a acusação de manipulação nas sondagens "por quem as faz" com o objetivo de "tentar desmoralizar o PSD e em parte o CDS", a fim de "moralizar o PS". Mas vai-lhes "sair o tiro pela culatra", frisou o presidente dos sociais-democratas, pois "é nestas situações que mais gosto e mais combativo sou".

Catarina Martins, que começou por destacar "a influência" do BE nesta legislatura em reverter os cortes de pensões feitos pelo governo do PSD ou impedir o congelamento prometido pelo PS, elencou os objetivos do Bloco para estas eleições - desde "salvar o SNS" a combater o trabalho precário, passando pela melhoria das condições dos trabalhadores a ter um país com uma economia mais forte e que responda às alterações climáticas.

Depois de criticar as privatizações de empresas públicas feitas pelo governo PSD/CDS, "por tuta e meia", a líder bloquista estimou em cerca de 100 milhões de euros a verba com que "seria possível" recuperar os CTT para a esfera pública, assim como metade desse montante no caso de parte da REN.

Esta fase inicial do debate ficou logo marcada pelas explicações dos dois intervenientes quanto aos cortes (de salários e pensões) e à privatização das várias empresas públicas durante o período da troika: enquanto Rui Rio invocou a necessidade de fazer face aos resultados da "má governação" do executivo de José Sócrates que resultou na bancarrota, Catarina Martins argumentou que Passos Coelho impôs aquelas mediadas para "empobrecer o país".

"PSD e CDS não privatizaram porque tinha de ser mas porque queriam", afirmou a dirigente bloquista, após sugerir que Rui Rio "não de[via] estar sempre a invocar Sócrates" para justificar a governação PSD/CDS -- pois, insistiu, "quem disse que queria empobrecer o país foi Passos Coelho", então presidente do PSD.

Embalada nesta troca de galhardetes, Catarina Martins denunciou "a promiscuidade" entre PSD e PS com muitas empresas. Citando números de antigos governantes daqueles partidos que depois foram nomeados administradores, a coordenadora do BE enfatizou a necessidade de o Estado "recuperar o controlo público" de empresas como os CTT e a REN - até porque "sempre garantiram lucros" e os investimentos exigidos "pagam-se num instante"

Rui Rio contrapôs que essa "seria uma opção ideológica" que exigiria "muito mais dinheiro" do que os referidos 100 milhões estimados pelo Bloco para recuperar os CTT. "Não são 10 tostões" e, além disso, faria disparar outra vez a dívida pública e os respetivos juros - que agora já têm um peso muito grande na economia portuguesa.

Nessa altura, acrescentou Rio com humor, iria dizer-se que "seria um governo Catarina Martins" a atirar outra vez o país "para a bancarrota". Aliás, lembrou o líder do PSD, "o dinheiro dado à banca" - nomeadamente ao Novo Banco - e que os bloquistas tanto contestam "está nos orçamentos de Estado que o BE aprovou" durante o Governo da geringonça.

Rui Rio reconheceu, contudo, validade à crítica de Catarina Martins - invocando as parcerias público-privadas na Saúde - sobre a promiscuidade entre a política e os negócios: "É evidente que há promiscuidade" se um contrato "for mal feito" e se a fiscalização pelo Estado também for deficiente. Mas se a gestão privada de um hospital "consegue mais e melhor com menos" dinheiro, "vou dizer que não por razões ideológicas?"

O importante, frisou, é garantir o acesso de todos cidadãos ao SNS, que deve continuar a ser público mas complementado com o setor privado - a exemplo do que beneficiam os funcionários públicos que descontam para a ADSE - e também com o setor social. Em simultâneo, insistiu Rio, são necessárias novas regras de gestão nos hospitais públicos para evitar desperdícios estimados em 15%, 20%".

Catarina Martins, que ficou sem saber se o PSD privatizaria os hospitais de Santa Maria e São José (Lisboa) ou Santo António e São João (Porto) caso fosse governo, voltou a imputar responsabilidades ao executivo PSD/CDS pelos cortes de mil milhões de euros no SNS e de pessoal. Após dizer que o orçamento do setor "é mal gerido" porque "quatro em cada 10 euros vão para o privado", a dirigente do Bloco defendeu que ele poderia "caminhar para os 8% do PIB" (quase o dobro do valor atual).

A terminar e questionados sobre as recentes alterações às leis laborais, Rui Rio respondeu que por ele "não alterava" nada - só que "os ajustamentos" foram feitos por acordo dos parceiros sociais " - e num sentido "muito mais de acordo" com o defendido por BE e PCP do que aquilo que "a social-democracia ou a democracia cristâ pudessem querer".

Mas Catarina Martins sustentou ser necessário "combater a precariedade" e os "salários baixos", os quais "não vão subir por se darem benefícios fiscais às empresas" - outro exemplo do que o Bloco designa como "lógica da promiscuidade".

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