Ramalho Eanes, o "velho" que é um exemplo de ética

O general deixou cair a máscara e emocionou-se na entrevista à RTP sobre a crise sanitária. Foi o humanista que se assumiu como velho e disse que daria o seu ventilador a um homem mais novo, com mulher e filhos.

A imagem de homem austero que ainda pudesse persistir sobre Ramalho Eanes terá sido definitivamente substituída pela de um humanista - quem o conhece garante que é uma das suas principais características, a par da ética e da solidariedade. O homem de voz grave que entrava pela casa dos portugueses adentro na década pós-25 de Abril com cara fechada cedeu à emoção. E emocionou muita gente com as suas palavras: "Eu falo porque sou um velho, tenho 85 anos... E se alguma coisa há é a obrigação de dizer aos outros que isto já aconteceu, que se ultrapassou, que vai ser ultrapassado. Nós, os velhos, vamos dar o exemplo. Não saímos de casa, recorremos sistematicamente aos cuidados que nos são indicados e quando chegarmos ao hospital, se for necessário, oferecemos o nosso ventilador ao homem que tem mulher e filhos".

Foi a frase mais emblemática da entrevista que passou quarta-feira à noite na RTP, conduzida por Fátima Campos Ferreira. Mas houve muitas outras, em que falou de como o mundo, a União Europeia e em particular Portugal estão a conduzir o combate ao novo coronavírus, mas também apelou à solidariedade e à união tão necessárias nestes tempos difíceis. E falou de fé e de amor. Uma intervenção que deixou transparecer a ética do general que recusou ser marechal; do ex-Presidente da República - o primeiro eleito em democracia por sufrágio livre e universal - que recusou uma indemnização do Estado de um milhão de euros a que tinha direito por causa da pensão; do então tenente-coronel que no 25 de novembro de 1975 chefiou o grupo que conseguiu travar a tentativa de golpe de Estado por outra fação das forças armadas.

"É uma pessoa de grande sensibilidade. O distanciamento e frieza que aparenta não correspondem ao âmago do que é Ramalho Eanes", diz o almirante Melo Gomes, que foi ajudante de campo na Presidência da República; "Só tem autenticidade quem é autoridade, quem é autor, quem é fundador e Eanes é uma espécie de Afonso Henriques da nossa democracia", sublinha o politólogo Adelino Maltez; "O fundo que coabita este discurso é o espírito cristão", entende o padre Anselmo Borges; "Revelou a essência, os princípios éticos, que sempre pautaram a sua vida", considera Lima Coelho, presidente da Associação Nacional de Sargentos.

Adelino Maltez começa por dizer que Ramalho Eanes é uma referência histórica, um comandante de homens que na RTP deu o exemplo da experiência dos comandantes em guerras. "Pautou o discurso por uma grande racionalidade. Tinha uma pauta de valores que qualificamos de humanismo integral", acrescenta, lembrando que ouvimos um homem que estudou, se doutorou e deu provas disso, até pelas citações que fez.

O professor que diz ter delirado com o discurso, lembra que outros da sua idade já terão odiado o general. Mas uma coisa tem como certa: "Eanes fez conjugar a democracia com a maioria sociológica do povo português. Ontem recordámos e percebemos o que é um líder político, que pensa como o homem comum."

"Eanes ajudou muito a implantar a democracia"

Apesar de tudo também há coisas que não correram bem: "Eanes foi um péssimo líder partidário. Mas tentou e, no conceito do direito clássico, cumpriu a missão", refere o professor de Ciência Política numa referência ao Partido Renovador Democrático (PRD), de que o general foi mentor e liderou.

O papel do então tenente-coronel teve no 25 de Novembro também não é esquecido, embora Adelino Maltez faça questão de frisar que foi trabalho de um coletivo - "trabalhar com um coletivo sempre foi uma das suas grandes virtudes". "Eanes ajudou muito a implantar a democracia. Era um homem rural, num país rural, conseguiu falar para esta gente, ao homem comum, e ajudou a desmilitarizar o país."

Também Anselmo Borges refere essa dimensão histórica: "O país tem uma dívida incomensurável para com ele, em relação ao estabelecimento da democracia."

Razões de princípio levaram Ramalho Eanes a recusar a sua promoção a marechal, em 2000. "Ele quis ser político e correu esse risco, fez essa escolha. Foi uma lição de humildade", diz Adelino Maltez. Anselmo Borges acentua a mesma característica: "Não anda à procura de honrarias."

Prescindiu igualmente dos retroativos a que tinha direito relativos à reforma como general - em 1984 Mário Soares fez uma lei a impedir que o vencimento de um Presidente da República fosse acumulado com outras pensões do Estado. A lei veio a ser mudada, mas Eanes recusou a indemnização de um milhão de euros.

"Exigiu igualdade em relação aos outros, mas renunciou àquilo a que tinha direito. Quer dizer que é preciso ser contundente e defender a justiça", comenta Anselmo Borges.

O também professor universitário de Filosofia costuma chamar a Ramalho Eanes "o general doutor", numa alusão ao doutoramento que este fez já depois de sair de Belém - a tese "Sociedade Civil e Poder Político em Portugal" foi defendida em 2006.

Do que ficou da entrevista do ex-presidente da República à RTP, destaca precisamente a humildade. Que, diz, se revelou na assunção de que todos os homens são frágeis, não são omnipotentes e que a morte faz parte da nossa vida.

Anselmo Borges não tem dúvidas que Ramalho Eanes prestou um imenso serviço o país, ao revelar serenidade, mas ao mesmo tempo fortaleza e contundência. "Comovi-me. Julgo que a maior parte dos telespetadores também se comoveu quando ele disse que daria o ventilador a outro homem. Ele fá-lo-ia e isso implica já santidade", afirma. Acrescentando que a essência de todo o discurso é o espírito cristão - Eanes disse mesmo que "Cristo é amor puro".

A última vez que o padre Anselmo Borges convidou o general para um debate, o tema era a geoestratégia de Deus. "Alguém da plateia fez uma daquelas perguntas aborrecidas e ele respondeu-lhe "disso sei eu, andei na guerra, vi homens com medo da morte, alguns a caírem pelas balas, e eu tinha responsabilidade diante daquelas mães e daqueles pais"."

Pagava as despesas dos convidados em Belém

O almirante Melo Gomes foi ajudante de campo do general na Presidência da República, apanhando a transição do primeiro para o segundo mandato - António Ramalho Eanes foi eleito em junho de 1976 e reeleito em dezembro de 1980. Conhece-o bem, há muitos anos. O teor da entrevista não o espantou. "Revela toda a sua dimensão ética." Mais: "Foi igual àquilo que sempre foi, nos valores, princípios, solidariedade, patriotismo, amor ao próximo, ao país e aos portugueses."

Melo Gomes lembra-se de entregar ao então Presidente o recibo de ordenado, ainda com os mesmos valores auferidos por Américo Thomaz, dez anos antes. "Ele insistia em pagar todas as contas relativas aos convidados. Um Presidente tem muitos contactos informais e ele não punha essas despesas nas contas do palácio, era ele que pagava."

Ainda sobre os salários, o almirante, que foi chefe do Estado-Maior da Armada, lembra-se de ter chegado a Belém um diploma do governo que aumentava substancialmente o ordenado do Presidente, as também dos ministros e dos deputados. Eanes preferiu ficar a viver com o ordenado que tinha e vetou o diploma.

"A posição ética é uma constância, defende os seus princípios e é absolutamente radical em relação a isso. Lidera pelo exemplo que dá", sublinha Melo Gomes.

"Protagonismo excessivo das forças armadas pode induzir em erro os cidadãos"

Lima Coelho, presidente da Associação Nacional de Sargentos, não se desvia na apreciação que faz. "Ramalho Eanes revelou a essência, os princípios éticos, que sempre pautaram a sua vida."

Só não gostou de o ouvir defender um maior protagonismo dos militares na crise sanitária que atravessamos. "Revelou algum desfasamento da realidade sobre o que são atualmente as forças armadas", afirma, numa referência à escassez de meios.

E é como cidadão que expressa a sua opinião: "Nesta fase que estamos a viver, as forças armadas têm que estar totalmente disponíveis, como estão, mas um protagonismo excessivo nesta fase tão difícil pode induzir em erro os cidadãos e pode levar a um aproveitamento indesejável de várias formas."

Quando Eanes deu a entrevista, foi um militar que falou, ressalva Lima Coelho. Um militar que viveu a Guerra Colonial, a Revolução de Abri e o período pós-revolução. Mas também foi o homem, sobretudo quando afirmou que dispensará o seu ventilador a outros mais novos. "Em momento algum se pode aferir que disse que os velhos não merecem o tratamento. É preocupante essa interpretação excessiva que já vi nas redes sociais."

Em todo o percurso de Ramalho Eanes, Anselmo Borges, por sua vez, faz questão de destacar o papel da mulher, Manuela Eanes. "Complementam-se. Foi um encontro feliz."

No início deste texto falou-se do ar austero do António Ramalho Eanes. O professor de Filosofia tem uma explicação: "Como nas outras pessoas, também no general doutor a ar duro é uma espécie de proteção para a imensa afetividade que têm e do receio de se manifestar. Na entrevista, e também porque estamos a viver uma situação limite, essa proteção caiu."

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