Marcelo elogia Angola, um "portento de força e de futuro"

Presidente português inicia quarta-feira uma visita de Estado a Angola.

O Presidente de Portugal considerou esta sexta-feira que Angola é um "portento de força e de futuro, à escala regional e global", salientando que os dois países vivem um momento "motivador" após "demasiados anos de sensação de compasso de espera".

Numa entrevista ao semanário económico angolano Vanguarda, Marcelo Rebelo de Sousa salienta que a visita de Estado que iniciará formalmente a Angola na quarta-feira demonstra que o trabalho que tem sido feito pelos dois Estados tem resultados "acima das expectativas".

"O que mais importa é que se vive um momento motivador nas relações entre Angola e Portugal, depois de anos, demasiados, de sensação de compasso de espera, de adiamento, de falta de mais próximo contacto", sublinhou Marcelo, destacando o facto de não existirem áreas tabu entre os dois países.

Segundo o chefe de Estado português, a quem os angolanos chamam carinhosamente "Ti Celito", a visita de Estado que vai efetuar a Angola vai simbolizar também o reconhecimento do papel da "notável" comunidade portuguesa presente no país, razão pela qual a deslocação estender-se-á também às províncias de Benguela e da Huíla, onde existe uma forte marca colonial portuguesa.

"A visita [a Benguela e Huíla] corresponde a uma forte vontade minha de não ficar só em Luanda, mas, também, de uma proposta angolana, permitindo abarcar uma visão mais rica e variada desse portento de força e de futuro que é Angola, à escala regional e global. E, nessa realidade, não só cabe como desempenha um papel muito importante a notável comunidade portuguesa dispersa por todo o território angolano", afirmou.

Questionado sobre que áreas se pode dar mais um salto qualitativo na cooperação bilateral, Marcelo respondeu que passam "por todas as que forem possíveis", das sociais às culturais, das económicas às financeiras.

"Não há áreas tabu, como é natural entre amigos e irmãos", acrescentou o Presidente português, salientando que virá a Angola acompanhado por uma "forte" delegação governamental e empresarial.

Sobre a questão da dívida do Estado angolano a empresas portuguesas, um dos temas centrais da visita, Marcelo optou por não se alongar em relação ao tema, garantindo saber que as duas partes estão a trabalhar "muito, depressa e bem".

"Um avanço relevante desde o arranque, há seis meses, passando pela visita presidencial (do chefe de Estado de Angola, João Lourenço a Portugal] de novembro último", sublinhou, garantindo que "ninguém consegue travar a dinâmica" entre os dois povos.

"Há uma cooperação pública e privada em todos os azimutes. E a rápida e eficaz resposta ao dossiê financeiro permite agilizar atuações comuns em ritmo mais rápido no futuro imediato. Com uma ideia central: trabalhar para o crescimento angolano. Depois, há apostas mais a prazo, também económicas, sociais, culturais e administrativas e institucionais. O essencial é que cada visita seja um começo de caminho, não um fim", frisou.

Sobre a Presidência de Angola da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), Marcelo indicou ter "elevadas expectativas", sobretudo no reforço já lançado pela "intensa" liderança de Cabo Verde, um tema que disse constituir um "debate estimulante" em que "nenhuma ideia deve ser excluída".

Em relação à liderança de João Lourenço em Angola, cuja dinâmica é vista internacionalmente como um "comboio em andamento", o presidente português destacou que Portugal estará sempre do lado do desenvolvimento angolano.

"Onde estiver o comboio angolano, aí está Portugal. Onde estiver o comboio português, aí está Angola. Um e outro sempre em posições de destaque", respondeu, considerando, por outro lado, "ser difícil não criar empatia" com João Lourenço e com a "primeira-dama" angolana, Ana Lourenço, cuja relação "anda paredes meias com a amizade".

"Falamos muito à vontade e sobre tudo o que pode ser importante para os dois povos. Só assim nasce a total verdade na compreensão mútua. E muito tenho aprendido com o que oiço e reflito acerca deste importante momento angolano e do fundamental impulso dado pelo senhor Presidente João Lourenço", acrescentou.

Na entrevista ao Vanguarda, feita em Lisboa, e uma vez que Marcelo chegará na terça-feira de Carnaval a Luanda, dia em que João Lourenço completa 65 anos, para cuja celebração foi convidado, uma das perguntas foi se já tinha comprado a prenda de aniversário para o homólogo angolano.

"Para falar a verdade, no momento em que respondo à sua legítima curiosidade, ainda estou a ponderar sobre o que irei oferecer como simbólica mas amiga lembrança pessoal", respondeu, considerando ser "uma boa ideia" a pergunta seguinte da jornalista do Vanguarda sobre se iria aproveitar a visita a Angola para convidar João Lourenço a estar presente no seu próprio aniversário, que se celebra a 12 de dezembro.

"Acaba de me dar uma boa ideia. Mas terei de ver onde para a minha família, que é muito complicada na sua dispersão, dividida entre Portugal, Brasil e China. Que gostava de partilhar o meu aniversário, gostava? Ainda sabendo que 12 de dezembro em Portugal pode ser um gelo chuvoso. Retenho a sugestão e vou trabalhá-la, sempre tendo presente que uma agenda como a do senhor Presidente João Lourenço deve ser um quebra-cabeças maior do que a minha própria agenda?", concluiu.

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