PCP quer estatuto de desgaste rápido para trabalho por turnos e noturno

A proposta inclui "um subsídio de turno que seja no mínimo 25% do salário", a "reforma antecipada para os trabalhadores neste regime" e "um dia de férias por cada três anos de trabalho".

O PCP vai propor a equiparação dos trabalhadores por turnos e em trabalho noturno às profissões de desgaste rápido, incluindo a antecipação da idade da reforma e a fixação de um subsídio e outras medidas de compensação. As propostas foram nesta terça-feira apresentadas pelo líder parlamentar do PCP, João Oliveira, que volta a liderar a lista da CDU (PCP/PEV/ID) por Évora nas legislativas de outubro, durante uma ação de contacto com trabalhadores da fábrica de Évora da multinacional TE Connectivity.

Em declarações à agência Lusa, o candidato comunista frisou que as propostas do PCP "significam uma equiparação às profissões de desgaste rápido, com medidas de compensação dos trabalhadores" por turnos e em trabalho noturno. O trabalho por turnos e à noite, advertiu João Oliveira, implica "não apenas a reorganização da vida pessoal e familiar" dos trabalhadores, mas também os "impactos na sua saúde e nas suas condições de vida".

Nesse sentido, sublinhou, a CDU, coligação liderada pelo PCP, apresenta no seu programa eleitoral para as próximas eleições legislativas, marcadas para 6 de outubro, "propostas em defesa de quem trabalha por turnos ou em trabalho noturno".

O PCP defende "a fixação do período do trabalho noturno entre as 20.00 e as 07.00" e a criação de "um subsídio de turno que seja no mínimo 25% do salário, podendo ser mais por via da contratação coletiva", adiantou.

João Oliveira indicou que os comunistas querem "a consagração do direito à reforma antecipada para os trabalhadores que estão nestes regimes", assim como mais "um dia de férias por cada três anos de trabalho" para quem faz turnos ou trabalho noturno.

O candidato da CDU também defendeu a possibilidade de os trabalhadores, aos 55 anos de idade ou ao fim de 20 anos a trabalhar nestes regimes, saírem "mantendo o direito ao subsídio de turno".

"Defendemos ainda a obrigatoriedade da realização de exames médicos de seis em seis meses, com carácter sigiloso, para proteger a saúde e as condições de trabalho de quem trabalha sujeito a um regime de turnos ou trabalho noturno", acrescentou.

Outra das medidas propostas por João Oliveira passa pela "limitação do trabalho por turnos, ao trabalho noturno e laboração contínua aos setores socialmente impreteríveis nas circunstâncias em que existam necessidades sociais que exijam mesmo o trabalho em regime de laboração contínua".

A fábrica de Évora da multinacional norte-americana TE Connectivity, que produz componentes eletrónicos para a indústria automóvel, celebra neste ano meio século de existência, sendo considerada a maior unidade industrial do Alentejo, com cerca de dois mil trabalhadores.

Exclusivos

Premium

Primeiro-secretário da Área Metropolitana de Lisboa

Carlos Humberto: "Era preciso uma medida disruptiva que trouxesse mais gente ao transporte coletivo"

O novo passe Navegante abriu aos cidadãos da Área Metropolitana de Lisboa a porta de todos os transportes públicos, revolucionando o sistema de utilização dos mesmos. A medida é aplaudida por todos, mas os operadores não estavam preparados para a revolução e agudizaram-se problemas antigos: sobrelotação, tempos de espera, supressão de serviços, degradação de equipamentos.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Berlim, junto aos Himalaias

Há 30 anos exatos, Berlim deixou de ser uma ilha. Vou hoje contar uma história pessoal desse tempo muralhado e insular, num dos mais estimulantes períodos da minha vida. A primeira cena decorre em dezembro de 1972, no Sanatório das Penhas da Saúde, já em decadência. Com 15 anos acabados de fazer, integro um grupo de jovens que vão treinar na neve abundante da serra da Estrela o que aprenderam na teoria sobre escalada na neve e no gelo. A narrativa de um alpinista alemão, dos anos 1920 e 1930, sobre a dureza das altas montanhas, que tirou a vida a muitos dos seus companheiros, causou-me uma forte impressão. A segunda cena decorre em abril de 1988, nos primeiros dias da minha estada em Berlim, no árduo processo de elaboração de uma tese de doutoramento sobre Kant. Tenho o acesso às bibliotecas da Universidade Livre e um quarto alugado numa zona central, na Motzstrasse. Uma rua parcialmente poupada pela Segunda Guerra Mundial, e onde foram filmadas em 1931 algumas das cenas do filme Emílio e os Detectives, baseado no livro de Erich Kästner (1899-1974).Quase ao lado da "minha" casa, viveu Rudolf Steiner (1861-1925), fundador da antroposofia. Foi o meu amigo, filósofo e ecologista, Frieder Otto Wolf, quem me recomendou à família que me acolhe. A concentração no estudo obriga a levantar-me cedo e a voltar tarde a casa. Contudo, no primeiro fim de semana almoço com os meus anfitriões. Os dois adolescentes da família, o Boris e o Philipp, perguntam-me sobre Portugal. Falo no mar, nas praias, e nas montanhas. Arrábida, Sintra, Estrela... O Philipp, distraidamente, diz-me que o seu avô também gostava de montanhas. Cinco minutos depois, chego à conclusão de que estou na casa da filha e dos netos de Paul Bauer (1896-1990), o autor dos textos que me impressionaram em 1972. Eles ficam surpreendidos por eu saber da sua existência. E eu admirado por ele ainda se encontrar vivo. Paul Bauer foi, provavelmente, o maior alpinista alemão de todos os tempos, e um dos pioneiros das grandes montanhas dos Himalaias acima dos 8000 metros. Contudo, não teria êxito em nenhuma das duas grandes montanhas a que almejou. As expedições que chefiou, em 1929 e 1931, ao pico de 8568 metros do Kanchenjunga (hoje, na fronteira entre a Índia e o Nepal) terminaram em perdas humanas. Do mesmo modo, o Nanga Parbat, com os seus 8112 m, seria objeto de várias expedições germânicas marcadas pela tragédia. Dez mortos na expedição chefiada por Willy Merkl, em 1934, e 16 mortos numa avalancha, na primeira expedição comandada por Paul Bauer a essa montanha paquistanesa em 1937. A valentia dos alpinistas alemães não poderia substituir a tecnologia de apoio à escalada que só os anos 50 trariam. Bauer simboliza, à sua maneira, esse culto germânico da vontade, que tanto pode ser admirável, como já foi terrível para a Alemanha, a Europa e o mundo. Este meu longo encontro e convívio com a família de Paul Bauer, roça o inverosímil. Mas a realidade gosta de troçar do cálculo das probabilidades.