Passes sociais. Esquerdas puxam a brasa às respetivas sardinhas

Os três líderes dos partidos da 'geringonça' estiveram hoje na rua a tentar capitalizar a seu favor os novos tarifários dos passes sociais. Direita em silêncio

Disse António Costa: "[Houve] um trabalho notável feito entre os autarcas e o Governo [na definição do passe único na Área Metropolitana de Lisboa]."

Acrescentou Jerónimo de Sousa: "O que ouvi foi o reconhecimento pelo papel e intervenção do PCP neste processo de redução dos passes."

Sublinhou Catarina Martins: "Recentemente foi aprovado no Parlamento, por proposta do Bloco de Esquerda [...] a possibilidade de articulação entre CIM [comunidades intermunicipais] e as áreas metropolitanas, para que viagens que as pessoas fazem pendulares, ou seja, para ir e vir ao trabalho todos os dias, mas que não são dentro só de uma área metropolitana ou só de uma CIM também poderem ter este desconto".

No primeiro dia de aplicação dos novos tarifários dos passes sociais, os três líderes dos partidos da 'geringonça' estiveram em ações de rua a assinalar a medida. António Costa fê-lo como primeiro-ministro e fazendo questão de se rodear de vários autarcas - não necessariamente do seu partido -, para fazer passar a mensagem que a medida resultou de uma ação concertada entre o Governo e o poder local.

O primeiro-ministro viajou entre a Ericeira e Setúbal utilizando os transportes públicos, no dia em que entra em vigor o passe único da Área Metropolitana de Lisboa, e salientou que "o país não pode parar por haver três eleições".

António Costa começou a viagem às 7.30, na Ericeira, concelho de Mafra, e apanhou o autocarro com o presidente da Câmara, o social-democrata Hélder Silva, até ao Campo Grande, partindo depois de metro até à estação de Entrecampos.

Daí, já com os ministros do Ambiente e Infraestruturas, Matos Fernandes e Pedro Nuno Santos, e o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, a comitiva seguiu de comboio até Setúbal. Aqui, Medina anunciou o lançamento de um concurso de 45 milhões de euros para a aquisição de novos elétricos, salientando que em março foram vendidos mais 70 mil passes Navegante que há um ano.

"À crítica dos que respondem que não teremos oferta para responder à procura, a resposta é que os autarcas, em parceria com o Governo, estamos a aumentar a oferta", afirmou, numa "alfinetada" às críticas com origem no PSD e no CDS.

Questionado sobre as críticas de eleitoralismo feitas pela oposição em relação à medida, António Costa salientou que "esta foi uma semente lançada há muito tempo", e que arrancou em março do ano passado numa cimeira entre o Governo e as Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto.

"Agora não faz sentido é parar o país porque vamos três eleições, porque senão o país não fazia mais nada este ano", defendeu.

Jerónimo de Sousa, líder do PCP, fez uma viagem de comboio na linha de Sintra, entre a Portela e o Rossio.

O líder comunista foi - comparando com Costa e Catarina Martins - o mais explicito a puxar a brasa à sua sardinha nos méritos da medida.

"Uma medida desta envergadura precisava de investimento orçamental. O Governo apresentou uma proposta que rondava os 80 milhões de euros. Por iniciativa do PCP, no quadro da discussão do Orçamento do Estado, conseguimos 104 milhões de euros, além da comparticipação das autarquias, para que esta medida não seja mais uma que fique no papel, mas esteja a ser concretizada, como se viu nesta viagem e nos transmitiram de que há filas imensas à procura do novo passe", disse.

Jerónimo de Sousa frisou "o papel e intervenção do PCP" no processo e vincou que depois deste "passo decisivo" e "medida de grande envergadura" é necessário reforçar a oferta e a qualidade dos transportes públicos.

"Mesmo no plano ambiental e ecológico, isto é um passo de grande significado, que leva à tal incredulidade de algumas pessoas que não acreditavam. Como diz o nosso povo, 'quando a esmola é grande o pobre desconfia'. Creio que, neste caso, o pobre não deve desconfiar porque é verdade que vai haver esta redução dos preços dos passes."

Já Catarina Martins esteve na esteve no interface do Cais do Sodré (Metro, ferrovia e cacilheiros), em Lisboa a explicar aos utentes como funciona esta redução do tarifário e o que é preciso fazer para o efetivar.

"Nós precisamos de mais barcos, de mais metros, de mais autocarros, de mais comboios a funcionar, para responder a uma procura que nós esperamos que seja crescente, porque o transporte coletivo é aquele que faz melhor à carteira de cada família", notou a deputada, acrescentando que "um passe mais barato é mais salário e mais pensão ao fim do mês, é o melhor para a organização das cidades e é, definitivamente, o passe" necessário "para o ambiente e para combater as alterações climáticas".

Catarina Martins lembrou, porém, que já começou a ser trilhado um caminho neste sentido. "A primeira coisa que foi feita nesta legislatura foi reverter as privatizações dos transportes coletivos de Lisboa e Porto, foi muito importante, houve o investimento."

Também em Lisboa, o acordo assinado (após as últimas eleições autárquicas) entre o Partido Socialista e o Bloco de Esquerda para governação da cidade, assinala "expressamente mais autocarros para a Carris", afirmou a responsável, vincando que "existem, têm sido repostos".

Apontando ser necessário "fazer mais esforço", Catarina Martins salientou que também o BE tem feito a sua parte. "Temos apresentado no parlamento várias propostas sobre o aumento do investimento, nomeadamente na ferrovia."

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