Marcelo dramatiza pandemia, mas trava radicalização social

Presidente da República anunciou segundo estado de emergência e admitiu que poderá haver renovações entre dezembro e primeiros meses do ano. "Não vamos baixar os braços", disse

Num momento em que se adensam as críticas à gestão da pandemia e em que os partidos estão mais divididos, o Presidente da República justificou nesta sexta-feira (20) a renovação do estado de emergência dramatizando a evolução das infeções, internados, cuidados intensivos e mortos no país. Marcelo Rebelo de Sousa procurou ainda ainda travar a radicalização social contra as medidas, censurando mesmo a "violência física" entre pessoas pró e contra o confinamento.

A todos, em particular aos partidos que não quiseram dar o "sim" à renovação do estado de emergência, que apenas foi aprovado pelo PS, PSD e pela ex-deputado do PAN Cristina Rodrigues, foi taxativo: "Que ninguém se iluda, não hesitarei em propô-las (as renovações) para que o Governo disponha de base suficiente para aprovar o que tiver de ser aprovado". E deste estado de emergência que acabava de decretar, das 00h00 do dia 24 de novembro às 23h59 de 8 de dezembro, admitiu que poderá ser decretado novo período "de 9 a 23 de dezembro, ou mesmo mais renovações posteriores", deixando implícito que estas medidas podem prolongar-se pelo Natal e Ano Novo.

O que temos de dar como certo é que "o estado de emergência dure o que for necessário no combate à pandemia".

A determinação presidencial foi explicada com a evolução da pandemia. "Apesar de sinais de ligeira descida do indicador de propagação do vírus e de desaceleração do crescimento dos casos em concelhos em que se interveio há mais tempo, sobe o número de mortes, o número de cuidados intensivos, o número de internados em geral e poderá atingir o nível máximo no final de novembro e início de dezembro", afirmou Marcelo.

E os especialistas confirmaram que "as medidas demoram cada vez mais a produzir efeitos e quanto mais tarde forem tomadas menos eficazes serão e mais tempo terão de durar".

"A medidas demoram cada vez mais a produzir efeitos e quanto mais tarde forem tomadas menos eficazes serão e mais tempo terão de durar"

Já a fazer a ponte para as decisões que serão tomadas em Conselho de Ministros este sábado, em que poderão ser criados três níveis de gravidade nos concelhos, Marcelo assegurou que "dispomos agora de dados mais específicos sobre os casos que permitem juntar às medidas globais medidas ajustadas à situação de grupos de concelhos com graus de gravidade na sua incidência, na gravidade da pandemia".

O Presidente da República insistiu que é provável que a terceira vaga possa ocorrer entre janeiro e fevereiro. "E será tanto maior quanto maior for o número de casos um mês antes".

É neste sentido que defendeu a importância de "conter fortemente" o processo pandémico, mesmo que aparentemente os índices de contágio possam abrandar.

Marcelo Rebelo de Sousa fez seu o pensamento dos portugueses e dos responsáveis políticos sobre a "brutal pressão que existe sobre o Serviço Nacional de Saúde e mesmo o sistema nacional de saúde em geral".

A pressão, disse, "que vai aumentar nos próximos dias e semanas e que cumpre evitar que culmine em situações críticas generalizadas". Voltou a insistir na ideia de que a pandemia tem de ser controlada em dezembro e nos primeiros meses de 2021.

"Porque há duas realidades evidentes: a vacina que tem de ser para todos os que a desejarem e, outra, atingir situações críticas generalizadas nas nossas estruturas de saúde será dramático para os doentes covid e para os muitos mais doentes não covid", disse.

Municiou-se de argumentos para desmontar os críticos das medidas mais restritivas. "Mesmo aqueles que por primazia à economia e à sociedade, por qualquer outra razão não entendam, não aceitem o eco mundial e nacional da covid-19 terão de admitir que há de facto internados e cuidados intensivos covid-19 que têm direito à vida e à saúde. E que há doentes não covid-19 que têm exatamente os mesmo direitos à vida e à saúde que os primeiros".

"Há tempo para demarcar os campos e para julgar os responsáveis, este não é ainda o tempo, as eleições são para isso"

Marcelo afirmou que é possível casar as medidas mais duras com o funcionamento da economia e da cultura e pediu que não haja divisões entre os que defendem a saúde em detrimento das outras duas e vice-versa.

Após algumas manifestações contra as medidas, entre as quais a promovida em Lisboa por empresários da restauração, e em que existiu alguma animosidade contra jornalistas, Marcelo Rebelo de Sousa sentiu necessidade de fazer outro apelo. A de que se "recuse a violência física na discussão democrática" e que os partidos e parceiros sociais continuem a convergir.

"Há tempo para demarcar os campos e para julgar os responsáveis, este não é ainda o tempo, as eleições são para isso", disse. Esta mensagem também foi dirigida aos partidos, sobretudo aos da oposição que têm vindo a criticar o governo e a Direção-Geral da Saúde pela gestão da pandemia nesta segunda vaga.

"Claro que há portugueses e são muitos que criticam o que entendem ser omissões, avanços, zigue-zagues sobre o controlo da pandemia. Critica-se tudo o que vier ser ou mal explicado", admitiu Marcelo. E reconheceu que quem perdeu o trabalho, o salário ou veja a empresa "afogada" esteja nesta situação.

"Claro que há portugueses e são muitos que criticam o que entendem ser omissões, avanços, zigue-zagues sobre o controlo da pandemia. Critica-se tudo o que vier ser ou mal explicado"

Tal como sabe que "cada renovação do estado de emergência motiva críticas dos partidos e parceiros sociais", mas lembrou que nestes nove meses, que "são uma eternidade" para os portugueses, "há os que sofrem na 1.ª classe, outros na 2.ª e outros nos porões".

"Vamos baixar agora os braços? Ou porque é imprevisível a evolução da pandemia? Ou porque os que com ela lidam, comigo na primeira linha, não correspondem ao que deles se espera?" - questionou o Presidente da República, na comunicação ao país, a partir de Belém. E deu a resposta: "Não vamos renunciar nem baixar os braços!"

Respaldado pela renovação do estado de emergência, o Conselho de Ministros pode tomar as medidas que considerar necessárias à contenção da pandemia nesta segunda vaga. Os ministros estiveram reunidos durante toda a tarde de sexta-feira e só concluem os trabalhos este sábado, quando António Costa disser aos portugueses o que os espera nestes próximos quinze dias.

Durante a semana, o governo tentou estancar as notícias que foram saindo sobre medidas avulsas, como as dos três níveis de gravidade nos concelhos para acolher medidas diferenciadas ou ainda a possibilidade de as universidades terem que voltar ao ensino à distancia. "Especulações", garantiu o governo.

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