"Portugal deve ter Museu da Guerra do Ultramar onde a história se conte sem vergonha"

Singularidade da guerra colonial portuguesa em África (1961-1974) e a importância do turismo militar em Portugal são argumentos do tenente-coronel Miguel Machado a favor desta proposta.

A natureza única da guerra colonial travada por Portugal, com um milhão de soldados durante 13 anos em três teatros de operações simultâneos e que terminou após um golpe militar na capital do império, justifica a existência de um museu dedicado a esse conflito, afirma o tenente-coronel paraquedista Miguel Machado ao DN.

Miguel Machado, oficial na reforma que há dias propôs a criação de um Museu da Guerra do Ultramar, sustenta que "preservar a história" desse período "é honrar o valor do soldado português".

Mas porquê guerra do Ultramar e não colonial, quando as Forças Armadas lutavam contra movimentos de libertação? Miguel Machado, diretor do site especializado Operacional, argumenta que isso "traduz a realidade dos factos": por um lado, "na época era essa a designação" - dada pelo Estado Novo - às antigas colónias; por outro, "o próprio monumento de Belém é dedicado 'Aos Combatentes da Guerra do Ultramar'."

Visitante frequente de museus militares estrangeiros, com particular destaque para os europeus, Miguel Machado considera que a crescente aposta no turismo militar português - que noutros países tem forte expressão - representa uma oportunidade de contar "a história do que foi o esforço nacional" na guerra colonial, dos três ramos mas também das forças policiais e, porque não, a atividade diplomática" de Lisboa.

Esse conflito "foi um caso único" pois França ou Reino Unido, por exemplo, "não tiveram uma guerra nas suas possessões ultramarinas. Tiveram várias guerras em várias épocas", assinala o militar, que propôs a criação do referido museu num artigo sobre a forma como os principais museus militares - dos três ramos das Forças Armadas e da Liga dos Combatentes - sedeados em Lisboa retratam esse período (1961-1974).

Essa guerra "é uma originalidade portuguesa" face às características que teve, insiste Miguel Machado, até por ter terminado quase ao mesmo tempo nos três teatros de operações "devido a um golpe militar na capital do Império e as suas consequências". Esse "é um dos factos que torna a nossa guerra ainda mais importante", enfatiza o paraquedista.

"Ainda há muita memória que pode ser contada, muitos equipamentos guardados que podem ser expostos [e] antes que seja tarde demais, que não haja um único expedicionário vivo e antes que os materiais se percam todos", uma vez que "o tempo não para". Daí a necessidade de criar as condições para avançar com um projeto que, a exemplo de outros países, deve poder beneficiar de fundos comunitários, refere o oficial.

"Portugal deve ter um espaço onde esta história seja contada com orgulho, sem vergonha, como contamos a história de La Lys ou de Chaimite, ou de Goa ou de qualquer outra guerra. É isso que se faz nos museus militares em qualquer parte do mundo", enfatiza o tenente-coronel paraquedista, lembrando "o que se fez, e bem, para comemorar a 1.ª Guerra Mundial".

"Nunca se tinha feito tanto, agora até já nem havia um único desses combatentes para serem homenageados, mas foram livros, exposições, filmes, uma parada militar de enorme dimensão... Não é melhor fazer isto quando ainda há gente viva, quando ainda se conseguem recolher equipamentos e documentos? Não se vê o que tem sido feito por essa Europa para homenagear, honrar os ainda sobreviventes da 2.ª Guerra Mundial? Só na Normandia há mais de 20 museus dedicados a esta enorme batalha!", exclama Miguel Machado.

Machado diz já ter recebido múltiplas mensagens de apoio pela proposta feita, incluindo "até de pessoas ligadas à área museológica militar". Contudo, reconhece que a nível oficial "poderá haver alguma dificuldade em assumir este desígnio" devido ao peso político de partidos como o BE e o PCP.

Agora, "nada é impossível. O Monumento aos Combatentes do Ultramar que está em Belém também demorou anos a ser aceite, os promotores da iniciativa eram acusados de tudo, mas hoje está lá e até foi inaugurado pelo presidente Mário Soares, um conhecido opositor do Estado Novo e da Guerra do Ultramar. Tenhamos esperança que o peso da história e da memória do milhão de portugueses que combateu em África se imponha e quanto antes", acrescenta o tenente-coronel paraquedista.

Ainda sobre eventuais polémicas em torno dos termos a utilizar, como se viu em 2018 por causa da proposta de criar um Museu das Descobertas ou nas últimas semanas em torno de um 'Museu Salazar', em Santa Comba Dão, Miguel Machado desvaloriza-as. "As designações dos exércitos ou das guerrilhas devem ser as que eles usavam na época. Se o Exército era 'português', é assim que deve ser tratado e não por 'colonial'."

Machado invoca outro exemplo. "Se um dos nossos inimigos de então se designava 'Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde' e se nos combatiam com os seus 'guerrilheiros', assim devem ser tratados e não por 'terroristas' ou 'bandidos'. Tem que haver respeito de parte a parte, mas com verdade. O museu é para lembrar e honrar os militares portugueses que combateram, o esforço de todo um país, não é necessário ofender ninguém para isso, mas também não nos devemos autoflagelar!"

O Museu Nacional de História Militar de Angola, que visitou em Luanda, vem igualmente à memória: "Não me senti ofendido. Naturalmente têm a sua visão da guerra, que não terá que ser a nossa. Éramos de facto inimigos na altura, hoje somos parceiros na CPLP. Vi lá material de guerra português identificado como 'usado pelo Exército Português', sem qualquer carga politica ou negativa. É factual", destaca o diretor do Operacional.

A concluir, o tenente-coronel - membro do primeiro contingente militar que em 1996 interveio na Bósnia e marcou o regresso das Forças Armadas aos teatros de operações europeus após a Grande Guerra - lembra ao DN ainda que "ainda hoje se entregam, em cerimónias, militares medalhas devidas desses tempos aos antigos combatentes, hoje civis".

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