Joacine não abdica de lugar no Parlamento: "Eu nasci para estar ali. Eu vou continuar ali"

Deputada que viu o Livre retirar-lhe a confiança política marcou presença no protesto contra o racismo e a violência policial, em Lisboa, e deixou aviso: "Eu não vou permitir que ninguém me diga que eu não estou onde devia estar"

Foi uma espécie de comício para quem quis ouvir. Joacine Katar Moreira, eleita pelas listas do Livre mas agora em choque com o partido, marcou presença na manifestação deste sábado contra o racismo e a violência policial, em apoio à portuguesa de origem angolana Cláudia Simões que se queixou de agressão por parte de um polícia na Amadora. E a deputada, agora independente, aproveitou a ocasião para falar da sua situação e deixar uma garantia: não vai abdicar do seu lugar na Assembleia da República.

"Eu não vou permitir que ninguém me diga que eu não estou onde devia estar. Eu nasci para estar ali. Eu nasci para estar ali. E vou continuar ali. Eu não me imagino em mais sítio nenhum hoje. Lamento muito", disse Joacine, rodeada por dezenas de apoiantes, entusiasmados pela intervenção da deputada.

Numa intervenção empolgada e fluente no discurso, Joacine Katar Moreira, cuja gaguez é um dos traços que mais comentários gerou aquando da sua eleição para o Parlamento, aproveitou essa caraterística pessoal para reforçar o aviso: "Eu adoro estar aqui porque a minha gaguez desaparece. Mas enquanto a minha gaguez não desaparecer na Assembleia não saio de lá também", vincou, durante o discurso que partilhou na sua página no Facebook.

Joacine falou também do comentário do líder do Chega, e deputado, André Ventura, que sugeriu "devolver Joacine" ao seu país de origem [Guiné-Bissau] em reação à proposta da deputada sobre a devolução de património cultural às ex-colónias. "Nós temos de garantir que nenhum racista se sente demasiado à vontade. Foi para isso ou não foi que se fez a revolução do 25 de abril? Foi ou não foi? Para que os fascistas ficassem inquietos, desconfortáveis, calados... Foi ou não foi? E então? E agora é normal os fascistas falarem? Os fascistas mandarem-me para a minha terra? É normal este ódio, esta desinformação, este racismo institucional?"

Aproveitando o mote, a deputada a quem o Livre retirou a confiança política na passada quinta-feira virou-se também para o seu espetro político. "Nós vivemos numa sociedade que reclama ser antifascista, mas queremos que a mesma sociedade se declare antirracista. Não há antifascismo sem antirracismo. E isto é para a esquerda também, não só para a direita. Porque se a esquerda reclama ser antifascista, ela tem de ser também antirracista", vincou Joacine.

Apontando Cláudia Simões como "um exemplo de como não podemos ficar sossegados", a deputada finalizou com a promessa de continuar o seu trabalho na Assembleia da República: "Vamos continuar a trabalhar, com confiança de uns e desconfiança de outros. A mim interessa-me quam confia em mim. A mim interessa quem votou em mim, quem torce por mim, e estar a defender aquilo por que fui eleita".

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