Trump em Portugal? Os encontros e desencontros com Marcelo

A confirmar-se, será a primeira visita de Estado de um presidente norte-americano em 34 anos. O único encontro a dois entre os homólogos ficou marcado pelo "puxão" de Marcelo durante o aperto de mão

O presidente norte-americano poderá fazer uma visita de Estado a Portugal já em agosto, avançou esta sexta-feira a TVI, dizendo que esta viagem é "muito provável". O DN apurou que estão a ser tratados os pormenores e que estão a ser feitas reservas em hotéis de Lisboa entre 20 e 25 de agosto. Fonte oficial da chefia da diplomacia portuguesa limita-se a dizer que "o Ministério dos Negócios Estrangeiros considera prematuro fazer comentários sobre esse assunto."

A confirmar-se, será a primeira visita de Estado de um presidente norte-americano em 34 anos. O último foi Ronald Reagan, que esteve em Lisboa entre 8 e 10 de maio de 1985, tendo tido encontros com o então presidente Ramalho Eanes e o primeiro-ministro Mário Soares e discursado no Parlamento. Bill Clinton passou por cá em 2000 para a cimeira EUA-União Europeia, George W. Bush esteve na famosa cimeira das Lajes, em 2003, quando se discutiu a invasão do Iraque, e Barack Obama veio para a Cimeira da NATO e o encontro EUA-UE em 2010, tendo também feito uma escala técnica nas Lajes, em 2016.

Se vier a Portugal, Trump terá também na agenda um encontro com Marcelo, mas não será a primeira vez que os dois se vão cruzar.

O "puxão" e a "lição de história" na Casa Branca

Trump já recebeu Marcelo na Casa Branca, a 27 de junho de 2018, tendo publicado na altura um vídeo do encontro no Twitter. "Hoje, tive a honra de receber o presidente Marcelo Rebelo de Sousa de Portugal na Casa Branca", escreveu.

De fora do vídeo ficou contudo "a lição de história" de Marcelo a Trump ou o "puxão" durante o aperto de mão que correu o mundo.
O presidente norte-americano ficou conhecido por surpreender outros chefes de Estado com apertos de mão constrangedores, mas Marcelo estava preparado quando foi recebido nas escadas de acesso à Casa Branca e puxou-o com força para junto de si.

No início da conversa, na Sala Oval, o presidente português falou de Cristiano Ronaldo. "Portugal tem o melhor jogador do mundo", disse. Trump explicou que o filho mais novo, Barron, que gosta de jogar futebol e sabe tudo sobre o desporto e, ao seu estilo, perguntou a Marcelo se este não receava que o futebolista possa concorrer contra ele à Presidência da República. O presidente respondeu que, nestas matérias, Portugal "é um pouco diferente" dos EUA. "Portugal não são os Estados Unidos da América."

O presidente português também passou a Trump os cumprimentos do homólogo russo, Vladimir Putin, com quem se tinha encontrado dias antes em Moscovo, mas abanou a cabeça -- numa linguagem corporal que depois admitiu perante os jornalistas portugueses poder ter sido "excessiva" -- quando o líder norte-americano disse que acreditava em "fronteiras fortes para diminuir a criminalidade".

Depois de Trump lembrar que a "relação tremenda" entre os EUA e Portugal data de há muito tempo e "nunca foi tão boa como é hoje", Marcelo lembrou como Portugal foi o primeiro país neutral a reconhecer "numa decisão corajosa" a independência dos EUA, apesar da aliança que tinha com a Inglaterra. A aula de Marcelo continuou lembrando como os pais fundadores dos EUA brindaram à independência com vinho Madeira.

Os dois presidentes sublinharam com números coincidentes o peso e a relevância da comunidade emigrante portuguesa nos EUA: cerca de um milhão e meio de pessoas. E Marcelo fez questão de recordar a Trump as bases em que a relação entre os dois países assenta, os seus "valores comuns": "Democracia, liberdade, o Estado de direito, os direitos humanos."

Depois do encontro à porta fechada, Marcelo disse que este foi "caloroso do início ao fim" e que "não houve nada de relevante, daquilo que é convergente e daquilo que é divergente, que não fosse falado". Ou seja: houve das duas partes "disponibilidade não apenas para falar mas para ouvir", e "o mesmo calor que houve na parte afirmativa de convergência, houve na parte de existência de divergências", sendo a política de imigração ema delas. "Sempre que eu tenho oportunidade de explicar porque é que Portugal acolhe imigrantes, explico. E aproveito para fazer pedagogia, para explicar como é a realidade portuguesa", referiu Marcelo, acrescentando: "Nenhum encontro é exceção a esta prática que eu adoto sempre."

A defesa do multiculturalismo na ONU

Em setembro de 2018, na Assembleia Geral das Nações Unidas, Marcelo fez um discurso de defesa do multiculturalismo, precisamente a ideia oposta à expressa na véspera pelo presidente norte-americano naquele mesmo palanque.

"Temos de proteger a nossa soberania e a nossa querida independência acima de tudo", defendeu Trump, na ONU, garantindo: "Vamos escolher um futuro de patriotismo, prosperidade e orgulho, de liberdade frente ao domínio e à derrota".

Um dia depois, Marcelo defendia o contrário: "Multilateralismo reforçado sempre. Por isso não compreendemos o unilateralismo, o desinvestimento nas instituições, correndo o risco de se repetirem os erros de há cem anos." O verdadeiro patriotismo é o que se completa com o cosmopolitismo. Portugal entende que o multilateralismo é a única via. Visões de curto prazo, por muito apelativas que pareçam ser, constituem o fogo-fátuo que não resolverão os problemas do mundo", acrescentou Marcelo, que admitiu que não aplaudiu o discurso de Trump

No discurso o presidente português defendeu ainda a política de acolhimento a migrantes e refugiados, o português como língua oficial da ONU e falou na defesa dos oceanos. Antes de falar na Assembleia Geral da ONU, Marcelo comprou o livro Medo: Trump na Casa Branca, do jornalista Bob Woodward, que revela os bastidores da atual presidência dos EUA e foi criticado pelo próprio Trump.

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