Rui Rio recusa desafio de Montenegro para "diretas já" e Marcelo resolve intervir

A situação interna no PSD será clarificada mas no Conselho Nacional e não pela convocação de toda a base militante para uma disputa da liderança. Marcelo preocupado com a situação interna no partido que liderou de 1996 a 1999.

Neste momento é Rui Rio quem tem a decisão para tomar. Ele, exclusivamente ele: ou aceita o repto de Luís Montenegro e desencadeia internamente um processo de "diretas já" ou recusa e deixa para o Conselho Nacional (CN) do partido a clarificação da situação interna.

Fontes do PSD asseguraram ao DN que o presidente do partido vai recusar o desafio que ontem lhe foi lançado pelo ex-líder parlamentar do partido. "Rui Rio não alinha em foguetes", disse uma das fontes. Não deverá fazer uma declaração formal de resposta a Montenegro - o mais provável é que fale respondendo a perguntas dos jornalistas.

Seja como for, poderá estar a caminho um processo de clarificação interna. Rio e a sua direção dizem que ela deverá ocorrer no Conselho Nacional (CN) do partido. Esse é também, segundo o DN apurou, o sentimento maioritário na equipa que o acompanha na direção do PSD.

A oposição interna já mandou dizer que tem assinaturas para conseguir uma convocação potestativa (à força) de uma reunião extraordinária do CN do PSD (que é na prática o "parlamento" do partido, onde todas as fações estão representadas em função do seu peso eleitoral interno). E quer nessa eventual reunião pôr na agenda uma moção de censura à Comissão Política Nacional (CPN, o órgão de direção executiva do partido, que Rio preside).

O que resta saber é se, reunindo-se o CN com esse ponto na agenda, existem os votos para conseguir a aprovação da tal moção de censura. Sendo que, como recordam ao DN membros da direção do partido, uma destituição da CPN não implica em si mesmo uma destituição do líder do partido (porque a CPN foi eleita em congresso e o líder o foi num universo mais alargado, em eleições diretas, ou seja, num sufrágio para o qual foram convocados todos os militantes do partido em condições estatutárias de votarem).

No entender de um dos interlocutores do DN, Montenegro, ao dar prioridade à ideia de que deve ser o próprio Rio a desencadear as eleições internas, está a dar "um sinal de fraqueza" (porque não tem a certeza de que na CN a oposição interna será maioritária). "É bluff" ou "um tiro de pólvora seca" e por isso o ex-líder parlamentar do PSD - que a partir de ontem se tornou assumidamente candidato a presidente do partido contra Rui Rio - "ou bebe a taça toda até ao fim ou fica a falar sozinho". Dito de outra forma: ou tenta o afastamento do líder por votação no CN ou não terá "diretas já".

Face ao avanço de Montenegro, a direção do PSD manifestou-se publicamente apenas através de uma das vice-presidentes do partido, Isabel Meirelles. Esta fez ontem duas declarações à Lusa, uma antes de Montenegro falar e outra depois - e salientando sempre estar apenas a expressar a sua opinião pessoal, não querendo vincular a direção do partido e "muito menos" Rui Rio.

Na primeira declaração, disse que o que está em causa é uma tentativa de "golpe de Estado no PSD". "O Dr. Rui Rio foi eleito por 22 500 militantes, com 54% dos votos. Entretanto, desde há cerca de um ano entraram seis mil novos militantes. Aquilo que se está a pretender fazer é um golpe de Estado no PSD." Ao mesmo tempo, já antecipava a recusa de "diretas já": "Nós cumprimos os estatutos e, portanto, tudo aquilo que for feito vai ser feito segundo os estatutos do PSD. Vamos segui-los à risca, é isso em que se baseia um dos princípios do Estado de direito e dos partidos que funcionam como tal, que é cumprir o princípio da legalidade. Portanto, os estatutos têm de ser respeitados."

Na segunda declaração, reforçava o seu argumentário de recusa do desafio de Montenegro criticando-lhe o "tom de vacuidade, politiqueiro, de quem só diz mal". Ou seja: "O único argumento de peso que aqui foi apresentado foi a queda das sondagens. Ora isto não é fundamento em sítio nenhum senão Rui Rio nunca tinha sido eleito por três vezes presidente da Câmara do Porto, não tinha ganho as diretas e nem sequer o doutor Passos Coelho teria alguma vez ganho as últimas eleições legislativas."

As razões de Montenegro

O ex-líder parlamentar assentou num diagnóstico devastador da situação interna no PSD o argumentário com que justificou, ontem à tarde, numa sala do CCB, a decisão de se candidatar a presidente do partido e o desafio para que Rio convoque "já" eleições internas.

No seu entender, "o estado a que chegou o PSD é mau, é preocupante e é irreversível" com a atual liderança. "Se nada for feito, o PSD corre o risco de ter uma derrota humilhante", que até poderá "pôr em causa a sua sobrevivência como grande partido". Portanto, é preciso salvar o partido do "caminho para o abismo em que está a mergulhar". "Já não estamos numa situação normal. Há um ano ninguém imaginava a brutal degradação do PSD", enfatizou.

Para Montenegro, Rui Rio - que desafiou a recandidatar-se - tem sido apenas uma "muleta" do atual primeiro-ministro. "Estou aqui para ser o adversário que António Costa não tem tido", disse ainda, explicando que decidiu avançar porque "é mais leal pôr tudo em pratos limpos". "Sou um homem totalmente livre, de bem com a vida. Estou aqui porque quero estar e porque sinto que devo estar."

Dentro da oposição interna a Rui Rio, o avanço de Montenegro foi elogiado - por exemplo, pela ex-ministra da Justiça Paula Teixeira da Cruz -, mas também foi censurado. Carlos Carreiras (presidente da Câmara de Cascais e ex-vice-presidente de Passos Coelho no PSD), Miguel Pinto Luz (ex-presidente da distrital de Lisboa do partido e putativo candidato à liderança) e José Eduardo Martins (outro putativo candidato à liderança) criticaram a iniciativa do ex-líder parlamentar argumentando que Rui Rio deve levar o seu mandato até ao fim, representando o PSD nas eleições legislativas (outubro).

Marcelo mete-se ao barulho

Quem não resistiu a envolver-se no problema foi o Presidente da República. Ontem à noite, Marcelo Rebelo de Sousa reuniu-se - a seu pedido - com Rui Rio num hotel do Porto. Reunião à porta fechada, naturalmente - mas cuja existência foi revelada (pela TSF, no caso).

Na quinta-feira, comentando a notícia - nessa altura já confirmada - de que Montenegro se preparava para avançar, o Presidente da República já dava sinais bem claros da sua preocupação com a agitação interna no partido (que liderou entre 1996 e 1999).

À saída de uma iniciativa na Gulbenkian, o PR começou pelo óbvio, dizendo que "não se pronuncia sobre a situação interna de nenhum partido e, portanto, não abre uma exceção" para comentar "aquilo que é próprio da vida partidária, ou da vida sindical, ou da vida patronal".

Porém, logo a seguir acrescentou: "Eu o que sempre disse, em abstrato, e mantenho, foi que é bom haver uma área do governo forte e uma oposição ou oposições fortes, isso é bom, e haver alternativas de poder."

Segundo Marcelo, isso "é bom para a democracia e é bom para um Presidente da República, porque quanto mais alternativas houver em termos de governação e de poder, naturalmente, mais escolha têm os portugueses e mais fácil é resolver situações de crise". Enfim: "Isto é em geral assim. Em concreto, em cada momento, o que se passa no sistema político português é aquilo que resulta da vivência da democracia. E o Presidente da República tem uma posição arbitral e tem de ter uma posição arbitral, não se pronuncia sobre a situação no partido A, B, C, D."

Para parecer equidistante, Marcelo reunir-se-á também com Luís Montenegro (na segunda-feira).

A reunião entre Rio e o PR acabou com o líder do PSD a dizer aos jornalistas que "em breve" responderá a Luís Montenegro mas não o fará "a correr" porque agora é mais "corredor de fundo e meio-fundo", "aos 20 anos é que corria os cem metros". Seja como for, assegurou que não vai "fazer de conta que nada se está a passar" porque isso seria "uma hipocrisia". Hoje Rio estará em Coimbra numa reunião, à porta fechada, do Conselho Estratégico Nacional do partido.

Quem se posicionou do lado de Montenegro foi Sofia Vala Rocha, vereadora em regime de substituição em Lisboa, que afirmou ao DN que "não é de ânimo leve que um militante do PSD faz o diagnóstico que Luís Montenegro fez" na sua declaração de sexta-feira.

"Concordo com o diagnóstico por ele feito. O PSD não só apresenta intenções de voto baixas, como apresenta valores a rondar os 10% nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. E é justamente aqui que se tem de afirmar e ganhar. Ser um partido urbano", justificou. "Por outro lado, o PSD deixou de fazer oposição severa à esquerda. De tal forma, que apesar do estado calamitoso do país, não é visto como alternativa ao PS", defendeu, apontando que "faz sentido" o repto feito por Montenegro "para que haja eleições no PSD".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Adriano Moreira

O relatório do Conselho de Segurança

A Carta das Nações Unidas estabelece uma distinção entre a força do poder e o poder da palavra, em que o primeiro tem visibilidade na organização e competências do Conselho de Segurança, que toma decisões obrigatórias, e o segundo na Assembleia Geral que sobretudo vota orientações. Tem acontecido, e ganhou visibilidade no ano findo, que o secretário-geral, como mais alto funcionário da ONU e intervenções nas reuniões de todos os Conselhos, é muitas vezes a única voz que exprime o pensamento da organização sobre as questões mundiais, a chamar as atenções dos jovens e organizações internacionais, públicas e privadas, para a necessidade de fortalecer ou impedir a debilidade das intervenções sustentadoras dos objetivos da ONU.