Fatura energética. Bloqueio nas negociações entre BE e Governo

Governo recusa taxa mínima do IVA para contadores com potência contratada acima de 3,45 kVA, que só dão para casas unipessoais.

O Governo pretende aplicar a taxa reduzida do IVA, de 6%, à componente fixa do fornecimento de eletricidade e gás natural aos consumidores com potência contratada mais baixa, como famílias e serviços (de 3,45 kVA).

A proposta de Orçamento do Estado para 2019 (OE2019) prevê, por isso, uma autorização legislativa para o Governo "alterar a Lista I anexa ao Código do IVA no sentido de permitir a tributação à taxa reduzida de IVA da componente fixa dos fornecimentos de eletricidade e de gás natural correspondente, respetivamente, a uma potência contratada que não ultrapasse 3,45 kVA [Kilovoltampere] e a consumos em baixa pressão que não ultrapassem os 10.000 m3 [metros cúbicos] anuais".

Falando sobre esta medida numa audição conjunta das comissões de Economia e de Ambiente, no âmbito da apreciação na especialidade da proposta de OE2019, hoje no parlamento, o deputado bloquista Jorge Costa sustentou que "o facto de o Governo ter limitado a 3,45 kVA" só faz com que a redução "chegue a dois milhões de famílias".

"É uma medida muito limitada e é errado que a diferenciação seja feita nestes termos", vincou.

Por isso, questionou "se o Governo está disponível para fazer uma alteração para os consumidores, fazendo que os que têm uma potência contratada de 6,9 kVA", a "que é usada no país em maior escala", sejam "abrangidos por este desconto".

Lembrando que reduzir o IVA na eletricidade é uma "ambição antiga", Jorge Costa apontou que "seria desejável" consegui-lo este ano.

Em resposta, o ministro do Ambiente e da Transição Energética, João Pedro Matos Fernandes, referiu que "a proposta que o Governo fez do IVA é uma proposta que já permite que um número muito expressivo de famílias dele [do desconto] possam beneficiar".

O governante acrescentou que a medida poderá, também, "levar cada uma das famílias a pensarem se não podem contratar uma potência mais baixa, que sirva as suas necessidades", que seja "um bom exemplo de eficiência energética".

Intervindo no debate, o deputado social-democrata considerou que a potência máxima abrangida pelo desconto, de 3,45 kVA, é "como viver só com pão e água".

"Recomendo colocarem em vossas casas esta potência para verem se conseguem", desafiou, notando que esta potência apenas permite ter a funcionar em simultâneo, um frigorífico, uma máquina de lavar, uma televisão e um computador.

De acordo com a proposta de OE2019, a nova taxa - atualmente é de 23% - será aplicada à parte de montante certo da contrapartida devida pelos fornecimentos de eletricidade e gás natural paga pela adesão às respetivas redes, mantendo-se a aplicação da taxa normal ao montante variável a pagar em função do consumo.

Esta medida, que foi negociada pelo BE e PCP com o Governo, pretende "reduzir os custos associados ao consumo da energia e a proteger consumos finais", e implica uma perda de receita para o Estado de cerca de 19 milhões de euros em 2019, de acordo com a proposta orçamental.

Esta alteração da taxa do IVA tem de ser "previamente sujeita ao procedimento de consulta do Comité do IVA", adianta a proposta

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

Legalização da canábis, um debate sóbrio 

O debate público em Portugal sobre a legalização da canábis é frequentemente tratado com displicência. Uns arrumam rapidamente o assunto como irrelevante; outros acusam os proponentes de usarem o tema como mera bandeira política. Tais atitudes fazem pouco sentido, por dois motivos. Primeiro, a discussão sobre o enquadramento legal da canábis está hoje em curso em vários pontos do mundo, não faltando bons motivos para tal. Segundo, Portugal tem bons motivos e está em boas condições para fazer esse caminho. Resta saber se há vontade.

Premium

nuno camarneiro

É Natal, é Natal

A criança puxa a mãe pela manga na direcção do corredor dos brinquedos. - Olha, mamã! Anda por aqui, anda! A mãe resiste. - Primeiro vamos ao pão, depois logo se vê... - Mas, oh, mamã! A senhora veste roupas cansadas e sapatos com gelhas e calos, as mãos são de empregada de limpeza ou operária, o rosto é um retrato de tristeza. Olho para o cesto das compras e vejo latas de atum, um quilo de arroz e dois pacotes de leite, tudo de marca branca. A menina deixa-se levar contrariada, os olhos fixados nas cores e nos brilhos que se afastam. - Depois vamos, não vamos, mamã? - Depois logo se vê, filhinha, depois logo se vê...