O poema antirracista de Camões que João Miguel Tavares citou no 10 de Junho

Chama-se 'Endechas a Bárbara Escrava' e é um dos mais icónicos poemas da lírica camoniana. João Miguel Tavares usou-o no seu discurso do Dia de Portugal para pedir "menos exaltação patriótica e mais paixão por cada ser humano".

Com o nacionalismo a crescer em toda a Europa, João Miguel Tavares, organizador das cerimónias do 10 de Junho em Portalegre, usou precisamente o grande poeta do país para contrariar a intolerância no seu discurso no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

"No século XVI, Luís de Camões já cantava os seus amores por uma escrava de pele negra - tão bela e tão negra que até a neve desejava mudar de cor. Para desarrumar os estereótipos, talvez precisemos de um pouco menos de Lusíadas e de um pouco mais de lírica camoniana", disse o comentador. "Menos exaltação patriótica e mais paixão por cada ser humano - eis uma fórmula que me parece adequada aos tempos que vivemos."

A que poema se referia afinal João Miguel Tavares?

Chama-se "Endechas a Bárbara Escrava"e é um dos mais icónicos poemas da lírica camoniana. Aqui ficam as estrofes desse amor mestiço por quem Luís de Camões suspirou no século XVI.

Endechas a Bárbara escrava

Aquela cativa

Que me tem cativo,

Porque nela vivo

Já não quer que viva.

Eu nunca vi rosa

Em suaves molhos,

Que pera meus olhos

Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,

Nem no céu estrelas

Me parecem belas

Como os meus amores.

Rosto singular,

Olhos sossegados,

Pretos e cansados,

Mas não de matar.

Uma graça viva,

Que neles lhe mora,

Pera ser senhora

De quem é cativa.

Pretos os cabelos,

Onde o povo vão

Perde opinião

Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,

Tão doce a figura,

Que a neve lhe jura

Que trocara a cor.

Leda mansidão,

Que o siso acompanha;

Bem parece estranha,

Mas bárbara não.

Presença serena

Que a tormenta amansa;

Nela, enfim, descansa

Toda a minha pena.

Esta é a cativa

Que me tem cativo;

E. pois nela vivo,

É força que viva.

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