Fogos obrigam Força Aérea a formar pilotos com contratos a prazo

Combate aos incêndios implica ter mais pilotos, justificando o regresso à formação de contratados que estava suspensa há uma década.

A nova missão da Força Aérea em matéria de fogos florestais exige ter mais pilotos, mas essas operações serão feitas com recurso a pilotos com uma formação mais curta e menos dispendiosa do que a dos que pertencem aos quadros permanentes.

A informação foi dada esta quinta-feira no Parlamento pelo chefe do Estado-Maior da Força Aérea (CEMFA), general Joaquim Borrego, numa audição com a Comissão de Defesa marcada pelo atraso na disponibilização de todos os meios aéreos de combate aos fogos que se previa estarem operacionais na quarta-feira.

A missão que a Força Aérea assumiu este ano foi aprovada na sequência dos trágicos incêndios de 2017 e das falhas identificadas na resposta do Estado. Depois de adiada em 2018, por um ano, essa assunção de responsabilidades limita-se nesta primeira fase à gestão dos contratos dos meios aéreos alugados e dos relativos à manutenção e operação dos três helicópteros ligeiros do Estado (os Ecureuil, pois a transferência dos Kamov para a Força Aérea continua em análise).

Segundo o CEMFA, com mais helicópteros e novas missões de combate aos fogos "terão de ser contratados pilotos" - os chamados PIL, por contraste com os pilotos-aviadores (PILAV) formados na Academia da Força Aérea e que entram nos quadros permanentes - e cuja formação, a prazo, também "poderá ser uma forma de colmatar a necessidade do mercado".

Escola para pilotos de combate em Beja?

A formação avançada de pilotos para os caças F-16, que a Força Aérea deixou de fazer com o abate dos Alpha Jet, foi outra das questões colocadas pelos deputados ao CEMFA - e que aparenta manter-se no limbo mais alguns anos.

Segundo o general Joaquim Borrego, na mesa está a criação de uma escola de aviação militar europeia na base aérea de Beja - um projeto de que se fala há décadas mas que continua em banho-maria porque até hoje nenhuma Força Aérea europeia se quis associar.

"Vale a pena ter meios próprios", comprando aeronaves para substituir os Alpha Jet? "Compra-se a formação" a terceiros ou faz-se "um consórcio com países aliados" na UE, interrogou-se o CEMFA, indicando as três hipóteses que estão na mesa há pelo menos quatro anos.

Sobre a oferta apresentada há meses por uma companhia privada, que alugaria aeronaves M-346 (fabricados pela empresa italiana Leonardo, dos novos helicópteros Koala adquiridos para a Força Aérea), o general explicou que essa hipótese envolve atrair aliados para "fazer uma escola de aviação avançada em Beja".

O problema é que, apesar de haver "países europeus interessados" como a Bélgica e a Dinamarca (membros do consórcio de caças F-16 da UE que Portugal também integra) ou a Áustria, eles querem ver a escola a funcionar antes de se comprometerem.

Ora, sem o envolvimento inicial de países que depois acabem por não avançar, "ficamos isolados" - o que significará custos elevados que a Força Aérea não pode suportar ou o desinteresse da companhia privada que cede as aeronaves por falta de pilotos suficientes que rentabilizem o projeto da escola, explicou o CEMFA.

Com a formação dos pilotos dos F-16 a ser feita atualmente nos Estados Unidos, outra alternativa e menos dispendiosa passa por Itália, admitiu o general, pois a Força Aérea italiana utiliza caças M-346.

Acresce que, na base aérea de Galatina (Lecce), os italianos formam pilotos militares de outros países (Polónia, Singapura e Argentina, entre outros) nessas aeronaves M-346.

Falta de pessoal

Na exposição feita sobre a Força Aérea aos deputados da Comissão de Defesa, Joaquim Borrego - que tomou posse como CEMFA em fevereiro - observou que o recrutamento continua a ser uma grande vulnerabilidade presente e futura, pois à falta de atração de jovens vai juntar-se nos próximos anos a saída de muitos efetivos por limite de idade.

De qualquer forma, "todos os dias um décimo da Força Aérea não dorme" porque há sempre 600 militares em alerta de 24 horas para garantir a realização de missões de busca e salvamento, transporte de doentes ou de órgãos ou vigilância, sublinhou o CEMFA.

Quanto aos pilotos-aviadores, "praticamente já não temos ninguém à espera" para realizar voos de treino e qualificação como sucedeu durante os anos da troika e em que o número de horas de voo anuais baixou das cerca de 25 mil para pouco mais de 13 mil - prevendo-se que este anos já ultrapassem as 18.600, adiantou o general.

Aeroporto complementar de Lisboa

Sobre a adaptação da base do Montijo como aeroporto complementar de Lisboa, o CEMFA disse não haver ainda novidades mas já estarem definidos os passos a dar assim que a decisão final estiver tomada (depois de conhecido o estudo de impacto ambiental).

Certo é que até abril do próximo ano será libertado o espaço aéreo sobre a base de Sintra por causa dos acessos ao aeroporto Humberto Delgado, informou o CEMFA.

Ainda sobre o Montijo, o general Joaquim Borrego lembrou que as alterações ao dispositivo da Força Aérea implicarão "movimentar cerca de 800 famílias".

Questionado pela deputada Maria da Luz Rosinha (PS, antiga presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira) sobre Alverca, admitida como alternativa ao Montijo para acolher o aeroporto complementar de Lisboa e onde a Força Aérea tem o seu Depósito Geral de Material, o CEMFA deixou a garantia de que essa unidade "é estratégica para [o ramo]".

Além da pista, "que dá apoio à OGMA", Alverca "tem características muito interessantes" - como estar junto à autoestrada Lisboa-Porto (A1) e à CREL (A9), a uma estação de comboios e num local onde se pode construir um grande cais para ligações fluviais à capital. Tudo somado, "a Força Aérea vai manter-se" em Alverca, concluiu.

Ler mais

Exclusivos